domingo, 27 de novembro de 2011

endereço

Nada do que eu disse foi o que eu quis dizer. Deixei de fazer o que eu queria. Parece que a vida nos desafia a provar que existimos. O fato de não conseguir dizer não significa que eu não quero. Você me tira de mim. Fico procurando nas minhas cartas de desculpas os porquês que eu preciso. Nenhuma diz. Nenhum coringa. Sem cartas nas mangas. Sem cartas na mesa. O jogo é de memória.




Muita coisa mudou. Eu me mudei. Precisei me mudar de Vila Vazia. Ocupo muito espaço, ocupo mais que o próprio corpo, gasto sempre mais do que tenho. Sou perdulária de ideias. Não economizo destinos. Além da alma cigana, tenho gosto pelo dramático. Vou mambembe da honestidade da minha caneca de café preto de todas as manhãs aos delírios e inventos das canecas de chá à noite. O líquido reflete realidade e sonho, sem açúcar. Ida e volta no portão de embarque dos pensamentos. Levo a bagagem nos bolsos. Histórias na pele. Saudades nos olhos.



Eu me mudei porque estava ocupada demais, cheia de mim por todos os cantos. Transbordada de mim mesma nos espelhos que mudam a forma apenas pra confundir.



Fugi de Vila Vazia. Dobrei a esquina, entrei na Rua Sem Sentido. Na contramão.



Hoje é um tempo em que vivo mais do que jamais pensei. Hoje, ver você faz visitar a casa que morei e não é minha. Lembrei de quando eu estava aprendendo a caminhar. Esbarro na mobília fora do lugar, entro mais uma vez no brilho do teu olho confuso.



Eu sempre procuro as tuas pupilas.



Abro as janelas no teu sorriso. Espero a música entrar e tem a tua voz, familiar, acolhedora, como os lençóis que saem do varal para a cama. Eu não seguro a tua mão, mas nossas risadas se abraçam. Somos quase estáticos tentando repreender nossas inconsequencias. Medimos os passos e abreviamos a distância com o piscando os olhos. Eu não pude saber antes. É amor? Foi amor? E agora? É tarde? Um dia saberemos?



Nós nunca nos perguntamos.

Queremos nos responder o tempo inteiro.



Talvez você pense que é tarde. Pois eu digo que nós não usamos relógio. Perdemos a hora. Inventamos o nosso tempo.



Faço questão de ser apresentada aos meus erros para reconhecer os acertos se eles aparecerem. Estranhos acertos. Mas em matéria de nós dois, tudo é estranho. Tudo é diferente. Jamais seremos iguais aos outros. Somos lacunas abertas por onde o sangue deve passar. Somos difíceis de completar. Ainda quero escrever no teu braço, te emprestar o meu bolso, contrariar as tuas teorias e te fazer de bobo. Em troca você me dá saudade. Pior castigo.



Às vezes eu canso de ser o tipo certo de pessoa errada. Às vezes eu posso ser parada. Eu quero fixar residência. Quero morar Em Ti.

 
SOMETIMES - CITY AND COLOUR
 
 
If I was a simple man,



Would we still walk hand in hand?


And if I suddenly went blind,


Would you still look in my eyes?


What happens when I grow old?


And all my stories have been told?


Will your heart still race for me?


Or will it march to a new beat?


If I was a simple man






If I was a simple man,


I'd own no home, I'd own no land


Would you still stand by my side?


And would our flame still burn so bright?






Sometimes I wonder why,


I'm so full of these endless rhymes


About the way I feel inside


I wish I could just get a ride






If I was a simple man


And I could make you understand


There'd be no reason to think twice


You'd be my sun; you'd be my light


If I was a simple man...


If I was a simple man...






Sometimes I wonder why


I'm so full of these endless rhymes


About the way I feel inside


I wish...


