Pular para o conteúdo principal

aquela coisa

*terceiro e último!



Costumo ser o terror dos dicionários. Eles me detestam por inventar palavras, transformo nomes próprios em adjetivos, conjugo subjetivos, faço uma verdadeira orgia de palavras. Sempre quero inventar uma maneira inédita de dizer coisa simples, pelo prazer único de testar complicações imaginárias. Olho assim, com cara de criança que enfiou o dedo no bolo antes da hora de cantar parabéns.  Espero ansiosa que me implorem explicação sobre o dialeto. Por maldade, muita vezes, não explico. As interrogações são amigas. Ou navalhas.

É mania do mundo dar nome pra tudo. Antes mesmo de saber o sexo do bebê, já se pensa no nome. Apressa-se o batismo. E se a criança não tem a cara do nome? Os pais escolheram Leonardo, nasce um menino com cara de Marcelo. Os pais escolheram Laura, nasce uma menina com cara de Patrícia. Não deixamos nada ser anônimo em paz, pelo menos um apelido precisamos colocar. Tem um apelido que serve pra tudo: “ aquela coisa”.

“Aquela coisa” não tem sexo, gênero ou caráter. Serve pro bom e serve pro ruim. Pode ser a moldura da preguiça. Quem não quer pensar no que sente, embrulha logo num “aquela coisa”. Deu, cada um entende como quer. Uso “aquela coisa” cada vez que penso no que eu sinto e não sei que nome dar. Passa um pouco da linha de gostar, não é amor, não é paixão. Posso gastar neurônios e mais neurônios pensando, pode sair fumacinha das minhas orelhas. O sentimento não tem nome. Fica mesmo com o apelido. E quem nunca sentiu “aquela coisa” que atire o primeiro coração partido. Você sente saudade, sente falta, quer estar junto, mas não muito. Quer ligar, mas esquece. Quer que o outro ligue, mas se, por obra do destino, não ligar, tudo bem. Ou não, você não está num bom dia e “aquela coisa” resolveu sentar no peito e pesar. Ele não ligou para o celular, mas ligou seu botãozinho do drama.

- Mas nem parecia que tu gostavas tanto dele.
- E não gosto!
- Então por que isso?
- Não sei. Pode fazer o favor de me deixar?

A intensidade é variável. A sensação é inominável. Qualquer um é livre para sentir o que quiser e chamar como for. O coração é livre.

É um vazio de palavras recheado de sentimentos. Quanto mais se explica, mais se entra em contradição. Mil voltas no mesmo lugar. As emoções não são vazias, não é uma falta do que sentir. Sentimento há, só não se sabe o quê. É doce? É salgado? É macio ou crocante? Vem antes do amor? Depois? Sinceramente, não sei. Só garanto que existe.

Eu quero paz e arroz
O amor é bom e vem depois
Si si vira
Si si vira
Pois eu preciso de um cachorro
Pois eu preciso de um amigo
Os meus amigos me abandonaram
Pensando que eu tivesse a perigo
La la la la la la la la la la la la
Eu quero paz e arroz
O amor é bom e vem depois
Si si vira
Si si vira
Pois além de grande amigo
Eu preciso de alguém
Que me trate com carinho
Que me fale de amor
Das coisas lindas da vida
Das coisas lindas da paz
Eu quero paz e arroz
O amor é bom e vem depois

Comentários

Carlos disse…
Se até o Rui Barbosa inventava palavras, por que a Kukynha não poderia...

Postagens mais visitadas deste blog

o zodíaco, por mim mesma

Eu nunca acreditei muito nessas histórias de signo, até 2003. Horóscopo e previsões até hoje não leio, não levo a sério, uso pra fazer brincadeiras sobre o meu dia. PORÉÉÉM, em 2003, caiu nas minhas delicadas mãos cheias de dedos, e em frente aos meus olhos cheios de curiosidade, uma descrição da personalidade da pessoa de aquário. Era eu. E mais, uma descrição de uma pessoa de capricórnio. Era a minha irmã. Corri pra descrição do signo de touro – pessoa que mais tarde seria meu namorado – foi batata! Comecei a acreditar um pouquinho. Li todas as descrições de todos os signos e ficava tentando decifrar nas pessoas algumas das características e não é que MUITAS coisas batiam? Mais tarde me apresentaram um livro chamado NASCIDO NUMA DROGA DE DIA. É perfeito. Desde então acredito sim que os signos têm influência na personalidade das pessoas. Não que sejam todas iguais, mas que alguma coisa tem... Tem. Tem sim. E isso tem muito a ver com a maneira como as pessoas se relacionam com...

oral b

Coleciono desastres. É sério. Eu sou um desastre pra um montão de coisas: dançar junto, fazer pudim, empinar pipa, acender lareira e fazer surpresa. Eu entrego a surpresa antes do tempo. Não sei conter a minha expectativa, apresso os resultados. Dizem que o apressado come cru, pois eu sou tão apressada que sirvo cru pro outro comer. Não sei comprar presente antes e esperar pra dar. Preciso esconder o pacote. Esconder de mim, claro. Dou bandeira. Pergunto se prefere verde ou azul, sendo que eu já comprei verde mesmo. Fico medindo a pessoa pra ver se vai servir. Não sei brincar de quente e frio, já vou apontando logo: aqui é a Sibéria, pra lá é o Caribe. Há anos minha irmã organizava as festas surpresa de aniversário pra mim. Cabia a mim exercitar a paciência, enrolando as horas pra chegar em casa a tempo de fingir que não sabia de nada, vendo os balões e o bolo. Hoje ela organiza a própria festa e eu a surpreendo invadindo. A data dos nossos aniversários tem diferença de uma seman...

biscoitices

Dessas tantas ruas por onde passo, de todos os caminhos que não decoro, por tudo onde já me perdi, afirmo com certeza que nenhum rumo é plano ou reto. Há sempre uma curva, um degrau, uma pedra, um muro, uma árvore. Eu sou uma desinventora. E o que eu desinvento a mim pertence. O que não pertence, eu furto, ou roubo armada de flores, risada e cara de doida. O que é viver se não é praticar a insana alegria de mais um dia. Rotina não cansa. Desmonto as horas em minutos e na hora de montar novamente sempre sobra um tempo que vira saudade, que vira bobagem, que vira suspiro, que vira só tempo perdido mesmo. O que me aborrece é pensar que quase preciso pedir desculpa pela minha felicidade, como se a tristeza fosse servida junto com as refeições. Não tenho lentes cor de rosa para o mundo, nem sei brincar de contente, mas com tudo que já vem fora de encaixe, não preciso procurar o que mais pode ser alvo do meu descontentamento. Todos temos cicatrizes. Só procuro levar tudo de forma que e...