sábado, 28 de maio de 2011

borges, platão, jung, eu e nossos todos

Vai dizer que um amorzinho platônico vez que outra não é bom?! Eu concordo que sim, por isso, provavelmente, vou pra fogueira. Digo mais, confessando como quem está diante de um padre em pleno juízo final, era minha escolha favorita na adolescência. Não fui muito dada às entregas pessoais, aos beijos furtados no fim da aula – mentira, era sim. Porém, ainda, preferia os amores ideais. Os amores que eu imaginava. Esses eram duradouros, ocupavam linhas e mais linhas, gastava grafite, borracha, horas de sono. Romances ilustrados em antigos cadernos. Meus amores platônicos eram ecologicamente corretos, aproveitava a folha inteira, frente e verso. Muitos viraram barquinhos colecionados por anos nas gavetas da escrivaninha.



Escolhia um alguém inventado, uma vítima que apenas emprestava seus contornos físicos às situações e personalidade que eu depositava. A vantagem era que o amor acabava sem ter que terminar, sem dar explicações, sem cortantes fatos reais. A desvantagem era a falta do tudo de fato. Carinho sentido com a imaginação, beijo com sabor de ideia, encontros sem sair do sofá de casa. Não chegava tarde porque não saía. Produzia corações, batizava com os nomes que eu mesma queria que se chamassem.



É um amor tão puro. A prática oferece riscos baixíssimos. A sensualidade fica depositada apenas nos cílios abanando, solidários à solidão de corpo.



Quando quero brincar com meus amores platônicos costumo dizer “Platão deve me amar”. O tal amor platônico, dizem os filósofos, surgiu no célebre discurso intitulado O Banquete, quando se tentava definir o amor. Até hoje filósofos, sociólogos, cientistas, antropólogos, antropófagos, poetas, simpatizantes e aspirantes não conseguiram. Toda a tentativa demanda bravura. A frustração não é recebida com tristeza. Até por meios químicos e morfológicos o coitado do amor já foi ameaçado de ser desvendado. Aceitem, amor é assim: ou é ou não é. E não posso deixar de falar que essa regra também tem exceção. Trocando em miúdos andamos do nada ao lugar algum. Ótimo.



Não foi a última vez e não será a última. Platão, no seu banquete na casa de Agatão – um poeta! – concede ao amor a possibilidade de ser dirigido a algo irreal ou que não é concreto. O amor ganha o direito de existir e ser reconhecido como energia sexual, como diria Freud, abstratamente. Mas de onde sai o fundamento para esse abstrato? Do sujeito que ama platonicamente, ora bolas.



Amamos, dessa maneira, não mais do que o nosso reflexo. Não é narcisista, porque isso seria amar a si, reconhecendo-se. Amamos o outro que inventamos, que supomos, aquele em quem depositamos a parcela de nós que agradaria que ele fosse. Na nossa cabeça, é. E digo na nossa cabeça porque um amor platônico é muito mais um amor de cabeça do que de coração. Talvez nesses casos razão e emoção nem entrem em conflito. Não há romance, mas é romântico.



É um monólogo de Romeu e Julieta.

É um relacionamento com a mentira aceita.

Amor de dentro pra dentro onde se acaba sem fracasso.



Essa projeção de amor ideal, sendo uma parte nossa depositada em uma outra pessoa – teoricamente fictícia – é uma boa maneira de conhecimento. Juro que eu não estou inventando isso agora. Jung já teorizava a respeito. Toda a teoria a respeito da persona e da individuação passa por este mecanismo de ser outro sem deixar de ser a si mesmo. E não tem isenção nenhuma nesse processo, não há descompromisso, não envolvimento. Pelo contrário, nos envolvemos até as tampas com essa pessoa. Entre entendimento, desentendimentos, momentos de alegria, descobertas e até luto. Calma, nada disso é psicótico. É tudo bem normal.



