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a fidelidade da tampa



Já falei sobre a minha cozinha? Digo MINHA e friso em caixa alta, com grifo MEU. Não me venha com “grifo nosso”, sempre escrevo as minhas barbaridades em nome próprio e sozinha, ainda que dentro de mim habitem muitas. Calma, antes de analisar a minha multiplicidade de personalidades, vamos falar do sentimento de posse. A cozinha é MINHA, não porque sou possessiva. Sou. Finjo que não – escrever é confessar. A cozinha é MINHA porque não é da casa.

É meu xodó.
É a minha academia.
É meu parque de diversões.

Nenhum garfo mora lá sem que eu tenha permitido. Escolhi cada porta e todas as medidas dos armários, improvisei uma horta, pendurei talheres grandes, escolhi os panos de prato. Amo a cafeteira e faço milagres na minha batedeira planetária.

Só eu cozinho.

Admito mão-de-obra aprendiz para bater um bolo ou untar uma forma. Empresto para que o marido e o filho usem na minha ausência apenas nos casos de emergência. Leia-se inanição.

Mentira.

Pizza congelada e miojo estão liberados. Qualquer coisa que não use mais de uma forma e o forno elétrico está liberada. De resto, morro de ciúmes da minha, ou melhor, MINHA cozinha.

Justifico-me com a ajuda da psicologia. A cozinha é o útero materno, é dentro da casa, a origem da vida. A cozinha é de onde vem o alimento, fonte de energia, tem íntima relação com a saúde. Quando nasce um bebê, a primeira intimidade que ele cria é com a alimentação através do seio materno. É dali que vem todo o conforto para a sua vida fora do útero seguro. É o prazer que cura seus medos, angústias e aflições. Desde o início da vida humana a alimentação está associada tanto a afeto e proteção quanto seu preparo está indelevelmente ligado ao universo feminino. E eu sou muito feminina, muito esposa e muito mãe. Alimento a família. Sinto prazer e satisfação em inventar, preparar, enfeitar e servir as refeições. Dobro os guardanapos, escolho a toalha de mesa, limpo a mesa.

A cozinha de uma família é a sua história. Através da cozinha são desenvolvidos estudos antropológicos. Duvidam? Já leram Casa Grande e Senzala? Gilberto Freire traça todos os perfis a partir da cozinha. Os personagens nascem na cozinha, cada recita de bolo é transmitida como um código genético. É uma herança de ingredientes, rituais e sabores que emoldura o enredo.

Em casa, sou eu quem providencia as refeições, do café da manhã ao chá quentinho antes de deitar. Abasteço a despensa, elaboro cardápios, invento jantares, testo novos sabores, regulo a sobremesa. E por conhecer a porção que cada um consome, dificilmente sobra alguma coisa, o que me faz usar poucos portes plásticos para guardar restinhos na geladeira.

Há poucos dias infartei. Percorri uma maratona dentro do armário. Culpa da infidelidade.

Explico. Sou ciumenta com a cozinha, mas não consigo dar conta de tudo. Eventualmente conto com a ajuda de algumas moças que costumam limpar a casa semanalmente. E, sim, isso inclui a MINHA cozinha.

Precisei de um pote para guardar na geladeira algumas frutas que havia picado. Em tempos de correria, facilita muito! Abri o armário e todas as tampas estavam divorciadas de toos os potes. Precisei garimpar com meio corpo dentro do armário até encontrar a tampa do pote que havia separado. Foi fácil convencer a fazer as pazes.

Concluí que a culpa é da infidelidade. O armário dos potes é um verdadeiro troca-troca de casais. O Sofazão dos tuppewares. Muitos potes gêmeos confundem as tampas gêmeas e daí, por causa da confusão, vai cada um para um canto. Acredito que seja esta a conclusão da moça que me auxilia em casa. Achei justo. Achei digno. Tem vocação para mediadora de brigas matrimoniais.

Como sou boa casamenteira, praticamente uma Santa Antônia, reatei os casais. Devolvi a harmonia aos potes, unindo cada um com a sua tampa amada. Isso facilitou bastante a minha vida, porque hoje de manhã, ao fazer o lanche que o filho leva para a escola, a sanduicheira estava feliz da vida, ao meu alcance, com sua tampinha hermeticamente fechada.

Nas gavetas das panelas, a história é outra. Cada uma tem a sua tampa. Menos as frigideiras que tratei de ter em número par, com tamanho semelhante. Guardo-as juntas para amenizar a solidão. A leiteira também é uma sem-tampa, mas não está nem aí, só quer ferver. Já o escorredor, tadinho, sofre bullying porque nem panela é.

A felicidade voltou às prateleiras. A alegria e o sucesso de um casal está intimamente relacionada com a fidelidade. A dedicação exclusiva ao par, à família. A fidelidade é a melhor amiga da tranquilidade. A vida de um casal só é plena com a honestidade.

Por isso a panela de pressão vive nervosa, bufando, hipertensa, prestes a explodir!
Adquiri uma que vem com duas tampas.

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