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Mostrando postagens de Abril, 2012

cinco quilômetros

- É que eu dou muita atenção pra essas coisas que a gente esquece por querer, ou finge que esquece.
 Fui justificando o olho aguado antes de ser perguntada. Continuei:
- Quer dizer, cada um deve fazer a sua parte, certo? Mas nem sempre a minha parte é só a minha parte. E nem sempre a minha parte é a parte que dá certo. Uma vez vi um modelo de saco feito com folha de jornal. Bom, a ideia pareceu mais ecologicamente correta do que usar sacos plásticos e na teoria, para lixo seco, a ideia pareceu digna. Um achado. Gastei todos os classificados de domingo tentando. Dobra pra lá, dobra pra cá. O que eu fiz foi lixo, lixo, lixo e mais lixo. Mas de um jeito ou outro, todo aquele jornal iria mesmo parar no lixo, certo? Então o que eu fiz? Perdi tempo e tempo não é reciclável.
Nesta hora dois pares de olhos estavam grudados em mim. Não sou acostumada a plateia nas minhas divagações. Intui que estava interessante a justificativa do meu estado calamitoso de alma. Tem dias que é assim, a alma fica…

fugiremos

Fugiremos. Culpados e condenados pela nossa sorte. Sorte de termos encontrado um ao outro. Sorte de conhecermos os limites e acenarmos para eles, lá de longe, de onde já ultrapassamos. Arrume a mala. Minha mochila já está pronta. Fugiremos loucos pelos cantos do mundo, interessados apenas na nossa alegria, semeando no caminho as risadas. Procurando nos olhos um do outro os caminhos, andando com os dedos nas curvas do meu quadril, me puxando pra esperar porque eu vivo correndo. Fugiremos porque tu me ensinas a parar às vezes, a respirar entre meus atropelos e os beijos sôfregos, entre murmuros e afagos. Entre a compressão dos meus dedos na tua mão.
Fugiremos. Aboliremos daqui os olhos curiosos, os que julgam, os que querem saber de nós. Viveremos na nossa pequena fuga sem planos a vida que decidirmos. Não haverá hora para nada. Não levaremos as acusações, os incômodos, as pessoas chatas e desprovidas de respeito. Abandonaremos os maus olhares, as más línguas, todo o mal. Subiremos no a…

duas caras

Não conjugo mais o verbo amar em outro tempo que não o presente. Amar: verbo presente. Presente como nunca foi, olhando pra trás percebo. Viver é verbo dinâmico. Onde estamos daqui a pouco já foi. E o que resta é o futuro conjugado no agora. É o que somos. Seguramos as chaves das portas do futuro, faremos as nossas escolhas, observando o que foi, olhando para o que queremos.
Na mitologia romana, Jano era uma divindade de dois rostos, um olhava para trás, outro para frente. Passado e futuro, as duas faces do presente. Jano era o porteiro celestial. Carregava numa mão um báculo, na outra a chave que abria ou fechava todas as portas. O mês de janeiro é uma homenagem ao seu nome, o mês que abre o ano. Mas Jano também era dotado de grande indecisão, um rosto jamais viu o outro, restritos sempre ao mesmo visual. O que foi e o que virá se encontram no agora. Duas faces viradas para lados opostos, indeciso entre a expectativa do futuro e a insegurança da vivência passada. Não podemos negar o …

rotina

Fiquei surpresa na primeira vez que percebi os olhos me seguindo pelo quarto logo de manhã. Justo ele que detesta acordar cedo. Estava me observando enquanto eu me vestia, apressada, atrasada como sempre. Tenho esperança que nesses dias o trânsito possa entender que tive bons motivos para perder quinze minutinhos a mais nos lençóis e assim, gentilmente fluir. Nunca entende. Jamais flui. As tranqueiras são as penitências da minha luxúria, da minha preguiça e de qualquer outro pecado que aconteça no espaço de tempo que separa o toque do despertador do momento que eu levanto de verdade da cama. Enrolar os caracóis pela manhã é quase proibido durante a semana. O que é injusto, porque antes do desjejum já sinto saudade.
Mas eu falava da maneira como ele me olhava, ainda coberto até o queixo, aquele brilho molhado de bom dia entre as pálpebras. Mudo. Em dúvida sobre a própria existência. Mergulhado no travesseiro. Eu ainda com o cabelo amarrotado. Ele seguia colando as pupilas em cada botão …