quinta-feira, 31 de maio de 2012

meu general





O amor não tem título de eleitor. Nunca passou perto de uma urna. Não escolhe candidatos, não faz prévia, não interessam campanhas. Amor não tem presidente, vereador ou deputado, o que não quer dizer que não pratique corrupção. O amor não é democrático!


O amor é anarquia.


É forma desgovernada de sentir, baderna dos desejos inominados. São as roupas espalhadas pelo chão, as taças pela casa, o jornal escabelado, é a falta de horário para almoçar, jantar e dormir. E a deliciosa inconveniência de mandar mensagens provocantes no meio da tarde, com ameaças sensuais para a noite (quem nunca, não é mesmo?). Os apaixonados são avalanches soterrando as regras da etiqueta. O amor não obedece lei, nem a da gravidade. Os amantes flutuam, os pés saem do chão, as borboletas se mudam para a barriga, o arrepio é independente do frio.


Amar é ser livre pra ficar. É roubar no jogo, extrapolar no vinho, ousar, morrer de rir e viver depois. É se prender porque tem vontade. Ficar porque quer. Não dar motivo, não ter razão. O amor é anarquista desde sempre. Ignora as placas de pare. Deixa vazia a cadeira do governante para encher a cama. Anarquistas dizem que é tudo nosso. Nosso amor, nosso carro, nossas escovas de dentes, nossa saudade. Amor é coletivo em dupla.


Mas ando desconfiada. Meu amor tem um casaco de general. Muito embora tenha docemente me emprestado numa noite portenha de frio, com todas as medalhas e honras, suspeito que queira proclamar uma ditadura. Ele contabiliza mortos de guerra. Eu mostro as cicatrizes. Atiro beijos fatais quando ele senta do outro lado do sofá. Ele planeja um golpe de Estado, quer tomar o poder, criar um ato institucional e usar a censura. Não, nada de decotes ou vestido.


Um dia desses fui embora e ele me pediu um beijo. Respondi:


- Claro, meu amor, jamais te negaria um beijo de despedia.
- Beijo de despedida não, isso é proibido. É beijo de até logo.


Fui censurada. Nada de acenos com lenços brancos ou adeus romântico. Sem melancolia nos lábios. Sem dramas de mentirinha. Censura! Beijo de até logo não tem o glamour do beijo de despedida, mas tem a garantia da volta.


Eu, na minha anarquia amorosa, sou agora presa política. Presa nele. E na ditadura aboliram o habeas-corpus.


Obrigada, Costa e Silva!








Alegria, AlegriaCaetano Veloso


Caminhando contra o vento
Sem lenço e sem documento
No sol de quase dezembro
Eu vou...

O sol se reparte em crimes
Espaçonaves, guerrilhas
Em cardinales bonitas
Eu vou...

Em caras de presidentes
Em grandes beijos de amor
Em dentes, pernas, bandeiras
Bomba e Brigitte Bardot...

O sol nas bancas de revista
Me enche de alegria e preguiça
Quem lê tanta notícia
Eu vou...

Por entre fotos e nomes
Os olhos cheios de cores
O peito cheio de amores vãos
Eu vou
Por que não, por que não...

Ela pensa em casamento
E eu nunca mais fui à escola
Sem lenço e sem documento,
Eu vou...

Eu tomo uma coca-cola
Ela pensa em casamento
E uma canção me consola
Eu vou...

Por entre fotos e nomes
Sem livros e sem fuzil
Sem fome, sem telefone
No coração do Brasil...

Ela nem sabe até pensei
Em cantar na televisão
O sol é tão bonito
Eu vou...

Sem lenço, sem documento
Nada no bolso ou nas mãos
Eu quero seguir vivendo, amor
Eu vou...

Por que não, por que não...
Por que não, por que não...
Por que não, por que não...
Por que não, por que não...




quinta-feira, 24 de maio de 2012

antiquários de san telmo

Indelicada foi a natureza ao criar todas as cores sem me deixar uma para inventar. Não quero batizar uma que já existe ou produzir variações para cobrir paredes de uma sala ou as unhas das moças. Queria parir uma cor inédita aos olhos, dar um nome feliz e pintar tantos muros quanto eu conseguisse com o teu nome. E eu desenharia também. Desenharia peixes, estrelas, árvores, flores e nuvens, dessas que fingem que não vão chover. Nós dois sabíamos que iria chover naquela tarde depois do almoço. Entre sorrisos e taças de vinho, olhamos pela janela. Entre o gradil, o céu sem olho de sol. Mesmo assim corremos nas calçadas ao abrigo das marquises, felizes e únicos. As pombas nos olhavam curiosas.


A chuva não afogou nosso desejo. Entrávamos nas lojas de antiguidade. Somos aleatórios para aceitar convite de portas abertas. Soldadinhos de ferro que não conheceram os campos de batalha. Lustres de cristal que estiveram em outras salas. Corredores estufados por toda a espécie de velharia, nem os vendedores gozavam de poucos anos. Espelhos que nunca haviam refletido nós dois. Provavelmente jamais voltarão a nos ver. Sempre penso nas lembranças dos espelhos. Gostaria de saber o que viram, por onde andaram. Mas tenho vergonha de perguntar.