Borges escreveu um texto onde conversa consigo, chamado Borges e Yo. A primeira vez que li senti um misto de alívio e inveja. Não fui a única nem a primeira pessoa a escrever sobre si em busca de mim. Borges produziu mais relações entre ele e ele, inclusive em poesias. Foi um platônico também. Entre idas e vindas, diálogos e narrativas, o consciente e o inconsciente fazem contato. Meus diálogos, desenhos, rabiscos e histórias adolescentes talvez tenham sido uma espécie de auto-terapia. A cada amor platônico, mais dúvidas e certezas extremamente tranquilas porque nunca tive a ilusão de ter todas as respostas. Fazer muitas perguntas sempre me satisfez. Nasci na fase dos porquês, confio que nela morrerei. As interrogações não me engasgam. Aprendi a me elaborar assim, nessa única habitação de um duplo. Às vezes de múltipla. Reconhecer isso é saudável, é uma redenção. Sou um prato cheio para Jung.



Mas quem consegue ser um só?




 
Farei coisa rara, vou explicar o porquê da trilha sonora deste post: acho linda a relação platônica com a estrela. Acho linda a descrição da estrela como um corpo nú da constelação, lindo o jeito que se fala que ela é só e não sofre. A estrela não diz uma palavra... empresta seus contornos, é pura representação, reflexo, depósito platônico de quem canta e ainda assim, identificação, porque "é bom saber que és parte de mim..."


Estrela, estrela

Como ser assim

Tão só, tão só

E nunca sofrer



Brilhar, brilhar

Quase sem querer

Deixar, deixar

Ser o que se é



No corpo nu

Da constelação

Estás, estás

Sobre uma das mãos



E vais e vens

Como um lampião

Ao vento frio

De um lugar qualquer



É bom saber

Que és parte de mim

Assim como és

Parte das manhãs



Melhor, melhor

É poder gozar

Da paz, da paz

Que trazes aqui



Eu canto, eu canto

Por poder te ver

No céu, no céu

Como um balão



Eu canto e sei

Que também me vês

Aqui, aqui

Com essa canção

sábado, 21 de maio de 2011

breve história de amor em um ato

Esqueci a sutileza no elevador. Multipliquei a minha capacidade de fazer barulho, liguei a deselegância no amplificador, com os dois pés na porta, entrei.



- O que é isso?

- Oi, preciso te contar uma coisa...

- Eu nem te conheço.

- Eu sei e talvez nunca vá conhecer. Se conhecer, talvez prefira negar, achar que não ou fingir, desconversar. Eu sou alguém por quem se apaixonar. Isso vai te deixar culpado, ainda que nenhum de nós dois vá entender o porquê, apenas vai. Ah, confuso também. Tu vais tentar me evitar desde o início, me assustar, me afastar e me repelir. No fim das contas, vai conseguir, mas não vai ficar satisfeito.

- Eu não estou entendendo nada.

- Jamais entenderemos. Vamos nos ocupar em viver e atropelar tudo. Não vamos começar do início, vamos direto pro meio e nesse meio tu vais querer colocar um fim. Vários fins. Vai ser dedicado aos pontos finais, que uma hora eu me esforçarei pra transformar em vírgula, depois conseguirei te impor algumas reticências, até que uma hora teu ponto final vencerá. Terá glórias, mas não alegria, porque ainda que não assumas jamais, a paixão não sumirá. Ela vai consumir um pouco do que sobrou a cada dia, até não sobrar mais nada, a não ser a própria paixão. Solitária, guardada, sem crescer ou diminuir, paralítica. Será o retrato da ampulheta cuja areia se recusa a escorrer. E sabe do mais incrível?

- Tu só podes ser louca, mas estou curioso. Senta.

- O mais incrível é que o amor virá do nada. Virá como um vento. Ninguém quer saber de onde vem o vento, todos perguntam de onde vem o amor. Como chega sem avisar? Veio tão cedo... e poucos acreditam que o amor não quer nada em troca. Precisa apenas existir. Fica, apenas isso. Simples e complicado. Gostaremos dos mesmos filmes, das mesmas músicas, o universo inteiro vai conspirar a nosso favor.

- Tu me amas?

- Sim. Juro pelos meus joelhos.