Sometimes...

domingo, 20 de novembro de 2011

stomachion das relações

Ele irá acusá-la. Ela irá rebater. Ou vice-versa. A briga acontecerá, será inevitável. Romances esbarram em placas de pare erguidas pelas particularidades das pessoas. Esquecemos que no relacionamento não somos um, continuamos dois. Quando lembramos, ditamos que sempre fomos assim e que nada mudará: ele me conheceu exatamente deste jeito.



Está errado.



A maioria dos solteiros – aqui falo tanto em homens quanto em mulheres – desalmados, egoístas e promíscuos que eu conheço se transformam em seres agradáveis, doces e fiéis quando amam. Amor exige disposição. O amor requer muito do que jamais nos foi dito. Você irá mudar, talvez nem perceba. Mudará sem evitar. Por isso ao acabar o relacionamento é comum que o outro diga que agora caiu a máscara. Calma, alto lá. Somos seres em constante mudança, unimos a nós o nosso meio. Por isso prefiro sempre evitar as brigas.



É comum que o casal pense que poderá ficar junto sem ser diferente, mas sempre um pede que o outro se transforme. Ela comprará a camisa rosa que ficará esquecida atrás da última pilha de roupa. Ele a presenteará com o perfume doce que dá náusea só de ver a silhueta do vidro.



Evito brigas por questão de economia de energia. Tudo tende a se acertar com conversas sinceras. Ou na praticidade dos beijos. Particularmente, apelo para o bom humor.



- Já recolhi quatro canecas de café espalhadas pela casa. Sem falar nos livros! Não tem como usar a cama, nem o sofá ou a mesa da sala! Por que tu não estudas num canto só da casa? E por que não usa uma caneca só para todos os cafés do dia?

- Lindo, sabia que a cadeira elétrica foi inventada por um dentista?



Ele me lançou olhar de medusa. Virei pedra enquanto ele carregava meus livros e canecas para lugar incerto. Percebi que não estávamos na mesma trilha, não havia disposição por parte dele para transformar um relacionamento sério em um relacionamento divertido. Eu gostava de cultura inútil, ele da casa arrumada em época de prova. Sem falar que ele me deu o trabalho de ter que espalhar pela casa todas as canecas e livros novamente. Na faculdade a decoração do caos inspirava meu bom desempenho!



Evitar a briga é uma brincadeira de quebra-cabeça. Temos muitas peças, precisamos montar uma figura. Não precisa ser a figura correta, a figura que servir, serviu. É uma questão matemática, onde muitas possibilidades são possíveis, o trabalho é encontrar as peças, as palavras certas, as atitudes corretas. É uma questão de física e de matemática, Arquimedes já estudou. Precisamos observar, tanto quanto ele observou o volume de água da banheira para criar a lei do empuxo. Singelas constatações que o levaram a sair gritando EURECA pela rua, nu – dizem os fofoqueiros da época.



Talvez num primeiro momento Arquimedes não pareça ter a menos intimidade com o amor. Mas tem. Foi ele quem inventou o parafuso hidráulico. Nunca fui numa festa da porca e o parafuso, mas considero uma das ideias mais geniais. Homens com parafuso, mulheres com porca, o objetivo é encontrar o seu par. Penso na quantidade de abordagens incríveis, na troca de parafusos, porcas puritanas se negando a experimentar o parafuso. Quem acha seu par nesta festa deve acender uma vela para Arquimedes.



Para evitar brigas, precisamos usar um stomachion das relações. Este foi o quebra-cabeça estudado por Arquimedes, um quadrado dividido em quatorze peças geométricas que podem tanto voltar a ser quadrado, depois de embaralhadas, quanto se transformar em qualquer figura a partir de diversas montagens. Arquimedes gastou muito tempo brincando para tentar determinar um número de soluções possíveis. Foi mais fácil chegar ao valor do “PI”. Como às vezes é tão difícil agradar.



É necessário ter muitas peças para formar uma unidade. A resposta adequada depende de observação e habilidade. Não funcionou um, passemos ao próximo. As possibilidades são muitas. Evitar briga não é uma questão de preguiça, dá trabalho.



