quinta-feira, 28 de junho de 2012

junto e longe, longe e junto


O que eu nunca procurei, encontrei nele, que me encontrou. Ele que me seguiu, me achou, insistiu, me ganhou. Ele que perguntava em setembro se eu tinha planos para o verão, que xingava meus amigos por interromperem a nossa conversa e que lembra de coisas que eu nem fazia ideia. Ele que me ameaçava “você vai me amar, aí eu quero ver”.

Ah, esta minha mania de duvidar. Ah, a mania dele de adorar me provar o contrário. Descobri nele que meu avesso é o lado certo. Alguém que grita na rua precisa andar de mãos dadas com quem pula feito coelho no supermercado. Os dois resolvem fazer filé com funghi e geleia de amora, alguma dúvida de que essa dupla combina? Os outros casais condenavam nosso carrinho. Eu ainda quis levar chocolate, muito chocolate para adoçar a inveja. Ele riu e escolheu o vinho.

Ele precisa das minhas filosofias de janelas abertas. Eu preciso das teorias sobre machos e fêmeas que viram caramelo no primeiro cafuné. Ele me leva macio. Eu trago ele comigo.

Nunca duvidei do amor. Mas sempre o tratei como um melhor amigo, assim, de tomar um chimarrão na tarde de domingo, conversar amenidades e se despedir com beijo na testa. Amigo que a gente elogia, defende, convive, acena, sente falta. Amigo. Ele veio e me disse que eu estava errada, que nosso amor não é amigo, é abrigo. Então fizemos nossa casa um no outro. Ele é minha fortaleza, refúgio dos vendavais. É minha caixa-forte, depósito das minhas economias emocionais da vida inteira. É o conforto do meu sofá num colo de pernas entrelaçadas. Eu sou para ele o brilho no olho. A chance de viver. Sou o ar e a vida. Eu sou a brisa que sopra os caracóis que se desarrumam. Ele é o tornado que emaranha minhas mechas.

Ele é presença constante no meu dia, mesmo longe. Nas horas que nos falamos, há assuntos acumulados, como louça suja em cima da pia. Fico afoita pra falar, pra ouvir. Entre todas as novidades, “eu te amo”, “sinto saudade”, “estou te esperando” desabam sobre qualquer outra coisa. Ainda assim ele implica porque sou eco chata, mas esqueço das luzes ligadas, eu teorizo sobre as energias do mundo e as nossas conexões com a natureza, ele me fala das peças da Broadway. Eu falo da liberdade, dos meus desenhos, ele me descreve a vista da janela. Diz que está calor.

Fazemos planos, promessas, juras. Choramos. Dividimos música, opiniões. E a lua.  

Sinto falta das ligações das onze da manhã, da hora da sobremesa, da sem motivo no meio da tarde, da pontual às dezoito horas e daquela antes de dormir. É o jeito que ele tem de me fazer encarar as horas já que prefiro o tempo e não uso relógio.

Falta-me tudo ao longo do dia, até o ar durante a corrida enche menos o pulmão. A saudade ocupa o tempo que é nosso. Estamos juntos como sempre. Estamos unidos e loucos. Ainda estranho esticar a mão sem ter a dele para pegar, servir só a minha taça de vinho, acordar sem ver o contorno dele brotar da pétala do travesseiro. Não tem graça me vestir sem que ele observe, aqueles olhos matinais úmidos, colados nos botões da minha camisa. Não tem graça abrir o terceiro chocolate sem que ele me repreenda.

Ontem ele me disse que adora a palavra silêncio. Ele falou de amor, de harmonia e de universo. Depois disse que gostava da palavra distância, mas detesta a dor que ela tem dado.

Eu respondi que gosto dele.

Muito.
(E ficou difícil falar qualquer outra coisa.) 






Pictures Of You - the cure


I've been looking so long at these pictures of you
that I almost believe that they're real
I've been living so long with my pictures of you
that I almost believe that the pictures
are all I can feel.

Remembering you
standing quiet in the rain
as I ran to your heart to be near
and we kissed as the sky fell in holding you close
how I always held close in your fear

Remembering you running soft through the night
you were bigger, and brighter, and whiter than snow.
Screamed at the make-believe, screamed at the sky
and you finally found
all your courage to let it all go.

Remembering you fallen into my arms
crying for the death of you heart
You were stone white, so delicate, so lost in the cold
You were always so lost in the dark

Remembering you,
How you used to be
slow drowned, you were angels
so much more than everything

Hold for the last time
then slip away quietly
Open my eyes but I've never seen anything.

If only I'd thought of the right words
I could have hold onto your heart

If only I'd thought of the right words
I wouldn't be breaking apart
all my pictures of you.

Looking so long at these pictures of you
but I never hold onto your heart
Looking so long for the words to be true
but always just breaking apart
My pictures of you.

There was nothing in the world
that I ever wanted more
than to feel you deep in my heart.

There was nothing in the world
that I ever wanted more
than to never feel the breaking apart of
all my pictures of you



sexta-feira, 22 de junho de 2012

pré-saudade: parte V


Tudo no mundo tem energia. Somos energia pura, eu às vezes dou choque, queimo coisas, daí meu pai me manda caminhar na terra de pé no chão. Uns minutinhos de meditação funcionam também, acertar a respiração, unir a mente com o mundo. Sossegar as faíscas.

As nossas palavras têm energias, nossos pensamentos também. As pessoas a quem nos unimos têm energias. Mas acontece raras vezes uma coisa interessante – é uma das melhores sensações do mundo -, as energias encontram uma sintonia, isso fortalece o amor. Não estou dizendo que o amor precisa dessa sintonia, amores descompassados podem existir à vontade.