- Repete?

- Por quê?

- Gostei da tua pronúncia do jota...

- Eu vou gostar disso, desse teu charme de prestar atenção no jeito que eu falo e não no que eu digo. Desfiarei muitas teorias, quebrarei histórias para que tu jamais prestes atenção. Vou ajeitar a gola das tuas camisas em vão. Unirá os cílios pra dizer que não me ama, mas vai rir muito mais e sem perceber. Veremos filmes, disputaremos jogos de criança, conquistarei o território do teu sofá. Jamais beberemos, mas guardaremos as rolhas dos sentimentos que brindamos juntos sem dar nome, sem ter explicação. Vou costurar meu corpo dentro do teu abraço. Nossos momentos precisarão respirar, ficarão emoldurados nas prateleiras invisíveis das paredes escuras, porque vai ser mais fácil assim pra tu não veres.

- Por que eu não iria ver?

- Porque tu não queres.

- Por que não?

- Porque tu vais me mandar sair.

- Vou?

- Sim. Vai me acusar de cruel, dizer que tenho uma vida muito serinha.

- E a minha não é?

- Deve ser...

- E o que isso importa?

- Não sei, essa frase é tua. É teu argumento para me mandar sair!

- Eu nunca faria isso.

- Vai fazer pior. Vai supor coisas sobre mim, sobre o que eu penso, sobre o que eu quero, sobre o que eu espero, sem nunca me perguntar. Vai acreditar que quero em troca o que eu jamais pedi... Ainda assim eu vou achar que tu é um diamante bruto.

- E tu queres me lapidar? É isso?

- Não... gosto de ti assim. Gosto até da tua falta de cuidado, da preguiça de cozinhar as palavras, da pressa de avaliar minhas manias, de me julgar pelos outros, de tentar me rotular por coisas que eu não sou. Vou gostar disso pra te surpreender e vou querer te mostrar o tanto de errado que tu estás.

- Vai?

- Sim. E tu farás olhos de prece, me mandando sair quando eu quiser ficar. Recusará amor quando mais precisar. As manhãs de sol vão quarar a saudade.

- Aonde tu vais?

- Embora.

- Tu recém chegaste.

- Eu sei, mas tu nunca me darás tempo. Marcamos encontro na nossa hora errada.

Eu queria ver no escuro do mundo



Aonde está o que você quer


Pra me transformar no que te agrada


No que me faça ver


Quais são as cores e as coisas pra te prender


Eu tive um sonho ruim e acordei chorando


Por isso eu te liguei






Será que você ainda pensa em mim?


Será que você ainda pensa?






Ás vezes te odeio por quase um segundo


Depois te amo mais


Teus pêlos, teu gosto, teu rosto, tudo


Tudo que não me deixa em paz






Quais são as cores e as coisas pra te prender?


Eu tive um sonho ruim e acordei chorando


Por isso eu te liguei






Será que você ainda pensa em mim?


Será que você ainda pensa?

Posso sugerir uma musiquinha?! Posso, né... o blog é meu e eu faço o que eu quiser.

http://www.youtube.com/watch?v=f3tROimHbuo


Meu gurizinho queridinho, ouvi taaanto essa semana que ele deve estar rouco.

**** PRA LEMBRAR: Tristeza é nascer margarida e não morrer de bem-me-quer.
                                     

sábado, 14 de maio de 2011

cheiro de polenta

Não existe coisa mais clichê do que almoço em restaurante de praia em pleno inverno. A maioria dos estabelecimentos estão fechados, sobram dois ou três frequentáveis e consumíveis. Independente de qual a metodologia de serviço empregada, o caos é sempre o prato principal. Mesas próximas simulam famílias numerosas quando a meia dúzia de casais reunidos nunca sequer trocou um bom dia.



