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Mostrando postagens de Fevereiro, 2012

amor doidinho

(Para a querida Lathoia e para a querida Paola Bárbara.) (E, óbvio, para o meu amor muito doidinho.)

Era uma vez um amor doidinho. Um amor doidinho é ainda assim um amor. Um amor doidinho exige todos os cuidados de um amor feijão com arroz. Amor é amor.
Às vezes a gente pensa que apenas amar basta, é justamente o contrário. O amor nunca basta. Jamais se basta. Sozinho não é nada, é preciso cuidado, empenho, dedicação, sacrifícios e mudanças. Sempre queremos amar, raramente estamos dispostos a mudar. Acredito que mais importante do que amar é se aceitar amando. Assumir um amor, levantar uma bandeira de coração, pendurar no varal, com orgulho, escudo no peito e cara de bobo.
Acho bonito quem assume, é de uma coragem invejável. É aceitar o desafio de conviver com o outro, admirar até os defeitos. É aceitar o desafio de se doar num mundo onde fomos criados apenas para querer. Não se ama para ser amado. Não se ama esperando amor em troca. Amor se dedica. O que se espera é ser correspondi…

gato de rua

Um gato, mesmo que tenha a mesma raça, nunca terá a personalidade igual a outro. Gatos têm as próprias manias, teorias e opiniões. Fazem desaforos em primeira pessoa do singular. Um gato é um ser divino. Dotado de toda a independência e doçura, tem olhos que abraçam o mundo. É preciso muita sensibilidade para conviver com gatos, muito respeito e dedicação. Eu sou fã declarada dos gatos de rua, os sem estirpe, com DNA de calçada, de miar nos muros.
Quando eu chego em casa o Tobias já está sentado na frente da porta, é meu vira-latas preto, bagaceiro até o último fio de bigode. Entro, deixo minhas bugigangas espelhadas (é assim que coloco minha vida pelo lar) e ele já está na escada. Fica sentado mudo no topo. Alguém que não conhece gatos pensaria que ele está me observando. Não. Gatos se comunicam pelos olhares mais do que pelos sons, pelo corpo flexível, mais do que pelos miados. Tobias me encara com os olhos de “vem”. Quer o que esperou o dia inteiro para ter: minha cama comigo. Não …

bilhetes

Aposentei as cartas de amor por invalidez, faz tempo. Nem sei se alguma vez elas trabalharam de fato. Já escrevi, confesso, mas nunca enviei. Faz parte do meu show, dos amores platônicos que dão certo.

Cartas de amor não combinam comigo, não sei escrever tanto que não possa me contradizer antes de colar o envelope. Exigem muito assunto de um mesmo tema, pra uma mesma pessoa. Declarações de amor exausto, poema, citação, corações e borrifada de perfume. É quase obra de engenheiro, arquiteto e decorador. Carta de amor tem estética, fiapo de papel não vale. O garrancho é refeito até virar caligrafia. Sentimento orquestrado, prefiro os desregrados, de improviso. Gosto do amor que vem sem explicação, do recado de momento. Sou adepta do imediatismo sincero dos bilhetes.

Eu considero os bilhetes de amor papéis mais dignos. Umas frases, poucos pontos. Multiplicam a naturalidade do gostar, evoluem, crescem e maturam por dia. Num bilhete eu gosto, no outro declaro paixão, no outro amor eterno. P…

a mão e a luva

Você me cai como uma luva. Fica tão bem em mim que nem parece que meu corpo já esteve despido de ti. A cintura agradece o abraço, os meus ombros cedem lugar aos teus. Você me cai como uma luva no outro banco do carro, contando histórias e aumentando a viagem sem que se alterem os quilômetros. Você multiplica, alonga, alarga, ultrapassa os sentidos. Torna horizonte paisagem, aponta para onde vamos. Eu não vejo, eu vou. Só sei gostar assim, aproveitando o caminho com as curvas que inventas. Não levamos mapas, improvisamos tudo. Saímos para um canto, acabamos em outro. Desafiamos os cardápios. Mudamos até as montanhas de lugar.
Nossa felicidade é espaçosa. O riso ocupa todos os cômodos, não dorme por todas as camas. O riso invade as lacunas e molha as palavras com vinho branco.
Você me cai como uma luva quando deita na minha rede, cobrindo o corpo com a noite, procurando estrelas cadentes, falando sobre meteoros, inventando assuntos. Não me olha nos olhos, mas através deles para fazer pr…

a guitarra e os cegos (ou doidos)

Hoje choveu. Não uma chuva avisada, daquelas que passa o dia dizendo que uma hora vai cair e cai. O céu era azul, tinha brisa, que virou calorão. Colchas de nuvens amarrotaram o céu, deixando um cinza grosso e confuso aguar em pingos. Foi assim que choveu. Chuva sem sentido, sem pensar e sem querer. Uma chuva que se aproveitou do descuido, sorrateira e brincalhona. Caiu um montão de água. Os vidros da sacada pareciam cachoeiras. Lagos caseiros se formaram entre os vasos do jardim, as plantas dançavam com as gotas pesadas, mas estavam agradecidas. Gosto de chuva de qualquer jeito.
Choveu de improviso. Parecia uma paixão improvável. Isso que vem quando a gente nem pensa. Isso que abusa do normal, que atiça mais sentidos. Dessas que obriga a ver além dos olhos. Quando o que a gente interpreta precisa ir além do que se vê tão cru. É aquilo que a gente estaciona na frente, encara e dá uma inclinada na cabeça tentando compreender.
É se inclinar sobre o próprio eixo, buscando algo além do que…

murista

(da série dialoguinhos)



- Desce daí, guria.
- Não... quero ficar.
- Tenho medo que caia de cima desse muro e acabe se machucando.
- Já caí de nuvens mais altas que este muro. Sobrevivi. Eu sempre sobrevivo.
- O que você faz aí?
- Sabe quando a gente precisa observar alguma coisa por outro ângulo? Sabe quando é preciso ficar mais alta, parecer maior, tentar intimidar a dúvida? Sabe quando a gente precisa saber se entra ou se sai?
- Acho que sei.
- É o que eu estou fazendo aqui. Observando, pensando. Estou quieta como raramente fico. Ao mesmo tempo inquieta onde eu gosto de sossego. Não gosto de indecisão, não gosto de ter que subir neste muro, mas me colocaram antes num lugar que eu não gostei.
- Um lugar que não era teu?
- Eu pensei que fosse. Pelo menos pela manhã, eu pensei que fosse...
- Por que não é?
- Porque depois me pareceu o lugar errado. Não fui até lá seguindo a trilha do lugar errado, placa, sinalização, pedras amarelas, não me perdi por querer dessa vez. Cheguei errada no lugar c…