Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de Junho, 2012

junto e longe, longe e junto

O que eu nunca procurei, encontrei nele, que me encontrou. Ele que me seguiu, me achou, insistiu, me ganhou. Ele que perguntava em setembro se eu tinha planos para o verão, que xingava meus amigos por interromperem a nossa conversa e que lembra de coisas que eu nem fazia ideia. Ele que me ameaçava “você vai me amar, aí eu quero ver”.
Ah, esta minha mania de duvidar. Ah, a mania dele de adorar me provar o contrário. Descobri nele que meu avesso é o lado certo. Alguém que grita na rua precisa andar de mãos dadas com quem pula feito coelho no supermercado. Os dois resolvem fazer filé com funghi e geleia de amora, alguma dúvida de que essa dupla combina? Os outros casais condenavam nosso carrinho. Eu ainda quis levar chocolate, muito chocolate para adoçar a inveja. Ele riu e escolheu o vinho.
Ele precisa das minhas filosofias de janelas abertas. Eu preciso das teorias sobre machos e fêmeas que viram caramelo no primeiro cafuné. Ele me leva macio. Eu trago ele comigo.
Nunca duvidei do amor…

pré-saudade: parte V

Tudo no mundo tem energia. Somos energia pura, eu às vezes dou choque, queimo coisas, daí meu pai me manda caminhar na terra de pé no chão. Uns minutinhos de meditação funcionam também, acertar a respiração, unir a mente com o mundo. Sossegar as faíscas.
As nossas palavras têm energias, nossos pensamentos também. As pessoas a quem nos unimos têm energias. Mas acontece raras vezes uma coisa interessante – é uma das melhores sensações do mundo -, as energias encontram uma sintonia, isso fortalece o amor. Não estou dizendo que o amor precisa dessa sintonia, amores descompassados podem existir à vontade.
Falo da sintonia de pensar na pessoa e ela ligar. Sintonia de estar acabando de escrever uma mensagem e receber uma antes. Ou de estar acabando uma frase e a pessoa falar exatamente aquilo que tu estavas quase dizendo. É adivinhar desejos, entender o gosto, acertar no presente.
Já aconteceu de estar cantarolando uma música e ele me mandar a letra por e-mail. Já aconteceu de ter vontade de…

pré-saudade: parte IV

Ele não aprendeu a não retribuir meu sorriso. Já tentou ficar sério, já tentou bufar e ficar bravo. Eu sorrio para ele, ele sorri para mim. Nem sempre é imediato, mas o sorriso vem. E vem largo.
Não raros são os dias que os sorrisos vêm em gargalhadas. É como garoa que ameaça cair e vira temporal. Inunda o quarto de riso até quase faltar ar. Acredito que ele conte as piadas mais sem graça porque sabe que são as minhas favoritas. E que me provoque com danças exóticas porque não resisto. Acredito que ele me atiça o riso já pensando em rir junto.
Nós temos essas intimidades entre os lábios, se não estão colados estão se paquerando, mostrando alegria. Eu sou alegre com ele e vejo nele a mesma felicidade, inclusive nas risadas trancadas quando bufa ou fica bravo.
Ele não aprendeu a me enganar. Meu amor quando sequestra o riso pela boca, sorri com os olhos. Eu sorrio, o olho dele brilha. Quando ele sorri depois, é convite de festa. É traje de gala em forma de pijama, sapatos lustrados em fo…