Quando a família combina tal programação, cogito mentalmente almoçar torradas, inventar um super prato de miojo com ingredientes mirabolantes, sopa de concha, pedra moída, bolinho de barro do Eduardo. Calo os pensamentos. Em nome da união familiar que almoça com o clã completo apenas nos finais de semana, aceito o que escolhem. Nem ouso manifestar-me contra, seria voto vencido. Ganharia etiqueta de mala. Possivelmente fariam piada com meus instintos antissociais alimentícios. Tenho por princípio que é possível divertir-se em qualquer lugar do mundo. Costumo falar que se me trancarem em um armário, faço stand-up show para os cabides.



O aperitivo sempre será a paciência. Aviso antecipadamente o estômago que talvez um tempo de espera seja necessário, para que não assuste as pessoas. Às vezes o meu estômago pensa que é um lobisomem. De casa até o restaurante vou cochichando pra mim todos os mantras que conheço sobre paciência. Alinho os chácras.



Na porta do restaurante, o último suspiro profundo antes do cheiro generalizado de polenta. O último olhar para o mundo da rua. Dois bem-te-vis sentados na placa da calçada perguntam-me se tenho certeza do que estou fazendo. Percebem meu horror com seus pequenos olhos pretos. Eles têm um sarcasmo nas penas, parecem observar algum tipo de espetáculo. Sádicos emplumados. Na verdade torcem para que eu entre, implore por uma mesa, cace um garçom que vai demorar dois dias para me trazer uma água com mais nitrato do que o considerado saudável para consumo. Sem falar nas digitais engorduradas desenhadas na borda do copo. Sou repreendida pela minha mãe quando bebo água no bico. Acusada de dar mau exemplo ao meu filho. Como se ele precisasse de mau exemplo para ser esse projeto de anarquista!



Não foi preciso esperar por uma mesa. Emendada na nossa, mais duas ou três famílias distintas ocupavam as seguintes. O senhor sentado ao lado da minha mãe na mesa vizinha estendeu a mão: “Posso?” Furtou os guardanapos antes que eu dissesse sim ou não. Na continuação do quinhão de mesa pertencente às posses da minha família havia mais um porta-guardanapo. Não me opus. Mas Eduardo sim! Acalmei o pequeno, negociei batatas fritas, polenta e coraçãozinho. Ele aceitou.



Pedi minha água ao garçom que, por obra divina, trouxe rápido. Confiro o rótulo, os nitratos a mais me abanam de dentro da garrafa plástica. Procuro abstrair dessa constatação. Parto corajosa em direção ao buffet, preciso alimentar o pequeno anarquista. Sirvo a salada, o arroz, as polentas, as batatas e na hora dos grelhados, não tem mais coração. Sirvo salsichão enquanto o moço que atende forra novamente a bandejinha com os corações de galinha – Eduardo está nessa fase agora. Retorno um pouco para servir o prato com os miúdos e ouço: “Que bonito, furando a fila.” Fulminei o cidadão com olhar de mãe em plena luta para alimentar sua prole, qual não é minha surpresa quando identifico o nanico usurpador de guardanapos. Ser muito corajoso, visto que eu tenho, pelo menos, três vezes o tamanho dele. Sem salto!



Em nome da política da boa vizinhança, pesei o modesto prato do Eduardo, voltei pra mesa.



Em seguida o ancião voltou ao seu posto. Observei a mesa do cidadão. Tratava-se de uma convenção de monstros com as ilustres presenças do corcunda, do ogro, da bruxa e mais um montão de habitantes do lado escuro da floresta.



Deixei o pequeno sob os cuidados dos avós e dos padrinhos enquanto fui me servir. O mini-rapaz que ocupava posição à minha frente, acompanhado pelo projeto de Wandinha Adams, palestrava sobre o salmão. Ou ele estudou dias pra impressionar a guria ou tem uma grande capacidade de improviso. Da salada aos grelhados uma longa explicação sobre o Omega 3. Espero ter perdido qualquer coisa sobre os ômegas um e dois. Lógico que eles faziam parte da convenção da mesa ao lado.



