sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

amor doidinho

(Para a querida Lathoia e para a querida Paola Bárbara.)
(E, óbvio, para o meu amor muito doidinho.)


Era uma vez um amor doidinho. Um amor doidinho é ainda assim um amor. Um amor doidinho exige todos os cuidados de um amor feijão com arroz. Amor é amor.

Às vezes a gente pensa que apenas amar basta, é justamente o contrário. O amor nunca basta. Jamais se basta. Sozinho não é nada, é preciso cuidado, empenho, dedicação, sacrifícios e mudanças. Sempre queremos amar, raramente estamos dispostos a mudar. Acredito que mais importante do que amar é se aceitar amando. Assumir um amor, levantar uma bandeira de coração, pendurar no varal, com orgulho, escudo no peito e cara de bobo.

Acho bonito quem assume, é de uma coragem invejável. É aceitar o desafio de conviver com o outro, admirar até os defeitos. É aceitar o desafio de se doar num mundo onde fomos criados apenas para querer. Não se ama para ser amado. Não se ama esperando amor em troca. Amor se dedica. O que se espera é ser correspondido. Ter as expectativas supridas a altura. Amor pode ser a caixa de Pandora.

Ontem precisei pensar quando alguém disse que não se sabe amar nesse mundo. Talvez não se saiba manter um amor. Não que não haja amor, ele existe, existe muito. É muito fácil amar quando tudo dá certo. É muito fácil amar quando o outro também ama. Mas e o amor doidinho? Esse que nasce todo errado tropeçando na própria pressa? Esse que se atrapalha todo?

Esse amor que vem, que quer, que deseja? Não é menos amor que qualquer outro. O amor doidinho merece confiança, dedicação, sacrifícios e atitudes. Às vezes, o amor doidinho vai precisar que se esqueça o orgulho e mande uma mensagem. O amor doidinho vai precisar de um último pingo de confiança. Tudo isso porque se aposta que o amor doidinho vai ser um amor daqueles, de escrever histórias, de contar pros filhos, de render assuntos, noites de rede, retratos espalhados. O amor doidinho vai querer ultrapassar limites, arrasar manias.

Nem todo amor é certo. Nem sempre se sabe amar porque isso não tem fórmula certa. Amor não começa, acontece. Não adianta querer domar e ensinar bons modos. O amor não sabe etiqueta. Come com as mãos em banquete. Fala o que não deve. Pede perdão pra depois atropelar.

Não é só porque uma coisa não começa certa que não pode se acertar depois. Nem tudo tem resposta certa. A maioria das minhas perguntas sequer tem resposta. Preciso afirmar para enganar a dúvida.

Não é porque uma coisa não se define que ela não pode existir.

Sobram dúvidas. A gente tem mais é que ir vivendo e agindo. É tempo de fazer acontecer, de ajeitar tudo pro amor doidinho poder respirar.

Prefiro viver tudo.
Mais que saber tudo.
Eu não sei nem a cor dos meus olhos.




Uma vez, a irmã do Chico Buarque (suspiros intensos), Miúcha, contou que ele foi preso aos dezessete anos. Ao preencher a ficha, o oficial elaborou a descrição. Na hora da cor dos olhos, surgiu a dúvida: verdes ou azuis?

Preencheu: ardósia.

Mas quando perguntam a cor dos meus olhos, eu continuo devolvendo a pergunta " que cor você pensa que é?"

Não quero ser presa pra descobrir. Vou definir por maioria de votos.



Falar de amor e Chico sem esta música deve até ser pecado.




