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faço laço melhor que rima

Descobri que a liberdade do sentimento é a melhor maneira de se preservar. Não é não amando que não se sofre. O não amor é o próprio sofrimento. O avesso do amor não é a raiva, não mora na traição e não está no ponto final de nenhum casal infeliz. Avesso de amor é apatia. O contrário do amor é não sentir falta da falta, não dobrar sorrisos para guardar no bolso e usar depois. Meu coração não é pálido. Misturo com os dedos as cores das tintas que vou usar em cada pulsação. Não sei guardar sentimento, pinto para depois pendurar por aí. Bem que eu gostaria de conseguir simular algumas reações. Tenho sobrancelhas faladeiras, precisam fofocar entre si quando algo acontece, fazem plissar a minha testa. Meus medos e amores ficam literalmente escritos na minha cara. Por economia de desculpas, confesso tudo. Assumo tudo: amores diários, passageiros, platônicos, eternos, passageiros. No meu coração tudo tem lugar. É uma salada de frutas. Cada vez que preciso organizar, é uma tormenta. ...

porta fechada

Afastem-se. Sejamos precavidos, mais sensato manter longe do que mexer com explosivo. Fiquem longe os doloridos, os reprimidos, os gemidos, os coloridos, os bons maridos, os frascos e os comprimidos. Pro lado de lá vai quem chora, quem funga, quem espirra, quem finge, quem come bala de canela, quem esquece de secar as orelhas depois do banho, quem vira o chinelo pra porta e quem toma café com leite. Por favor, respeite a linha amarela. Para trás da faixa de contenção os que prestam atenção, os que pedem a mão, os que pedem perdão e qualquer outra qualidade que rime com “ão” em pessoas que pisem no chão. Pro lado de cá os metafísicos cientistas malucos, agrimensores, filósofos, teóricos, incendiários, deturpados, tarados, maníacos e os que têm pé chato. Longe. Mais longe ainda os suicidas, homicidas, herbicidas e inseticidas. Quero bastante distância dos que usam óculos, dos que usam camisa xadrez, dos que acordam depois das seis, dos que bebem água no bico, dos que abrem as janelas....

pólen do riso

Costumo me abandonar às vezes, apenas para não me esgotar. Não uso até o fim todas de mim. Vivo e morro muitas vezes, até num mesmo dia. Posso cansar de tudo, jamais suportaria meu próprio tédio. Por falar em tédio, este é um senhor de quem esqueci o cartão de visitas no fundo de alguma gaveta. Dificilmente lembro-me de vivê-lo. Tenho muito riso para dar. Eu me agrado fácil. Hoje ri porque uma flor pousou no meu ombro enquanto eu revirava a bolsa atrás da chave do carro. Uma florzinha branca, dessas sem vaidade, que já nascem com a beleza que precisam. Veio e se sentou, como um papagaio. Encarei com dúvida até me convencer do que era. Ela me encarou com pólen. Olhei em volta para procurar a mãe da flor, a árvore mora quase na outra esquina. Com a ajuda do vento e um pouco de sorte, unimos nossos destinos. Deus existe nesses momentos. Não é na súplica, na raiva ou na devoção, Deus existe em tudo que nos toca. Sorrir é simples e divino. Às vezes tudo que a outra pessoa precisa é de...

um medo de dar medo

(mais um da série contículos) Chamava-se Francisca. Não uma Francisca Chica, essa não tinha alcunha. Francisca e ponto, gostava do nome. Era alta suficiente para alcançar suas coisas ficando na ponta dos pés, mas gostava de usar mochinhos. Falava muito, pelos cotovelos, pelos dedos. Quando parecia silenciar, falava com os olhos, os cílios faziam mímica, as pálpebras tagarelavam. Mesmo muda ela era ensurdecedora. Perguntava coisas estranhas. Contava a vida   Numa tarde, sentada num banco, soprava plumas de um dente de leão que apareceu antes do tempo. Enquanto os pés inquietos pinicavam o chão, passou espirrando um Gustavo de muitos apelidos. Tantos apelidos quanto alergias. A primavera é uma estação linda e impiedosa. - Olha, ficou careca! – Francisca mostrou a semente desplumada. Gustavo riu sem mostrar os dentes, fungou um cheiro sério. - Calma, a primavera já vai acabar. Se bem que o início do verão também pode ser um problema pra ti. Sabia que e...

bacio

Casar anda muito moderno. Mais moderno do que casar é manter-se casado. Em tempos onde o divórcio é presenteado com facilidades, conservar o estado civil contratado pelo casamento é um desafio moderníssimo. Os casais insistem em casar. Insistem mais do que em permanecerem casados. Às vezes o matrimônio exige insistência – a maioria das coisas que se faz em dupla exige, mas não sei porque em matéria de casamento a palavra insistência vem acompanhada de revirar de olhos e bufadas. A insistência não é ruim. Os maiores e os menores feitos da humanidade são paridos da insistência, até aquelas descobertas acidentais. Adoro casamentos, tenho cerimônias de núpcias em todos os finais de semana de outubro. Haja vestido! Acho linda aquela hora que os noivos trocam olhares de cumplicidade. Gosto mais ainda quando cochicham qualquer coisa deixando o público curioso. O noivo fala baixo no ouvido da noiva. A noiva ri. Todos ficam curiosos. Ah... juras de amor! Ou pequenas piadinhas entr...

fábrica de memórias

A maior virtude do passado é se transformar em lembrança. Viajar para outro tempo usando a cabeça, ter o coração como bagagem e ficar hospedado em alguma memória sem hora marcada de ida ou de volta. Um passado que volta sem ser convidado. Cheiro de rosa me leva pra casa antiga da minha avó. Lá tinha uma varanda que servia de palco, tinha cristaleira com espelho no fundo que deformava a imagem, tinha banheira branca de louça, bacia de alumínio e capim cidró plantado no pátio dos fundos. Bolo de milho e café preto têm gosto de infância. Garopaba lembra meus pais. Caderno novo, primeira série, mesmo depois da faculdade. A lembrança é uma flor que nasceu fora de época. Em tempo que já passou, não se mexe. O que foi está junto com quem fomos. Lembrar é um exercício de assistir ao filme que não existe, mas nós fizemos. O que passou e fez rir, o que passou e fez nascer tristeza, cicatrizes e esquecimentos propositais fazem parte dos tijolos da nossa estrutura. Sim, somos, além de sonhos e d...

divertissement

Já declarei a minha admiração por quem sabe dançar. E também já confessei que sou uma desengonçada. Dançando sozinha, até engano. Mexo um pouco pra lá, um pouco pra cá. No auge do entusiasmo posso até arriscar os vexatórios dois dedinhos apontados para cima. Os amigos me guilhotinam os dedos com o olhar. Nunca tentei fingir que sabia. Até faz parte do meu show não saber. Eu sou partidária da ideia que quem tudo sabe ou tudo faz não se dedica a nada. Eu me dedico a cantar desafinadamente todas as músicas, muitas vezes errando a letra. Dançar que é bom, nada. Ou muito pouco. Ok, nada. Mas me mexo. Com ritmo! Se eu admiro as pessoas que dançam bem, admiro mais ainda as que dançam bem juntas. Alguém que sabe dançar, que nasceu com o dom da molinha nos quadris, baila sozinha sem preocupação. Mas ao dançar com alguém, depende que encaixe um passo seu, no do outro. Falo isso com relação à dança de improviso, não das coreografias de palco, ensaiadas. Lembro de um ensai...