Durante o almoço perdi alguns pontos de Q.I. por osmose inversa. O ogrinho bombado do meu lado explicava ao nanico usurpador de guardanapos as maravilhas de um aparelho de exercícios que havia adquirido. Dizia que comia qualquer coisa, que gastava tudo com aquele milagre, que deixava o chão do apartamento diariamente ensopado de suor. Nesse momento, olhei para a minha mãe, com os olhos tão esbugalhados quanto os meus. Ela suspirava batendo os impacientes dedos na bordinha do prato, seguramente já imaginava o cheiro azedo do apartamento, o coquetel com litros de veja, vanish, carpex, querosene, água sanitária, panos e mais panos de limpeza. Eu já pensava em dar meu cartão de advogada ao morador do apartamento de baixo. Com a intensidade e a frequencia do suor, a infiltração era garantida.



Resolvi partir para a sobremesa – minha parte favorita -, já havia averiguado a presença do mousse de maracujá, da torta de bolacha, do sorvetão de chocolate e todas essas doçuras de restaurante que equilibro num pequeno pote e ainda jogo por cima o creme branco do sagu. O sagu não. Só o creme, que é o maior adúltero das sobremesas – uma hora dessas dedicarei um texto apenas a esta teoria.



A fila da sobremesa estava engarrafada. Mais do que meus atuais trânsitos astrológicos. Espichei os olhos até o início da fila. Duas senhoras de circunferência avantajada, também oriundas da mesa vizinha, aquela da convenção dos monstrinhos, comentavam o buffet de sobremesa. Ah, não. Comentaristas de buffet de sobremesa... já era demais. Uma analisava a textura do pudim de leite. A outra constatava a presença de muita farinha na torta de limão e já ensinava uma maneira de fazer merengue que nem o que estava em cima do mousse de chocolate. Olha, fiquei furiosa. Mas sobrevivi. Saí da aventura vivíssima, muito bem alimentada.



E com cheiro de polenta para satisfação dos passarinhos debochados que permaneciam sentados na placa apesar da garoa.

E ainda querem que eu mantenha minha sanidade mental...




Não quero lhe falar,



Meu grande amor,


Das coisas que aprendi


Nos discos...






Quero lhe contar como eu vivi


E tudo o que aconteceu comigo


Viver é melhor que sonhar


Eu sei que o amor


É uma coisa boa


Mas também sei


Que qualquer canto


É menor do que a vida


De qualquer pessoa...






Por isso cuidado meu bem


Há perigo na esquina


Eles venceram e o sinal


Está fechado prá nós


Que somos jovens...






Para abraçar seu irmão


E beijar sua menina na rua


É que se fez o seu braço,


O seu lábio e a sua voz...






Você me pergunta


Pela minha paixão


Digo que estou encantada


Como uma nova invenção


Eu vou ficar nesta cidade


Não vou voltar pro sertão


Pois vejo vir vindo no vento


Cheiro de nova estação


Eu sei de tudo na ferida viva


Do meu coração...






Já faz tempo


Eu vi você na rua


Cabelo ao vento


Gente jovem reunida


Na parede da memória


Essa lembrança


É o quadro que dói mais...






Minha dor é perceber


Que apesar de termos


Feito tudo o que fizemos


Ainda somos os mesmos


E vivemos


Ainda somos os mesmos


E vivemos


Como os nossos pais...






Nossos ídolos


Ainda são os mesmos


E as aparências


Não enganam não


Você diz que depois deles


Não apareceu mais ninguém


Você pode até dizer


Que eu tô por fora


Ou então


Que eu tô inventando...






Mas é você


Que ama o passado


E que não vê


É você


Que ama o passado


E que não vê


Que o novo sempre vem...






Hoje eu sei


Que quem me deu a idéia


De uma nova consciência


E juventude


Tá em casa


Guardado por Deus


Contando vil metal...