Samba do Grande AmorChico Buarque


Tinha cá pra mim
Que agora sim
Eu vivia enfim
O grande amor
Mentira
Me atirei assim
De trampolim
Fui até o fim um amador
Passava um verão
A água e pão
Dava o meu quinhão
Pro grande amor
Mentira
Eu botava a mão
No fogo então
Com meu coração de fiador

Hoje eu tenho apenas
Uma pedra no meu peito
Exijo respeito
Não sou mais um sonhador
Chego a mudar de calçada Quando aparece uma flor
E dou risada do grande amor
Mentira

Fui muito fiel
Comprei anel
Botei no papel
O grande amor
Mentira
Reservei hotel
Sarapatel
E lua de mel
Em Salvador
Fui rezar na Sé
Pra São José
Que eu levava fé
No grande amor
Mentira
Fiz promessa até
Pra Oxumaré
De subir a pé o Redentor

Hoje eu tenho apenas
Uma pedra no meu peito
Exijo respeito
Não sou mais um sonhador
Chego a mudar de calçada
Quando aparece uma flor
E dou risada do grande amor
Mentira

SUBLINEI PORQUE ADOOOOOORO ESSA MENTIRA

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

gato de rua


Um gato, mesmo que tenha a mesma raça, nunca terá a personalidade igual a outro. Gatos têm as próprias manias, teorias e opiniões. Fazem desaforos em primeira pessoa do singular. Um gato é um ser divino. Dotado de toda a independência e doçura, tem olhos que abraçam o mundo. É preciso muita sensibilidade para conviver com gatos, muito respeito e dedicação. Eu sou fã declarada dos gatos de rua, os sem estirpe, com DNA de calçada, de miar nos muros.

Quando eu chego em casa o Tobias já está sentado na frente da porta, é meu vira-latas preto, bagaceiro até o último fio de bigode. Entro, deixo minhas bugigangas espelhadas (é assim que coloco minha vida pelo lar) e ele já está na escada. Fica sentado mudo no topo. Alguém que não conhece gatos pensaria que ele está me observando. Não. Gatos se comunicam pelos olhares mais do que pelos sons, pelo corpo flexível, mais do que pelos miados. Tobias me encara com os olhos de “vem”. Quer o que esperou o dia inteiro para ter: minha cama comigo. Não interessa a posição que eu deite, Tobias dá um jeito de se encaixar. Ele precisa do meu carinho para dormir, ronrona até ser atropelado pelo sono, quando suspira, abre um pouco a boca. Ele implica veladamente com a minha demora porque entre a hora que chego em casa e a hora que vou para a cama há uma infinidade de eventos. Mas ele espera. Não se importa em me acompanhar pela casa. Espera dentro do banheiro enquanto eu tomo banho. Diverte-se comigo. Faz as artes dele. Furta a janta, usurpa a torrada no café da manhã. Quando era menor, tirava a chupeta de dentro da boca do meu filho. Tobias é assim, especialista em se apropriar do que não lhe pertence.

Diferente da Raica, minha gata sem raça que tem cor de galinha carijó – por isso carinhosamente chamada de franga – que não se apropria de nada que não lhe pertence. Porque não há o que não seja seu. Pelo menos é o que ela pensa. Eu sou dela, meu travesseiro é dela, meu filho é dela e até Hagi, meu outro gato, é dela. Raica é uma doce rabugenta. Chega lânguida, ronronando, do focinho ao rabo se esfrega, seduz até ganhar um colo. Deu, se tu respira de um jeito que desagrada, ela coloca algumas unhas pra fora. E te olha como se carinho estivesse fazendo, chega a bater uma dúvida. Ela repreende sutilmente. Com ela por perto, só posso dar atenção para ela. Se abro um livro, ela cabeceia até uma das minhas mãos serem dela. Abro o jornal, ela deita em cima, abro a mala, ela entra dentro, puxo a cadeira, ela senta. E se eu descuido no meio da noite, ela me tasca um beijo de nariz molhado.

Amo gatos de rua. Um gato de rua não deixa de ser arisco nem depois de domesticado. É arisco pra entregar seu coração. Gato de rua quer a água recém servida, a almofada fofa, a comida nova e a areia do xixi limpinha. Quer ter suas manias preservadas. Se uma coisa não faz o gato de rua feliz, ele não procura outro dono. Ele ganha a rua. Ele volta pra boemia dos muros, das latas de lixo, de fugir de cachorro. Se fecham a porta, gato de rua mia no telhado. Um gato de rua sempre espera que você volte. É prova de amor.

Conviver com esses vira-latas é exercitar todos os dias a conquista. É ter jogo de cintura, ser flexível e cair em pé. Sim, você, não o gato. Isso ele sabe fazer.

