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heidegger não me cai bem

(da série dialoguinhos)


- Era uma vez eu. E ele. Na verdade, eram muitas vezes, uma porção de eu e um montão deles. Não que eu fosse muitas todas de uma só vez, ainda que eu tenha quase certeza de ter múltiplas personalidades, muitos medos de desenvolver patologias, de ser dominada por uma de mim que não é exatamente quem eu sou e jamais voltar a ser eu mesma. Enfim... uma frota de eu, uma frota de eles. Os tempos eram outros, outros princípios, outras visões sobre tudo, outras opiniões, maturidade, objetivos, responsabilidades e vida. Porém, todas essas que eu fui, não eram apenas filhas das situações que eram muitas vezes. Era uma vez cada uma das situações, onde – sim – influenciavam na eu, mas além disso, tinha um pouco de eu dentro de mim. Entendeu?



- Não.



- Bom, vou mais adiante. Era eu, mas não a eu de agora. Todas eu que fui foram inéditas. Surgidas dos imprevistos que a vida impõe. Cada uma uma particularidade e ainda um núcleo fundamental, imutável. Nesse núcleo, as demais partículas se agregavam, conforme cada um deles. Bom, os príncipes sempre eram sapos e os sapos, bom, os sapos se mantinham convictos em serem sapos mesmo. Daí houve uma sucessão de finais infelizes, sem cenas dos próximos capítulos. Também nessas vezes não se faziam continuidades. Nem sequencias ou remakes. Dor, sofrimento, escuridão confusão. Entendeu?



- Ainda não.



- Tu já vai entender. Assim... ao mesmo tempo que hoje eu sou a mesma daquela vez e de todas as outras vezes, hoje eu sou mais uma outra, só que não vinda de todas as minhas eu que já se foram. O que eu quero dizer é que hoje eu sou exclusiva, jamais impressa, inédita na totalidade, mas que em vez de ter agregado no meu núcleo fundamental quilo que vinha de mim, zerei tudo. Não sou inédita por agregar um pouco de tudo que já se foi, porque já se foi mesmo. Eu sou nova porque sumi. Aos poucos venho surgindo. Tem sido bom porque eu nem acreditava mais que pudesse me montar, ainda mais tendo como base o nada, um completo vazio. Entendeu?



- Tu andaste lendo metafísica de novo?



- Talvez um pouquinho de Heidegger, eu nem gosto muito dele. Gosto mesmo das teorias sistêmicas!



- Tudo bem, mas onde tu queres chegar?



- Ah, esquece. Resumidamente, todas as incertezas assinaram a lista de presença, o que me leva a crer que há incontáveis variáveis, muitas possibilidades, uma vastidão de escolhas e oportunidades. Estou feliz por viver. E empolgada com tudo. Adorando preencher o nada.



- Às vezes tu falas entre aspas.



Há dias em que eu passo longe de qualquer coisa que lembre casinha.
Mesmo nesses dias, eu adoro brincar de casinha...
 
 
----
 
Gerânio - Marisa Monte (já disse que eu adoro gerânio)
 
 
Ela que descobriu o mundo



E sabe vê-lo do ângulo mais bonito


Canta e melhora a vida, descobre sensações diferentes


Sente e vive intensamente






Aprende e continua aprendiz


Ensina muito e reboca os maiores amigos


Faz dança, cozinha, se balança na rede


E adormece em frente à bela vista






Despreocupa-se e pensa no essencial


Dorme e acorda






Conhece a Índia e o Japão e a dança haitiana


Fala inglês e canta em inglês


Escreve diários, pinta lâmpadas, troca pneus


E lava os cabelos com shampoos diferentes






Faz amor e anda de bicicleta dentro de casa


E corre quando quer


Cozinha tudo, costura, já fez boneco de pano


E brinco para a orelha, bolsa de couro, namora e é amiga






Tem computador e rede, rede para dois


Gosta de eletrodomésticos, toca piano e violão


Procura o amor e quer ser mãe, tem lençóis e tem irmãs


Vai ao teatro, mas prefere cinema






Sabe espantar o tédio


Cortar cabelo e nadar no mar


Tédio não passa nem por perto, é infinita, sensível, linda


Estou com saudades e penso tanto em você






Despreocupa-se e pensa no essencial


Dorme e acorda

Comentários

Carlos disse…
E tem aquelas vezes que tu perde a chave da casinha, né?
Mas, com ou sem as chaves, esta casinha continua Única!

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