Outro dia ele reclamou dos meus atrasos:

- Marcamos às oito, uma hora de atraso! Não vai dar tempo de jantar antes do cinema.

- Podemos comer depois!

- Eu estou com fome agora...

- Compraremos sacos gigantescos de pipoca, com muita manteiga, de nadar dentro!

- Não gosto de pipoca.

Quando falham argumentos, apelo para força bruta. Pulei em cima dele prensando contra a parede, beijei e sorri:

- Quer saber? Pra que cinema se a gente pode fazer o nosso filme? Pra que janta quando a gente pode pedir uma pizza? Pra que se preocupar com horário se podemos inventar nosso próprio tempo?



Ele sorriu de volta e me abraçou. Consegui. Evitar brigas é encontrar a cumplicidade das peças: ela e ele.



Quando conseguir, vale gritar EURECA pela rua.

Mas certifique-se de estar vestido.



O Vento


Los Hermanos



Posso ouvir o vento passar,

assistir à onda bater,

mas o estrago que faz

a vida é curta pra ver...

Eu pensei..

Que quando eu morrer

vou acordar para o tempo

e para o tempo parar:

Um século, um mês,

três vidas e mais

um passo pra trás?

Por que será?

... Vou pensar.



- Como pode alguém sonhar

o que é impossível saber?

- Não te dizer o que eu penso

já é pensar em dizer

e isso, eu vi,

o vento leva!

- Não sei mais

sinto que é como sonhar

que o esforço pra lembrar

é a vontade de esquecer...

E isso por que?

Diz mais!

Uh... Se a gente já não sabe mais

rir um do outro meu bem então

o que resta é chorar e talvez,

se tem que durar,

vem renascido o amor

bento de lágrimas.

Um século, três,

se as vidas atrás

são parte de nós.

E como será?

O vento vai dizer

lento o que virá,

e se chover demais,

a gente vai saber,

claro de um trovão,

se alguém depois

sorrir em paz.

Só de encontrar... Ah!!!











































domingo, 13 de novembro de 2011

as rugas do origami

Comprei creme para rugas. Um dia isso iria acontecer. O potinho de vidro com letras miúdas ainda é um tímido nanico entre os longilíneos frascos de perfume da prateleira. Ainda sofre um pouco de preconceito porque comprar, eu comprei. Usar são outros quinhentos.



Resolvi avaliar dentro da minha cabecinha por que eu jamais havia comprado um potinho daquela espécie. Por que dentre tantas quinquilharias já adquiridas na vida, nunca um mísero creminho para rugas. E eles são simpáticos! A descrição do produto e as promessas oferecidas são tentadoras. Ao fim e ao cabo, comprei por não ter encontrado o porquê de não comprar. Ainda não encontrei o porquê de não usar, logo, venho por meio deste informar que em breve serei uma usuária de um milagre epidérmico com fórmula não oleosa. Se tudo der certo, em quatro semanas os resultados serão visíveis. Em alguns anos, voltarei à primeira série. Estará na cara! Sério! De verdade!



Lendo o livreto que vem dentro da caixa, fico convencida de que Ponce de León encontrou a Fonte da Juventude. Engarrafou a água, patenteou a descoberta e passou a fornecer matéria-prima para as empresas de cosméticos.



Senti comiseração por Dorian Gay. Se ele conhecesse a Lancôme, jamais teria feito pacto algum para manter-se jovem. Bastaria seguir a bula. Tudo bem, Oscar Wilde não teria história pra contar, o romance encolheria: era uma vez um belo jovem que não queria envelhecer. Então ele adquiriu – em três vezes no cartão de crédito – o anti-rugas. Nunca envelheceu, permaneceu bonito para sempre. Fim.



E Lucas Cranach? Em vez de pintar A Fonte da Juventude, seria designer das embalagens de Renew!