Viver com um gato de rua é como manter um namoro. A cama sempre quentinha, a comida na mesa, respeito, conhecimento, flexibilidade para que ninguém ganhe novamente as latas de lixo, os muros e telhados. Exercício diário do cuidado. Gatos de rua não sabem viver tristes ou desgostosos. Os ronronados são honestos, os convites sinceros, cada gateada é uma declaração de amor verdadeiro. Um gato de rua não brinca de amar. Ele ama. Ama porque foi conquistado e isto basta. Mas um gato sem estirpe ama mais que tudo a si mesmo e sabe o quanto dói ter que lamber as próprias feridas, antes do estrago irreparável, prefere a rua.

Mas pode aceitar um convite pra voltar. 



Raica, a franga.

Tobias, o usurpador de torradas matinais. 

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Gatinha manhosa


Meu bem
Já não precisa
Falar comigo
Dengosa assim...

Briga, para depois
Ganhar mil carinhos de mim
Se eu aumento a voz
Você faz beicinho
E chora baixinho
E diz que a emoção
Dói seu coração...

Já, não acredito
Se você chora
Dizendo me amar
Eu sei que na verdade
Carinhos você quer ganhar...

Um dia gatinha manhosa
Eu prendo você
No meu coração
Quero ver você
Fazer manha então
Presa no meu coração
Quero ver você..



sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

bilhetes


Aposentei as cartas de amor por invalidez, faz tempo. Nem sei se alguma vez elas trabalharam de fato. Já escrevi, confesso, mas nunca enviei. Faz parte do meu show, dos amores platônicos que dão certo.


Cartas de amor não combinam comigo, não sei escrever tanto que não possa me contradizer antes de colar o envelope. Exigem muito assunto de um mesmo tema, pra uma mesma pessoa. Declarações de amor exausto, poema, citação, corações e borrifada de perfume. É quase obra de engenheiro, arquiteto e decorador. Carta de amor tem estética, fiapo de papel não vale. O garrancho é refeito até virar caligrafia. Sentimento orquestrado, prefiro os desregrados, de improviso. Gosto do amor que vem sem explicação, do recado de momento. Sou adepta do imediatismo sincero dos bilhetes.


Eu considero os bilhetes de amor papéis mais dignos. Umas frases, poucos pontos. Multiplicam a naturalidade do gostar, evoluem, crescem e maturam por dia. Num bilhete eu gosto, no outro declaro paixão, no outro amor eterno. Parece-me que esses soluços de papel são mais dignos. Combinam mais. Saem da caneta pro papel quase sem querer.


Gosto dos bilhetes porque são e-mails analógicos. São urgentes, têm prioridade de leitura. Aceitam guardanapo com mancha de vinho, papel riscado no verso, nota fiscal. Colam na geladeira, acampam dentro da fronha do travesseiro, são amarrados na taça do vinho “beba-me sem moderação”. Um bilhete é tão perigoso quanto eu de unhas vermelhas. Ameaçador.


Não sobra papel pra mentir, enrolar ou seduzir. É o próprio charme, a própria sedução na celulose. É a etiqueta do momento. São as instruções da noite. São o carinho do dia, o agradecimento pela felicidade do final de semana, pelo riso que sol encontrou atirado na areia. A letra tem a personalidade da hora, separadas, juntas, garrafais. É livre. Aprecio essa liberdade.


Meus bilhetes – quase – sempre foram entregues. Os que não foram lidos, foram rasgados. Prescreveram porque têm prazos contados em instantes. Passa o instante, passa o tempo, passa a temperatura do vinho gelado.


Rasgar os bilhetes não deu trabalho. Trabalho pode dar se eu precisar rasgar o que estava escrito neles – há uma diferença entre o tempo do papel e o infinito do conteúdo que a física não explica, mas a química e a biologia podem tentar. Lixo seco. Muito seco, como ficou o copo de suco que saiu do armário apenas para passear pela bandeja.


Nem deu trabalho amassar os guardanapos amarelos escritos “bom dia”.


O que deu trabalho foi apagar o batom vermelho do espelho do banheiro: “tu ficas bem mais bonito do meu lado.”


