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Mostrando postagens de Maio, 2012

meu general

O amor não tem título de eleitor. Nunca passou perto de uma urna. Não escolhe candidatos, não faz prévia, não interessam campanhas. Amor não tem presidente, vereador ou deputado, o que não quer dizer que não pratique corrupção. O amor não é democrático!


O amor é anarquia.


É forma desgovernada de sentir, baderna dos desejos inominados. São as roupas espalhadas pelo chão, as taças pela casa, o jornal escabelado, é a falta de horário para almoçar, jantar e dormir. E a deliciosa inconveniência de mandar mensagens provocantes no meio da tarde, com ameaças sensuais para a noite (quem nunca, não é mesmo?). Os apaixonados são avalanches soterrando as regras da etiqueta. O amor não obedece lei, nem a da gravidade. Os amantes flutuam, os pés saem do chão, as borboletas se mudam para a barriga, o arrepio é independente do frio.


Amar é ser livre pra ficar. É roubar no jogo, extrapolar no vinho, ousar, morrer de rir e viver depois. É se prender porque tem vontade. Ficar porque quer. Não dar motivo, n…

antiquários de san telmo

Indelicada foi a natureza ao criar todas as cores sem me deixar uma para inventar. Não quero batizar uma que já existe ou produzir variações para cobrir paredes de uma sala ou as unhas das moças. Queria parir uma cor inédita aos olhos, dar um nome feliz e pintar tantos muros quanto eu conseguisse com o teu nome. E eu desenharia também. Desenharia peixes, estrelas, árvores, flores e nuvens, dessas que fingem que não vão chover. Nós dois sabíamos que iria chover naquela tarde depois do almoço. Entre sorrisos e taças de vinho, olhamos pela janela. Entre o gradil, o céu sem olho de sol. Mesmo assim corremos nas calçadas ao abrigo das marquises, felizes e únicos. As pombas nos olhavam curiosas.


A chuva não afogou nosso desejo. Entrávamos nas lojas de antiguidade. Somos aleatórios para aceitar convite de portas abertas. Soldadinhos de ferro que não conheceram os campos de batalha. Lustres de cristal que estiveram em outras salas. Corredores estufados por toda a espécie de velharia, nem os ve…

love me tender

Passava muito das duas da manhã quando Elvis começou a cantar Kiss me quick, while we still have this feeling...”, eu estava sentada no sofá com a última taça de vinho na mão enquanto conversávamos sobre a vida, planos, futuros, passados e qualquer outra coisa que coubesse na sala. Falei do sofá? Relíquia de família, feito com pau-brasil, confortável e acolhedor. Sofá que abraça sem deixar de ser sério. Guardião das histórias da infância. Segredos abafados pela espuma das almofadas. E era lá que eu estava. 

Nós temos a mania de sentar longe para beber vinho e conversar. A conversa é boa, mas a sedução das entrelinhas é sempre melhor. Aos poucos criamos imãs. Meu namorado estava zanzando pela sala com o brinquedo novo, uma caixinha de som sem fio, nova diversão da casa. Tornou-se nosso bicho de estimação no final de semana, onde fomos ela foi. Conheceu todos os cômodos da casa como se visita fosse. Não dormiu quando dormimos, nem almoçou quando almoçamos. Tocava no modo aleatório. O DJ…

o fim da ousadia

Pintei as unhas de preto. Preto assim, não um preto só preto. Um preto meio prateado, sei lá, nem interessa. É um preto bem metido a besta. Até o nome de batismo é daqueles bestas, de mãe que quer ser arrojada no nome do filho. Achei que foi grande galhardia! Concluí sozinha no quarto “ acabei de cometer uma grande ousadia”. Não decidi ainda se eu gostei ou não disso, vou demorar dias para saber. Estranho por não ser o vermelho habitual, com as variações de tons dos alaranjados aos marrons duvidosos. Estão aqui, dez unhas das minhas lindas e macias mãos desse preto metido a besta.


Propaguei minha ousadia com orgulho, espalhei aos quatro ventos. Ou cinco. Bom, por todos os ventos, brisas ou ventanias. Recebi palavras de incentivo, elogio da mãe, sorriso amarelo do pai. Passei extra brilho para garantir a durabilidade. Que dure pelo menos tempo suficiente para eu decidir se gostei ou não. Ficaremos juntos até que o acetona nos separe. Mostrei até para os gatos!


Estava eu, aproveitando o…