As pedras irregulares da rua fazem da caminhada dança, desafiando o salto do meu sapato.


Molhada, cabelos badernados, pingando, ofegante, sorridente, encarando olhos famintos, impacientes, perturbadores, que entre frases aveludadas, cheiros familiares e dedos entrelaçados, aperto o número quatro. O carpete conduz ao fim do corredor. A claridade invade em névoa através das janelas delatoras da cidade. Os prédios antigos abanam com as persianas descascadas,manchadas pela velhice. Sinais de fumaça são gravados nos filetes de madeira. O barulho de além dos telhados e as luzes foscas no horizonte do vidro informam sobre a outra pátria.


O céu imita o algodão. Eu o pintaria com a minha cor. Escreveria o teu nome e desenharia também. Peixes, estrelas, árvores, flores e nuvens que fingem não chover.


Umidade.


Um banho quente.


Um vinho.


Uma paz.


Momento de porcelana, bibelô da memória em algum antiquário de San Telmo.


(vinho Killka, grande escolha)

 






TRILHA SONORA, FRANK SINATRA, NADA MAIS DIGNO.


The Way You Look Tonight
(SINATRA)



Someday
When I'm awfully low
When the world is cold
I will feel a glow just thinking of you
And the way you look tonight



Yes you're lovely
With your smile so warm
And your cheeks so soft
There is nothing for me but to love you
And the way you look tonight



With each word your tenderness grows
Tearing my fear apart
And that laugh
Wrinkles your nose
Touches my foolish heart



Lovely
Never ever change
Keep that breathless charm
Won't you please arrange it
Cause I love you
Just the way you look tonight



And that laugh
That wrinkles your nose
It touches my foolish heart



Lovely
Don't you ever change
Keep that breathless charm
Won't you please arrange it
Cause I love you
Just the way you look tonight



Hmm...
Hmm...
Just the way you look tonight


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EU SEI QUE SEMANA PASSADA NÃO ESCREVI, MAS BUENOS AIRES FOI PALCO DE MUITA VIDA, TANGO, AMOR E NADA DE ESCRITOS. INSPIRAÇÃO E RENOVAÇÃ. COM VINHO TINTO.


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FRASE DA VIAGEM: cadê o mate?

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TESTE. Para saber se a pessoa está bêbada depois de três garrafas de vinho, tem que pedir pra repetir a seguinte frase: TRÊS TRIGUES TRISTRES.

(porque três tigres tristes é muito barbada!)

quarta-feira, 9 de maio de 2012

love me tender







Passava muito das duas da manhã quando Elvis começou a cantar Kiss me quick, while we still have this feeling...”, eu estava sentada no sofá com a última taça de vinho na mão enquanto conversávamos sobre a vida, planos, futuros, passados e qualquer outra coisa que coubesse na sala. Falei do sofá? Relíquia de família, feito com pau-brasil, confortável e acolhedor. Sofá que abraça sem deixar de ser sério. Guardião das histórias da infância. Segredos abafados pela espuma das almofadas. E era lá que eu estava. 


Nós temos a mania de sentar longe para beber vinho e conversar. A conversa é boa, mas a sedução das entrelinhas é sempre melhor. Aos poucos criamos imãs. Meu namorado estava zanzando pela sala com o brinquedo novo, uma caixinha de som sem fio, nova diversão da casa. Tornou-se nosso bicho de estimação no final de semana, onde fomos ela foi. Conheceu todos os cômodos da casa como se visita fosse. Não dormiu quando dormimos, nem almoçou quando almoçamos. Tocava no modo aleatório. O DJ é o acaso.


Elvis seguiu firme, sem desafino “Tell me that tonight will last forever /Say that you will leave me never/ Kiss me quick because I love you so…”. Foi quando percebemos que estávamos nos olhando, encantados com a música. Paralíticos. Brincando de estátua sem que alguém tenha dado a ordem. Saltei em direção a ele, que imediatamente sacou meu corpo para a dança. Rosto colado como nas festas de garagem. Dois pra lá e dois pra cá - que eu sempre esqueço ou o um da esquerda, ou o dois da direita. Paciente e divertido, ele me leva até o fim da música no improviso dos passos. Nós ensaiamos tantas coisas, combinamos diversos programas e optamos pelo improviso. É o que sabemos fazer bem! Com as molinhas dos cabelos pulando, meu parceiro de dança resolveu que a trilha sonora noturna não seria mais aleatória. 


- Vamos deixar no Elvis. 


Concordei piscando os olhos num sinal que só ele entende. É uma piscada em código Morse. Imediatamente ele escolheu "Only You" e dançamos pela sala. “Only you, can make all this change in me/For it's true, you are my destiny...” ríamos baixinho pra não atrapalhar a música. Percebi que quando dançamos temos mãos inquietas. Ele desenha horizontes com neblinas que se espalham entre as minhas vértebras até a altura dos pulmões. Sinto arrepio e falta de ar. Afunda o rosto em afago no meu trapézio. Eu enrosco os dedos nos cabelos dele como se fossem carretéis. Cheiro as suíças e o final das sobrancelhas. 