Ficou feio.
(o espelho)


Ganhei da Zá uma caixinha com papéis de recadinhos. Os papéis tão lindinhos ficam ali eufóricos, esperando pra sair. Daí aproveitei pra guardar em caixinhas mais coisas. Igualmente eufóricas. 








VAMBORA - (Adriana Calcanhoto)

Entre por essa porta agora
E diga que me adora
Você tem meia hora
Prá mudar a minha vida
Vem, vambora
Que o que você demora
É o que o tempo leva...

Ainda tem o seu perfume
Pela casa
Ainda tem você na sala
Porque meu coração dispara?
Quando tem o seu cheiro
Dentro de um livro
Dentro da noite veloz...

Ainda tem o seu perfume
Pela casa
Ainda tem você na sala
Porque meu coração dispara?
Quando tem o seu cheiro
Dentro de um livro
Na cinza das horas...



(irmãozinho)

http://www.youtube.com/watch?v=pTRxq-2jrik









domingo, 12 de fevereiro de 2012

a mão e a luva


Você me cai como uma luva. Fica tão bem em mim que nem parece que meu corpo já esteve despido de ti. A cintura agradece o abraço, os meus ombros cedem lugar aos teus. Você me cai como uma luva no outro banco do carro, contando histórias e aumentando a viagem sem que se alterem os quilômetros. Você multiplica, alonga, alarga, ultrapassa os sentidos. Torna horizonte paisagem, aponta para onde vamos. Eu não vejo, eu vou. Só sei gostar assim, aproveitando o caminho com as curvas que inventas. Não levamos mapas, improvisamos tudo. Saímos para um canto, acabamos em outro. Desafiamos os cardápios. Mudamos até as montanhas de lugar.

Nossa felicidade é espaçosa. O riso ocupa todos os cômodos, não dorme por todas as camas. O riso invade as lacunas e molha as palavras com vinho branco.

Você me cai como uma luva quando deita na minha rede, cobrindo o corpo com a noite, procurando estrelas cadentes, falando sobre meteoros, inventando assuntos. Não me olha nos olhos, mas através deles para fazer previsões e interpretações daquilo que eu jamais disse. Você desdobra meus suspiros amassados, levanta o tapete pra ver o que eu varri para baixo, conquista o território do meu sofá. Você me cai como uma luva quando tranca todas as portas para que ninguém nos roube o que já nos demos. Para que ninguém viole nosso desassossego ou perturbe o teu sono. Você me pede desculpa por dormir, me pede para não acordar, gruda, cola, aperta e não me sufoca. Prepara as respostas antes das perguntas. Quer cuidar de mim enquanto eu só quero cuidar do jardim. Estou mentindo, você sabe. Na verdade eu quero cuidar de tudo.

Você me cai como uma luva quando escuto a respiração horizontal. Quando diz que tenho cara de desenho animado, quando sou trapaceada pelo vento que vem de baixo riscando a barra do meu vestido, quando escolhe a mesa em que vamos sentar e atesta a ruivice dos meus cabelos no sol do fim de tarde, me ganha, em frações, trocados, meia-dose que vira taça cheia. Você me cai como uma luva quando consentimos inconsequencias, quando um refúgio se transforma em castelo, quando fingimos que não há ninguém passando e não importa porque estamos a cem por hora. Adoro os absurdos, os finais inusitados, as frases sem sentido algum. Você me reparte em várias para colecionar os cheiros, depois me monta toda fora do lugar.

Você me cai como uma luva quando decreta todas as ordens que eu não vou fazer, quando resolve que a gente se ama e fim de papo, pelo humor. Você tem um sotaque que aparece sem querer e teorias engraçadas. Você me cai como uma luva nas filosofias de mesa de bar, quando aperta meu braço querendo que eu concorde e coloca uma pausa em tudo pra mudar de assunto. Cai-me como uma luva quando coloca uma pausa em todos para me beijar. Quando me agita ao contrário.

Eu te caio como uma mão (fazendo dos teus caracóis os anéis dos meus dedos, redesenhando com a ponta dos indicadores o contorno do teu maxilar até o meio do queixo, descendo pelo hióide até amarrotar a gola da tua camiseta).





