sábado, 21 de maio de 2011

breve história de amor em um ato

Esqueci a sutileza no elevador. Multipliquei a minha capacidade de fazer barulho, liguei a deselegância no amplificador, com os dois pés na porta, entrei.



- O que é isso?

- Oi, preciso te contar uma coisa...

- Eu nem te conheço.

- Eu sei e talvez nunca vá conhecer. Se conhecer, talvez prefira negar, achar que não ou fingir, desconversar. Eu sou alguém por quem se apaixonar. Isso vai te deixar culpado, ainda que nenhum de nós dois vá entender o porquê, apenas vai. Ah, confuso também. Tu vais tentar me evitar desde o início, me assustar, me afastar e me repelir. No fim das contas, vai conseguir, mas não vai ficar satisfeito.

- Eu não estou entendendo nada.

- Jamais entenderemos. Vamos nos ocupar em viver e atropelar tudo. Não vamos começar do início, vamos direto pro meio e nesse meio tu vais querer colocar um fim. Vários fins. Vai ser dedicado aos pontos finais, que uma hora eu me esforçarei pra transformar em vírgula, depois conseguirei te impor algumas reticências, até que uma hora teu ponto final vencerá. Terá glórias, mas não alegria, porque ainda que não assumas jamais, a paixão não sumirá. Ela vai consumir um pouco do que sobrou a cada dia, até não sobrar mais nada, a não ser a própria paixão. Solitária, guardada, sem crescer ou diminuir, paralítica. Será o retrato da ampulheta cuja areia se recusa a escorrer. E sabe do mais incrível?

- Tu só podes ser louca, mas estou curioso. Senta.

- O mais incrível é que o amor virá do nada. Virá como um vento. Ninguém quer saber de onde vem o vento, todos perguntam de onde vem o amor. Como chega sem avisar? Veio tão cedo... e poucos acreditam que o amor não quer nada em troca. Precisa apenas existir. Fica, apenas isso. Simples e complicado. Gostaremos dos mesmos filmes, das mesmas músicas, o universo inteiro vai conspirar a nosso favor.

- Tu me amas?

- Sim. Juro pelos meus joelhos.

- Repete?

- Por quê?

- Gostei da tua pronúncia do jota...

- Eu vou gostar disso, desse teu charme de prestar atenção no jeito que eu falo e não no que eu digo. Desfiarei muitas teorias, quebrarei histórias para que tu jamais prestes atenção. Vou ajeitar a gola das tuas camisas em vão. Unirá os cílios pra dizer que não me ama, mas vai rir muito mais e sem perceber. Veremos filmes, disputaremos jogos de criança, conquistarei o território do teu sofá. Jamais beberemos, mas guardaremos as rolhas dos sentimentos que brindamos juntos sem dar nome, sem ter explicação. Vou costurar meu corpo dentro do teu abraço. Nossos momentos precisarão respirar, ficarão emoldurados nas prateleiras invisíveis das paredes escuras, porque vai ser mais fácil assim pra tu não veres.

- Por que eu não iria ver?

- Porque tu não queres.

- Por que não?

- Porque tu vais me mandar sair.

- Vou?

- Sim. Vai me acusar de cruel, dizer que tenho uma vida muito serinha.

- E a minha não é?

- Deve ser...

- E o que isso importa?

- Não sei, essa frase é tua. É teu argumento para me mandar sair!

- Eu nunca faria isso.

- Vai fazer pior. Vai supor coisas sobre mim, sobre o que eu penso, sobre o que eu quero, sobre o que eu espero, sem nunca me perguntar. Vai acreditar que quero em troca o que eu jamais pedi... Ainda assim eu vou achar que tu é um diamante bruto.

- E tu queres me lapidar? É isso?

- Não... gosto de ti assim. Gosto até da tua falta de cuidado, da preguiça de cozinhar as palavras, da pressa de avaliar minhas manias, de me julgar pelos outros, de tentar me rotular por coisas que eu não sou. Vou gostar disso pra te surpreender e vou querer te mostrar o tanto de errado que tu estás.

- Vai?

- Sim. E tu farás olhos de prece, me mandando sair quando eu quiser ficar. Recusará amor quando mais precisar. As manhãs de sol vão quarar a saudade.

- Aonde tu vais?

- Embora.

- Tu recém chegaste.

- Eu sei, mas tu nunca me darás tempo. Marcamos encontro na nossa hora errada.

Eu queria ver no escuro do mundo



Aonde está o que você quer


Pra me transformar no que te agrada


No que me faça ver


Quais são as cores e as coisas pra te prender


Eu tive um sonho ruim e acordei chorando


Por isso eu te liguei






Será que você ainda pensa em mim?


Será que você ainda pensa?






Ás vezes te odeio por quase um segundo


Depois te amo mais


Teus pêlos, teu gosto, teu rosto, tudo


Tudo que não me deixa em paz






Quais são as cores e as coisas pra te prender?


Eu tive um sonho ruim e acordei chorando


Por isso eu te liguei






Será que você ainda pensa em mim?


Será que você ainda pensa?

Posso sugerir uma musiquinha?! Posso, né... o blog é meu e eu faço o que eu quiser.

http://www.youtube.com/watch?v=f3tROimHbuo


Meu gurizinho queridinho, ouvi taaanto essa semana que ele deve estar rouco.

**** PRA LEMBRAR: Tristeza é nascer margarida e não morrer de bem-me-quer.
                                     

6 comentários:

Ana disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ana disse...

Sem palavras.Conseguiste passar veracidade tanto q me peguei imaginando a cena.(semcoeci nomes dos personagens).E a sugestão da música...preciso dizer q amo? e o bono cantando ela? te adoro.Orgulho!bjoss

Carlos disse...

Se um dia enfiares os pés na minha porta, tranco ela por dentro e engulo a chave pra nunca mais saires... hehe
Foto ESPETACULAR!!!!
Fascínio por esse Olho...

Anônimo disse...

Bocuda, vc é o retrato da mulher perfeita. Mesmo com todas as artes, manias e gracinhas. Melhor amiga da vida. Volto de Paris dia 21 churras na casa nova. A lua de mel aqui é bem etílica. bjs, Gui.

Anônimo disse...

correção, chegamos dia 27! bj, gui

BETO disse...

Bocão sua sutileza é quase inocente. bj