E quando Elvis começa a cantar “And I Love you so” nós já estamos no quarto, janelas abertas. A lua é nosso holofote. Traje de gala é roupa íntima e camiseta. Acaba o vinho e a música com “All but love is dead / This is my belief”. Acaba esta dança. Acaba a noite. Às cinco da manhã o sol vem com preguiça. Manda os raios antes para acordar a cidade. A lua é exibida. Desafia a hora sem sumir do céu, teimosa. Divide o adeus da noite com cheiro de pão novo. 

O amor tem disso, o tempo passa só das paredes pra fora. A janela apresenta a realidade: está amanhecendo. A claridade deita nos lençóis antes de nós. A melhor festa da minha vida não teve beijo de despedida, teve beijo de bom dia e curvas de sorrisos horizontais. Noite não dormida sem sair de casa. Reunião dançante de dois convidados por acaso. Não temos modos nem pra isso. Na conchinha dos corpos não se ouvia o barulho do mar. Ouvia-se pedidos e promessas “Love me tender/Love me long / Take me to your heart /For it's there that I belong /And we'll never part...”









Eu acho que Elvis não morreu. É sério!





Noite não dormida dá olheiras (de alegria).

sexta-feira, 4 de maio de 2012

o fim da ousadia


Pintei as unhas de preto. Preto assim, não um preto só preto. Um preto meio prateado, sei lá, nem interessa. É um preto bem metido a besta. Até o nome de batismo é daqueles bestas, de mãe que quer ser arrojada no nome do filho. Achei que foi grande galhardia! Concluí sozinha no quarto “ acabei de cometer uma grande ousadia”. Não decidi ainda se eu gostei ou não disso, vou demorar dias para saber. Estranho por não ser o vermelho habitual, com as variações de tons dos alaranjados aos marrons duvidosos. Estão aqui, dez unhas das minhas lindas e macias mãos desse preto metido a besta.



Propaguei minha ousadia com orgulho, espalhei aos quatro ventos. Ou cinco. Bom, por todos os ventos, brisas ou ventanias. Recebi palavras de incentivo, elogio da mãe, sorriso amarelo do pai. Passei extra brilho para garantir a durabilidade. Que dure pelo menos tempo suficiente para eu decidir se gostei ou não. Ficaremos juntos até que o acetona nos separe. Mostrei até para os gatos!



Estava eu, aproveitando o auge da minha ousadia quando ligou o dono dos meus sorrisos.

- Amor, nem te conto, fiz uma ousadia!

- Fez? Conta!

- Pintei as unhas de preto, um preto não todo preto, mas um preto metido a besta, sabe?!

- Amorzinho, perto das tuas outras ousadias, pintar as unhas de preto não entra na categoria atrevimentos.



CHUÁÁÁÁÁ. Minha coragem em forma de esmalte foi alagada por um balde de água fria. Eu estava no dilúvio e pior, fora da arca. Olhei para as unhas. Ainda não decidi se gostei ou não da cor. Mas não cometi ousadia. A não se a de pintar as unhas sem saber e ter a co-ra-gem de sair na rua assim.



Pensando bem, ele tem razão. O moço das molinhas tem toda a razão. Eu sou bem mais audaciosa de unhas vermelhas. Juntos, pioramos, somos intrépidos da melhor espécie. Esses dias dançamos música lenta imaginária num show de rock. Acho que estava tocando um cover do Led Zeppelin. Não para nós.



Ousamos a felicidade de fazer o que temos vontade.



Quanto às unhas, bom, acabei de comprar esmalte branco. Farei bolinhas. Unhas petit Poá.



E ai do amorzinho se desdenhar da minha ousadia!

Kiss style!

All My Love

Should I fall out of love, my fire in the light?
To chase a feather in the wind
Within the glow that weaves a cloak of delight
There moves a thread that has no end

 
For many hours and days that passes ever soon
The tides have caused the flame to dim
At last the arm is straight, the hand to the loom
Is this to end or just begin?

 
All of my love, all of my love
Oh all of my love to you now
All of my love, all of my love
Oh all of my love to you now

 
The cup is raised, the toast is made yet again
One voice is clear above the din
Proud Aryan one word, my will to sustain
For me, the cloth once more to spin

 
All of my love, all of my love
Oh all of my love to you now
All of my love, all of my love
Yeah all of my love to you child

 
Yours is the cloth, mine is the hand that sews time
His is the force that lies within
Ours is the fire, all the warmth we can find
He is a feather in the wind

 
All of my love, all of my love
Oh all of my love to you now

 
All of my love, oh love yes
All of my love to you now
All of my love, all of my love
All of my love, love

 
Sometimes, sometimes
Sometimes, sometimes
Hey, hey, hey, hey
Hey, hey, hey, hey

 
Oh yeah, it's all, all, all of my love
All of my love, all of my love to you now
All of my love, all of my love
All of my love, to, to you and you, and you and yeah

 
I get a bit lonely, just standing up
Just standing up
Just standing up lonely
Just I get a bit lonely