Um P.S. fingido: 

PRA NÃO DIZER QUE FALEI SÓ DE FLORES:

Machado de Assis durante a fase romântica escreveu A MÃO E A LUVA (além de Ressurreição, Iaiá Garcia e Helena). O romance conta a história de Guiomar, que era disputada por três moços para casar. Como tinha o sonho de frequentar o topo da camada social, optou por Luis Alves, seguindo uma fria escolha de espírito. Luis Alves era ambicioso e político. Lá pelas tantas do livro, os dois conversam sobre ambição e concluem que não é um defeito e sim uma qualidade de ambos. Decidem que um servirá de apoio para o outro nos seus objetivos e, num gesto final de carinho, Guiomar senta no colo do marido, eles se beijam. Não é de hoje que beijo é uma forma de fechar um acordo, selar negócio. A origem do beijo nos casamentos não é mostrar que o casal se ama, mas sim confirmar o negócio. Certo, sejamos românticos, hoje pode ser sim mostrar todo o amor entre os noivos.

Quero falar de uma coisa mais prática. Nada errado em um casal ser unido pela ambição, nada errado em um beijo ser provocado pelo tino negocial, por objetivos conjuntos que convergem em outro fim que não o amor. Até porque o amor tem muitas faces.

Optei por fazer da minha vida a melhor de todas, porque só tenho esta. Convidei alguém pra vir junto. Eu disse que preciso viver bem, feliz e me divertir. Ele topou sem pensar muito. Sem discutir ou perguntar como. O que aconteceu depois? Tem sido divertido, bem vivido, recheado de felicidade. E com muitos beijos entre risos.

Já disse Camus: “Não há que ter vergonha de preferir a felicidade”.



Legenda pra foto: PERCANTA. 
Melhor, vivendo o auge da percantagem! 


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Antes da trilha sonora, quero explicar o porquê da música. Sábado, depois de jantar, fomos conhecer o ateliê das velas do Cadu, em Xangri-lá. A Tati, minha amiga do coração nos convidou. Além do trabalho lindo, sedutor e diferente que o Cadu faz, a reunião de pessoas boas, divertidas e de alto astral me fez muito bem. Estávamos em cinco pessoas, conversando, rindo, dividindo um momento de extrema simplicidade que só é possível quando existe amor, respeito, amizade, fraternidade e honestidade. Eu fico MAIS feliz nessas horas. O mundo fica bem mais bonito. 

Eu sempre falo que amor deve ser pendurado no varal, que é feito pra espalhar, pra que possa se multiplicar. A bondade também. É bom ser do bem. É bonito ser honesto. Sinceridade não é defeito. Não é feio agir bem.  O coração bate melhor. Eu juro.

*PRA QUEM QUISER CONHECER O TRABALHO DO CADU, AS VELAS ESTÃO EXPOSTAS EM XANGRI-LA, NA AVENIDA PARAGUASSU,1722, AO LADO DA IMOBILIÁRIA BELLA HOUSE. VALE MUITO!  

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Shiny Happy People - REM

Meet me in the crowd
People, people
Throw your love around
Love me, love me

Take it into town
Happy, happy
Put it in the ground
Where the flowers grow
Gold and silver shine

Shiny happy people holding hands
Shiny happy people laughing

Everyone around
Love them, love them
Put it in your hands
Take care, take care

There's no time to cry
Happy, happy
Put it in your heart
Where tomorrow shines
Gold and silver shine

Shiny happy people holding hands
Shiny happy people laughing

Whoa, here we go

Shiny happy people holding hands
Shiny happy people laughing



segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

a guitarra e os cegos (ou doidos)


Hoje choveu. Não uma chuva avisada, daquelas que passa o dia dizendo que uma hora vai cair e cai. O céu era azul, tinha brisa, que virou calorão. Colchas de nuvens amarrotaram o céu, deixando um cinza grosso e confuso aguar em pingos. Foi assim que choveu. Chuva sem sentido, sem pensar e sem querer. Uma chuva que se aproveitou do descuido, sorrateira e brincalhona. Caiu um montão de água. Os vidros da sacada pareciam cachoeiras. Lagos caseiros se formaram entre os vasos do jardim, as plantas dançavam com as gotas pesadas, mas estavam agradecidas. Gosto de chuva de qualquer jeito.