Pois bem, voltando ao meu frasco de conteúdo viscoso ainda virgem, admiti a falta de motivos para não comprar e um motivo muito digno para despender cifras na sua aquisição.



Com frequencia quase semanal reunimos um grupo de amigos sinceros para fazer auto-fofoca, trocar ofensas, esquartejar mentalmente alguém, chorar as pitangas, desamarrar o bode, esvaziar os bolsos de butiás e essa coisa toda. Quando um está bem no casamento, tem desagrado no trabalho. Se outro está tranquilo com a família, está inquieto no amor. E assim fazemos nossa terapia de grupo. O riso é nosso divã. Não facilitamos a vida apenas para não faltar assunto. Todos os dramas e teatros são autorizados. É um perigo. Já saiu faísca. Já deu briga. Já acabou em campeonato de cuspe.



Em um desses encontros, fui perguntada sobre a minha vida afetiva, falei que estava bem. Bem inexistente. Um dos interlocutores respondeu:

- És muito dos extremos. És a mais zen e ao mesmo tempo a mais inquieta. Ou vive de paixão desmedida, ou tédio sentimental. Se isso fosse campeonato, tu serias o time de campanha mais irregular.

- Que nada, eu seria a zebra! A lógica sempre venta ao contrário do meu sentido.

- Não é verdade, tu sempre fazes questão de não acompanhar a lógica.

- Posso ser um pouco atípica... por exemplo, esses dias aí, me apaixonei!

- É?!

- Sim, depois passou.

- Depois quando?

- Ah, me apaixonei depois da janta e passou antes do café da manhã. Mas foi paixão, juro. Ele falava comigo e eu nem prestava atenção no assunto. Aliás, nem sei o nome, porque quando ele se apresentou, eu estava reparando que ele tinha cílios longos e que falava sorrindo, piscando rapidinho! Bem educado, cheiroso. Puxava o erre e os esses.

- Beijou?

- Não, nada, só me apaixonei, conversei um pouco e depois fui embora. Hoje acordei desapaixonada. Foi paixão dessas que vêm e vão. Sem trauma, sem dor de despedida. Só pra movimentar a engrenagem... Paixãozinha que chega muda e sai calada.

- Lembrei de uma vez que tu te apaixonaste por um dos jogadores do time sem camisa na praia. E eu perguntava quem era pra saber se eu conhecia. É loiro? É moreno? E tu respondias: não sei, mas tinha ombros lindos!



- E é verdade, os ombros mais lindos que eu já vi na vida... Reconheceria aqueles ombros em qualquer lugar do mundo. Até hoje lembro apenas dos ombros. Do rosto, da altura, da cor do cabelo, nada. Nem cor dos olhos, nem se tinha olhos.



- Acho que tu precisa puxar o freio às vezes, parar um pouco com essa urgência. Tens muita pressa em viver. Já viveu mais do que a idade que tens.



- Porque eu tenho um tempo todo meu... E depois, guardo cada uma dessas histórias com carinho!



- E como cabe tanta coisa em tão pouco tempo?



- Faço origami das minhas memórias. Dobro os meus acontecimentos em algum formato. Guardo na forma que eu achar melhor tudo que me acontece e quando eu quero ver como eu fiz, quando preciso pensar a respeito ou dá só saudade, vou lá e desdobro pra ver a história inteira. Depois dobro de novo. Nem sempre volta a ser a mesma coisa que era.



- Cuidado com isso. Não esquece que a dobradura cria marca que não sai. A ruga da dobradura sempre fica.



Não posso afirmar que fui chamada de enrugada. Nem que foi uma observação dentro do meu contexto ilustrativo-filosófico-comparatório-analógico-anaítico.



Pelo sim ou pelo não, sendo as rugas figuradas das minhas histórias ou as rugas da minha testa, resolvi combater as que eu posso evitar.



Para as rugas do rosto, creme. Se não der certo, quem sabe, botox.