Minha dor é perceber


Que apesar de termos


Feito tudo, tudo,


Tudo o que fizemos


Nós ainda somos


Os mesmos e vivemos


Ainda somos


Os mesmos e vivemos


Ainda somos


Os mesmos e vivemos


Como os nossos pais...

terça-feira, 10 de maio de 2011

observador mirim

Meu filho exerce um fascínio sobre mim. Não me canso de estudar a anatomia dele, escutar a voz com a fala enrolada, corrigir os verbos e incentivar a não falar de si em terceira pessoa. Gosto das nossas brincadeiras e das nossas intimidades, do olhar cúmplice que temos. Mais que tudo, eu gosto de admirar a maneira como ele evolui. Ele testa os limites, arrisca, se impõem, teima, opina. Às vezes ele até me repreende. Eduardo tem uma personalidade doce e decidida. Com dois anos e oito meses já escolhe as próprias roupas, decide o que quer comer, o desenho preferido e o sabor do suco. Divide comigo uma centena de questionamentos. Nós somos muito bons juntos. Fico admirada com a visão que ele tem das coisas, as pequenas percepções e as grandes conclusões.

Uma vez, antes do almoço, minha mãe cortava batatas pra fazer a salada e suspirou. Imediatamente ele perguntou se ela estava muito cansada. A naturalidade da pergunta traduzia a simplicidade da constatação, a preocupação com o estado da avó que lhe tornou solícito. As nossas risadas não puderam ser contidas. Ele não se inibiu, riu junto.

Acredito que o Eduardo será um bom filósofo. Tem olhos grandes, é bom observador. Também é um tagarela!

Em casa, durante um almoço, Eduardo estava sentado no seu lugarzinho, brincando. O telefone da minha mãe tocou e ela levantou pra atender. Mais do que rápido, ele sentou no lugar dela, me olhando cor ar sapeca e dizendo: “Eu sou a vovó!”

Retruquei: “Não senhor, tu és o Duca. A vovó é aquela ali!”

Apontei pra onde estava minha mãe, ele nem olhou já lançou a réplica: “Eu sou a vovó aqui na mesa.”

Uma observação tão simples, porém carregada de sentido.

Ele estava certo. Ao mudar de lugar, sentar-se na cadeira que a minha mãe habitualmente ocupa, ele era a vovó ali na mesa. Mudou a perspectiva. Naquele momento, ele tinha as mesmas condições de percepção que ela. Via a mesa, a distribuição dos pratos, a organização das pessoas, tudo na mesma ótica que a minha mãe. Lógico que as conclusões que ele tirou disso, as opiniões que formou foram condizentes com a idade que tem e com a pequena bagagem que já carrega.

Ainda assim, por momentos, ele foi outra pessoa ali na mesa. Colocou-se em lugar diferente, teve a possibilidade de ver a mesma coisa por outro ângulo. Muitas vezes mudamos de identidade sem precisar mudar de cadeira. Queremos entender a posição de alguém, nos colocamos em seu lugar. Ou pedimos compreensão, que alguém se coloque no nosso lugar. Nada mais é do que ser alguém diferente, aqui ou ali. É possibilitar a ocupação de um lugar diferente para a análise do mesmo fato. Talvez Eduardo não compreenda ainda a imensidão de significado do seu ato. A inocente brincadeira com tanto de verdade se repetirá muitas vezes.

Esta possibilidade de colocar-se no lugar do outro é o que nos leva a aceitar a outra pessoa. Parece estranho, mas é bem assim. Nos apoderamos de uma perspectiva diferente da nossa para que possamos julgar, aceitar, concordar, condenar ou compreender a outra pessoa. Carl Rogers dizia que “É sempre altamente enriquecedor poder aceitar outra pessoa” e ele tinha razão. A aceitação amplia nossas possibilidades de opinião. Desfrutamos de lugares diferentes, variamos a percepção. Tudo é experiência.

Ser criança é maravilhoso. É permitido brincar com a experiência.



terça-feira, 3 de maio de 2011

o que camille claudel já sabia

“Existe sempre uma coisa ausente que me atormenta.” E quem nunca foi atormentado por um vazio? A frase poderia ser minha, poderia ser sua ou de qualquer um que já foi machucado pela presença da ausência. De qualquer um que já suspirou decepcionado ao olhar o banco do carro vazio, que ouviu a música certa na hora errada, que queria falar algo e calou. O que dói é a falta que se sente, dói por não ter medida. Não se mensura o quanto se tem de ausência. É impossível quantificar o vácuo. A ausência não tem hora, duração ou lugar. Mas ela está presente o tempo inteiro, por tudo, sem interrupção.