Choveu de improviso. Parecia uma paixão improvável. Isso que vem quando a gente nem pensa. Isso que abusa do normal, que atiça mais sentidos. Dessas que obriga a ver além dos olhos. Quando o que a gente interpreta precisa ir além do que se vê tão cru. É aquilo que a gente estaciona na frente, encara e dá uma inclinada na cabeça tentando compreender.

É se inclinar sobre o próprio eixo, buscando algo além do que o espelho pode refletir. É o que fez o Velho Guitarrista Cego, de Picasso. Pintada na fase azul, onde ele retratava solidão, exclusão, marginalização, a obra usa de pouca variação de cor, ironia do artista, ou não, o guitarrista é cego. Tanto faz ser dotado de muitas ou poucas cores. A pintura mostra um homem velho e magro, sentado de maneira esquisita, torta e desconfortável. Cego, trocando música por trocados. Um dom por moedas? Um dom por sobrevivência. Talvez algo que ele aprendeu sozinho, tirar música de cordas. Talvez a única herança de um pai com quem pouco conviveu.


(Vieux guitariste aveugle)

Quando vi essa pintura pela primeira vez fiquei intrigada com a posição da cabeça do velho. Por que inclinar assim para tocar, se quem toca não precisa ver o instrumento? E mesmo que quisesse ver algo, não poderia, ele é cego. Talvez ele seja menos cego do que muitos de nós somos. Talvez o que os olhos lhe negam seja suprido por outros sentidos. Inclinar-se sobre si não é uma atitude destinada a se contemplar, mas sim a se fechar. “Não se pode criar nada sem solidão” disse Picasso. Há quem diga que essa inclinação é uma auto-referência do artista, buscando em si inspiração. Eu penso outra coisa.

Penso que o homem feio, velho, magro, torto, cego, azul, rasgado, incômodo tem a perfeição nas mãos. A guitarra é a única coisa perfeita do quadro. É a única forma retratada como é, sem ser engolida pelos tons de azul do homem e do fundo. Sem a deformação da doença, do sofrimento, da fraqueza. O instrumento perfeito, certo, garante que ainda que não haja som, que ainda que o homem seja cego, é possível emitir a melodia mais agradável que possa existir.

O velho não se inclina pra ver. Se inclina pra contemplar a perfeição que vai além do olho. A guitarra é o centro. Fora do azul, do maltrapilho, do magro. A guitarra é a moldura, só que ao contrário. Está no centro, primeiro plano. O homem feio, maltratado e cego manuseia com cuidado e devoção.

Às veze vem parar no nosso colo uma coisa tão perfeita que nossos defeitos não conseguem estragar. Faz música, apesar de nós. Quebra com a feiúra da situação, com os tropeços dos inícios tortos. É uma paixão fora do azul. É a possibilidade de viver um amor, com todas as cordas, notas, acordes, dedilhados pelas mãos calejadas de escrever outras histórias.

E nós, como nossos defeitos, inclinamos sobre ela para contemplar. Nós, cegos por tantas coisas, usamos mais sentidos do que a visão. Nós sentimos.

Não interessa por que temos nas mãos a coisa mais perfeita que poderia acontecer. Ela está ali e a gente sabe tocar, mais que isso, estamos indo bem. Como nunca estivemos antes.

Sentir os dedos escorregando entre as cordas e ouvir o som que faz é consequencia de reconhecer e aproveitar a experiência única. Uns amores são assim, vêm mais bonitos do que o cenário. Seria injusto não tocar, render-se à triste palheta limitada de cores. Somos cegos pra fora? Vamos colorir para dentro. Deixar o coração quente, preservar o que tem para dar.

Acho que esta é a nossa música.
Acho que esta é a nossa chance.

Sejamos cegos, sejamos loucos. O amor precisa de um pouco de insanidade. 






Hoje choveu pra lavar um pouco da razão.


