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a noiva do vento



Peça para uma criança definir o vento. Eu apenas acreditava na existência real do ar quando ele virava vento. Quando era tomado de força, ganhava forma, movimento, atiçava a minha curiosidade. A observação do vento ainda atrai os pequenos. Na pracinha aqui perto havia uma menina sentada à sombra com a mãe. Olhava com atenção as folhas secas que trocavam de lugar no chão. Nem balanço, nem gangorra, a garota estava descobrindo o vento.

O vento tem intimidade com a paixão.

 Oskar Kokoschka pintou A NOIVA DO VENTO com pinceladas desesperadas, cores nervosas, num quadro que emoldura a própria enxaqueca do abandono. Na obra, uma mulher adormecida sobre um corpo masculino, cujos olhos não passam de órbita vazia – tradução da ausência de vida. A mulher não o deixa, mesmo que ele já a tenha deixado. Mesmo que ele já esteja morto. A ausência de qualquer conotação sexual pela ausência de cores quentes (vermelho, laranja) e o excesso de tudo aquilo que pode faltar, que remete ao gelo e à solidão pelo uso dos diversos tons de azul, verde e cinza que não permitem identificar qualquer paisagem coerente.

O quadro pede ajuda. É uma obra de ser vista em silêncio, porque ela grita. Chora. Sofre pela harmonia que existe entre a presença e a ausência. A paixão fugiu do corpo.

Kokoschka pintou a mulher. Alma e ele tinham uma relação tumultuada, o amor e a paixão eram alimentados pela intranquilidade. Ela reconheceu que o relacionamento entre os dois era inviável. Não aprendeu a se dedicar a Oskar. Não foi dele. Alma, que era viúva, jamais esqueceu o falecido marido, Gustav Mahler. Era a noiva do vento. Oskar tirou dela a inspiração para sangrar em tintas. Expressou seu sofrimento em forma de arte. 

Noiva de uma força que a tomava de paixão, mas que nunca poderia ter. 

Quantas paixões são despertadas pelo vento? Quantas pessoas investem o amor numa flutuante e leve rufada de ar, que vai levar as folhas, que pode se transformar em furacão, mas que vai passar porque não há forma de existir.

O amor. A angústia. Cavalos que correm como favoritos nas apostas sentimentais. Um dá ao outro a motivação para chegar na frente, um tira do outro a força de cruzar antes a linha de chegada.

A NOIVA DO VENTO representa o abandono do artista. É o reconhecimento da utopia, da fragilidade do seu devaneio, o fracasso pela ilusão de ser amado por uma mulher que não se livrará do passado.

Esta noite acordei com um suspiro forte do meu marido. Ele fez o meu cabelo mexer com o vento da respiração enquanto me abraçava. Não sou a noiva do vento. Amo um homem que me faz vento para que eu saiba que o amor existe, ainda que eu esteja dormindo. Ainda que eu não enxergue, me sinto amada. Ele é a minha realidade.


Eu fico toda brisa...



No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas
que o vento não conseguiu levar:
um estribilho antigo
um carinho no momento preciso
o folhear de um livro de poemas
o cheiro que tinha um dia o próprio vento...

(Quintana) 

Comentários

Anônimo disse…
Linda, inteligente e gente fina!
Marcos Gomes disse…
incrivel analise !!!!
Anônimo disse…
Uau!!! A análise me arrepiou mais que a própria obra. Um artista grande desse nível não merecia análise mais bem construída!
Licio disse…
Este comentário foi removido pelo autor.
Licio disse…
Este comentário foi removido pelo autor.
Licio disse…
Sensível e bela a análise de Kuky. Melhor até que a própria história do autor em tela. Na verdade, Kokoschka queria desesperadamente casar com Alma Mahler. Esta, mais por antever a desgraça e menos por saudades de seu ex-marido, Gustav, fugiu de Kokoschka, se entregando a Walter Gropius (seu ex-amante). De fato, Alma mostrou-se fugidia como o vento, caindo-lhe bem a referência (nome do quadro dado por um amigo de Kokoschka, George Trakl) de noiva do vento.
Li com a intenção de aprender algo objetivo sobre a obra e fui tocada por sua subjetividade. Que análise linda! A melhor que li até agora. Muito obrigada pelo tom informacional e lírico, ajudou bastante.
Anônimo disse…
Analise sensacional!!!!

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