Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de Março, 2012

uma insônia para dois

Acordar no meio da noite é uma aventura. Eu sou do tipo que faz festa antes de dormir. Mudo o lugar das cadeiras, deixo abertas as portas dos armários, jogo as almofadas pelo chão como se minas terrestres fossem. Sem falar nas trincheiras de objetos que separam minhas mãos do liga-desliga do abajur: canecas de chá, taças de vinho, dúzias de papéis de rascunho, canetas, lápis, grafites, carvão, vasta cartela de cores em giz de cera. Chamo isso de caos criativo produzindo universo em nome próprio, vulgo baderna.
Isso não é hereditário, meu pai é capaz de achar a cor da camisa no escuro, de tão organizado.
Impossível tentar acender qualquer luz. Ir ao banheiro no meio da noite é uma aventura. Eu acordo, mas mal abro o olho. Saio da cama pisando em sei lá o quê. Desvio de um vulto que parece ser a escrivaninha, driblo um gato, deixo pedaços das canelas em mais alguma coisa. Volto para a cama como voltavam os farrapos das batalhas. A maior batalha ainda está por vir: voltar a dormir. O cor…

isto não é um texto

Abro a janela do carro só quando viajo. Dentro da cidade é ar condicionado e vidros fechados. A estrada quase implora pelo vidro aberto, entra o vento que escabela ideias, faz nós no pensamento, traz o cheiro que identifica o lugar. Jogo pelo trajeto algumas sementes de expectativas, dessas que a gente nunca sabe se vão se transformar num pé de decepção ou de alegria até que surjam os primeiros frutos. Às vezes a gente precisa olhar o conjunto pra entender o significado do todo. Em certas situações a fração não é fiel ao conjunto. É filha desgarrada. 
Trazer isso para a consciência é um exercício gestaltico. A percepção é questão de observação, mas também de experiência, de conhecimento, de leitura dos olhos, entrelinhas da situação. O que se vive não é fato isolado, é ação e reação por tudo, troca de energias, engrenagem da harmonia. 
René Magritte – artista plástico que acaba com a minha teoria que todos morrem loucos quando vão morar em Paris – é mestre em traduzir isso na sua obra. …

vê se entende a minha pressa...

Decidir que figurino usar é sempre um caos. Sou confusa e desordenada pra isso. O problema é que ontem o mundo estava muito selvagem, hoje absurdamente doce. E assim como do nada chove pra depois fazer sol, tudo pode mudar. Daí fico em dúvida se saio de casa armada até os dentes ou despida até os ossos.


Vou levar na bolsa dardos de sonífero e injeções de insulina.


Sou inconstante, porém precavida.


Não gosto de sair com armaduras, espadas e escudos. Isso pesa demais. Carregar nos bolsos as defesas, ocupando lugar de amenidades. Em minha defesa não tenho nada, nada mesmo. Tenho eu uma belíssima cara de pau de assumir minhas artes e defeitos. Faço e assino. Isso que sou tímida.


Sou acostumada a que me apontem os defeitos. Que peçam que eu pare com a agitação, que preste atenção no que eu estou fazendo, que não equilibre duzentas coisas numa mão enquanto coloco um pão na boca e seguro uma caneca de café na outra, calçando os sapatos e fechando a porta do armário com os pés. Não tenho coorde…

fidelidade

Fidelidade não é o tipo de coisa que se atesta com cartão. Abdiquei de uma série de promessas de fidelidade que não passaram de caso de um almoço e nada mais. Ou um livro e nada mais. Até um perfume para a amiga secreta e nada mais. Onde eu entro para comprar, a vendedora me canta, me encanta e me leva. Pronto, saio do estabelecimento com mais um cartão de fidelidade. Acabo sendo bígama de farmácia, trígama de loja de produtos orgânicos e pêntama de livrarias. A minha fidelidade ganha carimbo e acertos de desconto registrados no meu CPF. Com anos de devoção à mesma farmácia conseguirei ganhar um batom – que eu nem uso. Chega. Coloquei fim ao recheio obeso da minha carteira.

Sinto-me até menos constrangida. Há duas semanas atrás entrei em uma livraria, escolhi o livro que eu queria. Quando fui pagar, abri a carteira e dei de cara com o cartão de fidelidade da concorrente. Fui pega em flagrante. Fiquei sem jeito, tentei desviar o olhar, mas o pedacinho retangular de plástico me encarava…