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Love Song - the cure
Whenever I'm alone with you
You make me feel like I am home again
Whenever I'm alone with you
You make me feel like I am whole again
Whenever I'm alone with you
You make me feel like I am young again
Whenever I'm alone with you
You make me feel like I am fun again
However far away
I will always love you
However long I stay
I will always love you
Whatever words I say
I will always love you
I will always love you
Whenever I'm alone with you
You make me feel like I am free again
Whenever I'm alone with you
You make me feel like I am clean again
However far away
I will always love you
However long I stay
I will always love you
Whatever words I say
I will always love you
I will always love you


sábado, 4 de fevereiro de 2012

murista


(da série dialoguinhos)




- Desce daí, guria.

- Não... quero ficar.

- Tenho medo que caia de cima desse muro e acabe se machucando.

- Já caí de nuvens mais altas que este muro. Sobrevivi. Eu sempre sobrevivo.

- O que você faz aí?

- Sabe quando a gente precisa observar alguma coisa por outro ângulo? Sabe quando é preciso ficar mais alta, parecer maior, tentar intimidar a dúvida? Sabe quando a gente precisa saber se entra ou se sai?

- Acho que sei.

- É o que eu estou fazendo aqui. Observando, pensando. Estou quieta como raramente fico. Ao mesmo tempo inquieta onde eu gosto de sossego. Não gosto de indecisão, não gosto de ter que subir neste muro, mas me colocaram antes num lugar que eu não gostei.

- Um lugar que não era teu?

- Eu pensei que fosse. Pelo menos pela manhã, eu pensei que fosse...

- Por que não é?

- Porque depois me pareceu o lugar errado. Não fui até lá seguindo a trilha do lugar errado, placa, sinalização, pedras amarelas, não me perdi por querer dessa vez. Cheguei errada no lugar certo. Só que o lugar era errado, eu acho... Ainda estou confusa, não sei explicar. Sensação de estar fazendo o que não devia.

- Eu acho que está tudo certo.

- Acha mesmo?

- Sim, se tu és a pessoa errada no lugar errado, então não está tudo certo?
- Ainda não sei, é mais complicado do que isso. Não sei mais se eu sou a pessoa errada.

- Tu sempre disseste que era o tipo certo de pessoa errada. Eu sempre concordei.

- E se em vez disso eu for o tipo errado de pessoa certa? Ou o tipo errado de pessoa errada? Não ri. Eu não vou descer até saber pra que lado eu vou.

- Quais as opções?

- Dentro ou fora do portão.

- O que pesa na tua decisão?

- Como eu me sinto, o que eu sinto, o que eu quero sentir e uma história que eu jamais vivi.

- Tu e as tuas histórias.

- Eu amo histórias. Tenho amado tanta coisa, com um tamanho tão desmedido que tudo se complica mais ainda. Admito que não sei o que pensar com muita certeza, sei menos ainda como agir, o que fazer. 

- Talvez fosse mais prudente agir com razão.

- E se a razão não estiver no mesmo sentido da minha felicidade?

- E quando tu te importaste com sentido?

- Quando importa o que eu sinto. 



Refrão de um bolero (Engenheiros)


Eu que falei nem pensar
Agora me arrependo roendo as unhas
Frágeis testemunhas
De um crime sem perdão
Mas eu falei nem pensar
Coração na mão
Como um refrão de um bolero
Eu fui sincero como não se pode ser
E um erro assim, tão vulgar
Nos persegue a noite inteira
E quando acaba a bebedeira
Ele consegue nos achar
Num bar,
Com um vinho barato
Um cigarro no cinzeiro
E uma cara embriagada
No espelho do banheiro
Teus lábios são labirintos
Que atraem os meus instintos mais sacanas
E o teu olhar sempre distante sempre me engana
Eu entro sempre na tua dança de cigana.
Eu que falei nem pensar
Agora me arrependo roendo as unhas
Frágeis testemunhas
De um crime sem perdão
Mas eu falei sem pensar
Coração na mão
Como o refrão de um bolero
Eu fui sincero
Eu fui sincero
Teus lábios são labirintos
Que atraem os meus instintos mais sacanas
E o teu olhar sempre me engana
É o fim do mundo todo dia da semana.