pré-saudade: parte III

Todo o casal tem pequenos rituais de intimidades. Coisinha nossa, que pra quem vê de fora não faz o menor sentido. É um tipo de piada interna, os dois se olham e entendem. Sabem do que estão rindo, sabem o que significa a virada de olho.
Todos os dias pela manhã, eu mando mensagem de bom dia. Sempre acordo antes. Quando dormimos juntos, dou bom dia sussurrado, abafado entre as cobertas, convido pra acordar junto. Ele sempre responde que sim, mas faz ao contrário. Eu sei. E permito a enganação matinal pra poder incomodar. Permito para poder organizar o café da manhã, comprar o jornal e abrir as janelas. Fazer tranças no cabelo. Escrevo bilhetes pela casa, penduro uns na geladeira.
Este é um clichê que eu amo. Geladeira é mural. Quadro de anúncios da cozinha, classificados, outdoor! Na infância, a geladeira era galeria de arte, pendurava todos os desenhos, picotes e montagens. Na adolescência era boletim da escola, eu pendurava as notas boas para me exibir. Meu pai pendurava as minhas pr…

pré-saudade: parte II

Fui censurada dos beijos de despedida. Nada de adeus, lenços brancos, acenos e muito menos cenas de cinema. Sem juramentos de Scarlett, sem choramingos da Rose. Fui instruída a usar os beijos de até logo. Os mesmos que damos pra sair da cama quentinha e buscar água. Ou pra sair por uma porta do carro e depois entrar em outra.
Beijos de até logo. Beijos de volto já. Mesmo que eu vá ao encontro dele dois meses depois do beijo de já venho.
O aeroporto é um lugar bom de observar a vida. Quem vai e quem fica, quem chega, quem espera. A última vez que estive no aeroporto foi para esperar ele voltar do Rio de Janeiro. Três dias longe e quase pulei nos corredores quando vi as molinhas encaracolando o saguão. Antes disso, quando fomos para Buenos Aires. A delícia inexplicável de viajar juntos...
Havia em Buenos Aires, no dia da volta, um casal se despedindo. Pelo jeito era uma viagem longa porque ela abraçava muito o rapaz, ele tentava não chorar. Eu não acompanhei o fim da despedida. Torci po…

pré-saudade: parte I

Eu que sempre amei domingo vou deixar que ele leve meu melhor sorriso. Vou deixar que me faça chover e empapar em lembranças todas as vinte quatro horas dos próximos dias. Andei acumulando as lembranças, estocando, para serem usadas quando a saudade mais sufocar. Não imagino a saudade não sufocando. Não imagino a lembrança sem invadir meus sonhos, meu dia, minha noite. Não imagino as lembranças sem dividirem comigo o almoço ou repetir a sobremesa. Até agosto serão as fronhas dos meus travesseiros.
O que sinto hoje não tem nome. É uma mistura de orgulho pela coragem, de tristeza pela partida e de saudade antecipada. É uma falta de quem está aqui. É a saudade do meu coração que vai viajar.
Aprendi a amar um moço dos caracóis que me encontrou. Em sete bilhões de pessoas no mundo, ele conseguiu me achar. Nós conseguimos ser perfeitos apesar de nós, apesar dos nossos defeitos. 
Somos perfeitos porque somos um do outro como jamais fomos de alguém.
O primeiro amor não acontece na primeira séri…

namorado

Um namorado não é o cara que leva ao cinema. É o cara que conta os filmes que marcaram a vida, reproduzindo as cenas, as falas, contando do gato que fala, do moço que amava a moça que casou com outro e fim. Não é o cara que pega na mão apenas pra passear na rua, mas pra conduzir até o sofá, pra fazer um carinho, pra levar pra cama. É o homem que não se contenta com a mão, pega o pé, pega no pé, implica com meus modos pouco românticos e essa maneira descomportada de ser que eu preciso educar sem perder o charme.
Um namorado não é aquele que faz três tipos de risoto, é o que faz arroz de saquinho para acompanhar qualquer coisa que eu inventar na cozinha. É o homem que elogia o almoço que eu levei dez minutos para preparar, que ajeita os talheres, busca a água e os guardanapos. É quem sabe que eu gosto da minha taça com apenas dois dedinhos de vinho e não cheia, que eu tenho mania de água, de doce e odeio abacaxi. Um namorado não é o cara que abre a porta do carro pra mim, mas dirige na …