Já as rugas das minhas histórias, nenhum milagre cremoso ou toxina botulínica podem reverter os plissados da minha memória. São nesses sulcos que eu prendo o pé, é ali que eu tropeço, é o que muitas vezes me segura quando eu deveria arriscar.



Para essas rugas, muito chá de cidró e travesseiro.

 
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Esta sou eu antes do creme.
Em quatro semanas postarei a foto.
 
Aguardo com ansiedade pelos resultados!
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Filosofia do Amor
(Jorge Vercilo)
 
 
 
Quem por medo do amor que morre



Na hora que o amor percorre


Recua, se afasta e corre


Ouça o conselho que eu lhe dou


É só você morrer de amor


Que a chama do amor não morre






Quem por mágoa de amor se abate


Por medo que o amor maltrate


Ao invés de se dar combate


Ouça o conselho que eu lhe dou


É muito mais cruel a dor


Na casa que o amor não bate






Filosofia de amor não é rei nem doutor


Quem aprende


Só vai sair vencedor de um combate de amor


Quem se rende


Filosofia de amor só não é sabedor


Quem renega


Só vai prender seu amor e virar seu senhor


Aquele que se entrega


E o poeta é o professor


Que ensina todo dia


Filosofia de amor...

domingo, 6 de novembro de 2011

me leve com a vossa pessoa

Sem jeito pra encaixar o corpo na cama, esta sou eu admitindo que me restou apenas levantar quando a vontade ainda seria permanecer. Preferia dormir. Meu sono me visita como marido adúltero: chega tarde, fica quatro ou cinco horas e vai embora cedo, sem despedidas. Relatam que já nasci inquieta, mas lembro de uma fase da vida, acho que pela adolescência, em que eu era capaz de dormir dez horas seguidas. Sem culpa. Sem trocar de posição. Sem ir ao banheiro.



Não se faz mais sono como antigamente. Não se faz mais muita coisa como antigamente. Como aquariana praticante e convicta, assumo que sempre ando com a cabeça lá na frente – ultimamente lá nas nuvens. Mas para algumas coisas, sou conservadora. Não dessas que defendem verdades absolutas, paradigmas imutáveis e opiniões de pedra. Sou favorável às mudanças, desde que se mantenha a essência. Tem coisa que só funciona assim. E só faz sentido desse jeito.



Por exemplo, homens e mulheres. Essa nova paquera de hoje em dia é muito estranha. Não consigo entender as regras do jogo, não sei nem como joga. Às vezes sou apenas torcedora. Vejo muitos homens quase mulherzinhas e muitas mulheres quase de cuecas! Que é isso?! Quero fazer uma marcha contra essa modernidade. Cadê o cara que faz a corte? Cadê a abordagem de um cavalheiro? A conversa interessante? Cadê a graça?



Pessoas deixam de se conhecer para se pegar. Está errado.



Assim como está errado não ligar no dia seguinte para não mostrar interesse. E pegou o telefone porque faz coleção? Na na ni na não. Sentiu vontade, liga. Não tem assunto, inventa. Foi-se o tempo em que estender um olhar conduzia a uma conversa. Foi-se o tempo em que se preocupavam em conversar assuntos interessantes. Claro que não acho que as pessoas devem chegar falando sobre o último livro que leram ou perguntando qual o filósofo favorito. Mas “oi, como tu é linda” se ouve em qualquer obra.



É preciso ousadia sem perder a ternura.



Dia desses um amigo me disse que encontrou um amor antigo. Que ela deu papo para ele, deu mais que isso, o telefone. Ele achava que era por simpatia. Eu sugeri que ligasse e descobrisse. Ele justificou:

- Ela sempre foi a gata da faculdade e eu um nerd.

- Pois seja um nerd com coragem. Nerd, tudo bem, mas covarde...