A frase muito pertinente é de autoria de Camille Claudel, artista plástica mais conhecida por sua vida do que pela sua obra – o que não é mérito para uma escultora do porte dela. Quando a vida de um artista está mais em foco do que a sua produção é porque produziu muito mais sem utilizar seu dom. O que Camille fez? Além de ser um prodígio como escultora e ousadíssima como mulher, Camille se apaixonou. Da mesma maneira que mulheres se apaixonam hoje em dia. Camille amou como as mulheres amam. Aos dezenove anos.



Aos dezessete anos Camille Claudel foi morar em Paris. Esculpia com tanta perfeição que foi trabalhar na equipe de Auguste Rodin – esse todos conhecem mais pelas obras do que pela vida. Ela era encarregada de fazer as mãos e os pés das esculturas de mármore, única mulher dentre os ajudantes. Entre uma pedra fria e outra, encontrou calor nos braços do mestre, o conforto de um amor. O romance começou quando ela tinha dezenove anos e ele quarenta e cinco. Diversas vezes Camille pousou para Rodin. Diversas vezes os dois andaram em público como namorados, inclusive frequentando alguns eventos, assumindo perante a sociedade do século 19 o escandaloso amor que existia entre eles. Mencionei que Rodin tinha mulher e filho? Não? Pois tinha e obviamente optou por ficar com a família quando Camille lhe pediu que escolhesse. Camille, depressiva, resolveu se trancar em seu atelier, produzir, beber e destruir suas criações até ser internada por sua família em um hospício. Morreu sozinha aos setenta e nove anos. As cartas que mandava à família e a Rodin são ricas de inteligência, delicadeza, dor e muito amor. Dizem que Rodin jamais a esqueceu.



E porque amar nem sempre permite estar junto de quem se ama, o fabuloso Rodin esculpiu “O BEIJO”. Talvez seja sua obra mais conhecida, junto com “O PENSADOR”. Originalmente tinha outro nome, "Francesca da Rimini", e pertencia a uma coleção chamada “Os portões do inferno”. Por que um beijo pertenceria aos portões do inferno? Bom, Camille explicaria perfeitamente, mas jamais se atreveu.



O que eu mais admiro nessa história toda é a ironia. Na escultura, os lábios não se tocam. O último beijo de Rodin e Camille ficou eternizado pelo olhar apaixonado dos amantes, na expectativa de lábios de mármore que jamais se tocaram. Jamais se tocarão. A pedra fria de mármore traduz a pele dos amantes em seda, tamanha a perfeição do afeto retratado. A posição dos corpos, sugerindo a intimidade sem apelo sexual – apesar da nudez – faz aquecer os olhos. O beijo faísca no mármore.



Nunca me avisaram qual seria o último beijo dos amores que já sepultei. Nunca pude dar ao último beijo o empenho que um adeus mereceria. Minhas esculturas sempre foram de areia, inacabadas e imperfeitas. Jamais pude eternizar o último momento da paixão, gravar o último olhar.



Rodin foi esperto.



Provavelmente ele também não soube qual foi o último beijo, qual foi o selo do fim do romance (e não do amor). Resolveu criá-lo. Não de modo que fosse eterno, não para ser um beijo para sempre, mas para ser um quase beijo. Um olhar infinito. A expectativa pelo início do beijo. Com muita genialidade soube transformar o que seria o fim em um início. Amantes famintos, com água na boca, lábios separados e corpos enlaçados pelos braços.



Acho fascinante os quase. Quase amores, quase beijos, quase tudo. Se não fosse o quase, seriam os amores, os beijos e tudo. Lembro de muitos quases, na verde, lembro de quase todos. Não sei qual foi o último beijo, mas sei qual foi o quase. O quase é a falta de cuidado planejada. É a mínima possibilidade que se concretiza. A escultura que por detalhe não se beija.