Não sei ainda do fim da história. Apenas sei que sou da política que se deve paquerar com papéis definidos: mulheres não atacam homens. Homens não atropelam as mulheres. Respeito, cuidado, educação e interesse nunca fizeram mal a ninguém. Óbvio que nem todas as minhas teorias têm cem por cento de aproveitamento e alguns amores que começam muito bem acabam mal – é, todo o cuidado é pouco.



Voltando umas areinhas na ampulheta, lembro de uma situação, um coquetel de lançamento de alguma coisa. Eu perambulava há horas com a mesma taça de espumante na mão, já quente. Um tédio quase de chutar pedrinhas, mas mantendo o profissionalismo e sorrindo orgulhosa para os clientes. Eu pedia água para o garçom e ele respondia que só tinha refrigerante. Um cidadão tão alto quanto chato resolveu trocar constantemente minha taça. Eu regava as flores de plástico – discretamente – para ficar com a taça vazia, lá vinha ele, prestativo suficiente para ser inconveniente. Inserindo-se até nas minhas conversas, que infelizmente nesses eventos passam longe de filosofia de bar ou divagações sobre absurdos. Passei a embebedar um bambu mosso. Fui flagrada por um conhecido, desses de vista, de oi e tchau, de “aperta o nove, por favor”. Ele perguntou se eu estava entediada, fiz que não com a cabeça, rindo sem mostrar os dentes. Ele perguntou se eu não bebia, respondi que eu estava dirigindo, que preferia uma água, mas que o garçom disse que não tinha e assim o papo foi engatando, divertido. Juntaram mais pessoas e foi indo a conversa. Anunciei que eu ia embora e ele disse:

- Me leve com a vossa pessoa.

Pausa. “Me leve com a vossa pessoa” não é um “me dá uma carona”. Eu, seduzida pelo diferente, levei com a minha pessoa. Ele pareceu interessante, nós saímos mais umas vezes, nos beijamos e foi tudo indo muito bem, como costuma acontecer com amor novo... mas eu olhava pra ele e via um vasto mar de nada. Tentava esculpir nos blocos de mármore das palavras dele mais alguma coisa. Em vão. Era tudo pedra mesmo. O que ele me deu? Uma única frase. Depois disso, uma sucessão de insucessos. Aqui é proibido relaxar depois da conquista.



Peguei-me bocejando no meio de uma conversa. Apoiada com o cotovelo na mesa, uma mão segurando o rosto, a outra revirando o sorvete. Ele me dava sono, como não tinha desde a adolescência.



Não busco no amor a cura da minha insônia. Se bobear, quero que piore. Quero trocar o sono pelas lembranças da companhia, quero repetir na cabeça o que foi dito. Encher na cabeça o prato dos assuntos de amanhã, planejar o que nunca vou fazer só pra viver duas vezes: pensando uma coisa e fazendo outra. Preciso disso, do motivo novo. Olhar e catar em alguém tantos infinitos quanto os que eu carrego. Apenas amor não basta.



Tem amor que começa num beijo e acaba num bocejo.




THIS IS NOT A LOVE STORY. THIS IS A STORY ABOUT LOVE. É o que diz na camiseta.
 
OBS.: Sempre lembrando que eu furto histórias, altero personagens, invento diálogos, pioro situações e posso até mentir. Pode ser que nada disso tenha acontecido. Ou posso estar mentindo! =-)
Já expliquei que é tudo em favor da literatura, né...
 
(será que os envolvidos vão ler?!)
 
OUTRA OBS.: Por falar em adolescência, que época desumana. Pelo menos, pra mim foi. Eu era um ET. Adolescente é um bicho confuso que cresce de um jeito desigual. Eu cresci em perna, boca e olho, nessa ordem. Tudo em proporção pelo menos vinte vezes maior que o resto do corpo. Falei do sorriso metálico? E do tanto que é difícil ser ruiva de sardas no colégio? Falei que eu só usava camisetão? Eu devia dormir muito por isso: pra passar mais rápido!
 
Hoje sem música, já gastei muito papo.