Camille quase foi feliz. Acabou louca. Uma loucura não necessariamente patológica, ficou louca de amor. Louca pela falta dele. Louca pela ausência representada pelo quase. A tormenta da ausência, talhada por Rodin no mármore de um quase beijo. A última e eterna representação de um final quase feliz. Faltou coragem para escolher o amor e renunciar aos comodismos da vida. Sobrou talento para transformar o mármore na eterna tormenta de Camille. “O beijo” é a forma da ausência. Um adeus que não foi dado. A ausência concede esperança. Os lábios que nunca se tocaram porque o último beijo nunca foi dado. O último é sempre uma ilusão. Não há último anunciado. Pode haver uma ameaça de último.



A última vez, o último amor, o último cigarro. O último simplesmente acontece. O fim é o que acaba, não o último. A ausência é o verdadeiro ponto final. A falta do toque entre os lábios é a tormenta em forma de mármore. Ou melhor, de não mármore. O último pode ser repetido pra sempre, uma sucessão de últimos. Que bom poder transformar o último em algum começo. Todo o fim é também um início.



Descobri que o último sempre pode ser trapaceado. O início sempre pode ser reinventado. Descobri que o fim da tristeza é o início da saudade. Não lembro do último beijo. Nunca vou esquecer do quase.

Toda a ausência traz uma possível insanidade.
Camille Claudel sempre soube.

Da série dialoguinhos.

- Tu achas que tenho chances de acabar como Camille Claudel?



- Paranóica?


- Isso veio depois, mas depressiva, em princípio.


- Por que acabaria?


- Sei lá, vai que eu tenho tendências.


- Acho que estás impressionada... Por que teria?


- Por que não? O psiquiatra aqui é tu... e eu sonhei com Camille Claudel por duas noites.


- Certo. Podemos investigar, se isso te deixa mais tranquila.


- Investigar? Investigar o quê? ME investigar???


- É...


- Não, ah não... não vai dar certo. Ando com mania de perseguição e tu querendo me investigar. Não! por acaso tu és da CIA?!


- Cara, tu estás cada vez pior!


- Não me chama de cara! Eu sou tua amiga, não teu amigo.


- Maniática.


- Vai dizer que os maniáticos não podem ser bipolares e os bipolares não são potenciais suicidas quando não estão em mania???


- Onde tu pretendes levar essa nossa conversa?


- Não sei. Para um divã.

- EU vou acabar num divã assim...

- Tu podia me fazer uma análise, um questionário daqueles bem padronizados, pra saber se eu posso ou não acabar que nem a Camille...


- Não daria certo. Tu tentarias manipular...


- Pra acabar ou não como a Camille?


- Meu Deus, não sei. Tentaria manipular.


- Tu achas que eu sou manipuladora?


- Não! Mas é trapaceira.


- Mesmo assim tu me ama?


- Claro, tu és a melhor amiga que eu tenho.


- Que amor... me chama de manipuladora, trapaceira e agora vem dizer que me ama. Doutor, se há um bipolar entre nós, é o senhor!


- Doida!


- Fofo!


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Musiquinha:
 
Todas as bobagens que eu já disse


Dariam pra encher um caminhão

Mesmo assim encontro no caminho

Milhares mais otários do que eu



Por isso meu amor

Não leve tão a sério

Nem o que eu digo nem o que eu deixo de esconder

Não vai ter graça o dia

Em que bater na porta

E você não abrir pra responder



Todas as pessoas que eu conheço

Cabem bem juntinhas na palma da mão

Pra você guardei um universo

Quando falta espaço eu faço verso e durmo na canção



Por isso meu amor não pense que é brinquedo

Eu tenho medo e morro de paixão

Não vai ter graça o dia

Em que eu abrir a porta

E a tua mão vazia disser não



Por isso meu amor

Não leve tão a sério

Se eu morro de medo

Brinco de paixão

Não vai ter graça o dia

Em que eu te ver na porta

E não souber se entro

Ou faço uma canção...



(romance - nei lisboa)