Falo da sintonia de pensar na pessoa e ela ligar. Sintonia de estar acabando de escrever uma mensagem e receber uma antes. Ou de estar acabando uma frase e a pessoa falar exatamente aquilo que tu estavas quase dizendo. É adivinhar desejos, entender o gosto, acertar no presente.

Já aconteceu de estar cantarolando uma música e ele me mandar a letra por e-mail. Já aconteceu de ter vontade de comer alguma coisa e ele me esperar com uma surpresa: meu desejo. Sendo que não falei que queria.

Nós temos uma brincadeira de dizer que o amor é brega. Na verdade verdadeira, o amor é brega sim. Usamos essa verdade como desculpa da diversão. Uma vez ele me mandou a letra de uma música sertaneja porque o amor é brega. Eu li e chorei. Minutos depois mandou uma mensagem: vou confessar que chorei.

Se ele espirrar em Nova York, é possível que eu ligue dizendo: saúde, amor!  



(não vale rir da música, o amor é brega!)


Amar Não É Pecado
Luan Santana

Eu não sei, de onde vem
Essa força que me leva pra você
Eu só sei que faz bem
Mas confesso que no fundo eu duvidei
Tive medo, e em segredo
Guardei o sentimento e me sufoquei
Mas agora, é a hora
Eu vou gritar pra todo mundo de uma vez

Eu tô apaixonado
Eu tô contando tudo 
E não tô nem ligando pro que vão dizer
Amar não é pecado
E se eu tiver errado
Que se dane o mundo
Eu só quero você

Eu tô apaixonado
Eu tô contando tudo 
E não tô nem ligando pro que vão dizer
Amar não é pecado
E se eu tiver errado 
Que se dane o mundo
Eu só quero você

Eu não sei de, onde vem
Essa força que me leva pra você
Eu só sei, que faz bem
Mas confesso que no fundo eu duvidei
Tive medo, e em segredo
Guardei o sentimento e me sufoquei
Mas agora, é a hora
Eu vou gritar pra todo mundo de uma vez

Eu tô apaixonado
Eu tô contando tudo 
E não tô nem ligando pro que vão dizer
Amar não é pecado
E se eu tiver errado 
Que se dane o mundo 
Eu só quero você

Eu tô apaixonado
Eu tô contando tudo 
E não tô nem ligando pro que vão dizer
Amar não é pecado
E se eu tiver errado 
Que se dane o mundo
Eu só quero você

Ohh

Eu tô apaixonado
Eu tô contando tudo 
E não tô nem ligando pro que vão dizer
Amar não é pecado
E se eu tiver errado 
Que se dane o mundo 
Eu só quero você

Eu tô apaixonado
Eu tô contando tudo 
E não tô nem ligando pro que vão dizer
Amar não é pecado
E se eu tiver errado 
Que se dane o mundo
Eu só quero você




quinta-feira, 21 de junho de 2012

pré-saudade: parte IV


Ele não aprendeu a não retribuir meu sorriso. Já tentou ficar sério, já tentou bufar e ficar bravo. Eu sorrio para ele, ele sorri para mim. Nem sempre é imediato, mas o sorriso vem. E vem largo.

Não raros são os dias que os sorrisos vêm em gargalhadas. É como garoa que ameaça cair e vira temporal. Inunda o quarto de riso até quase faltar ar. Acredito que ele conte as piadas mais sem graça porque sabe que são as minhas favoritas. E que me provoque com danças exóticas porque não resisto. Acredito que ele me atiça o riso já pensando em rir junto.

Nós temos essas intimidades entre os lábios, se não estão colados estão se paquerando, mostrando alegria. Eu sou alegre com ele e vejo nele a mesma felicidade, inclusive nas risadas trancadas quando bufa ou fica bravo.

Ele não aprendeu a me enganar. Meu amor quando sequestra o riso pela boca, sorri com os olhos. Eu sorrio, o olho dele brilha. Quando ele sorri depois, é convite de festa. É traje de gala em forma de pijama, sapatos lustrados em forma de meia, brinde e discurso em forma de declaração de amor.

Eu sou devota do riso dele.
Crente de toda a alegria.

Decorei o riso dele pra usar quando eu sorrir. Fecho os olhos, a risada vem. Lembrança é isso, um abraço da memória na saudade. 






Aonde Quer Que Eu Vá 
Os Paralamas do Sucesso

Olhos fechados
Pra te encontrar
Não estou ao seu lado
Mas posso sonhar

Aonde quer que eu vá
Levo você no olhar
Aonde quer que eu vá
Aonde quer que eu vá

Não sei bem certo
Se é só ilusão
Se é você já perto
Se é intuição

Aonde quer que eu vá
Levo você no olhar
Aonde quer que eu vá
Aonde quer que eu vá

Longe daqui
Longe de tudo
Meus sonhos vão te buscar
Volta pra mim
Vem pro meu mundo
Eu sempre vou te esperar

Não sei bem certo
Se é só ilusão
Se é você já perto
Se é intuição

Aonde quer que eu vá
Levo você no olhar
Aonde quer que eu vá
Aonde quer que eu vá

Longe daqui
Longe de tudo
Meus sonhos vão te buscar
Volta pra mim
Vem pro meu mundo
Eu sempre vou te esperar



quarta-feira, 20 de junho de 2012

pré-saudade: parte III


Todo o casal tem pequenos rituais de intimidades. Coisinha nossa, que pra quem vê de fora não faz o menor sentido. É um tipo de piada interna, os dois se olham e entendem. Sabem do que estão rindo, sabem o que significa a virada de olho.

Todos os dias pela manhã, eu mando mensagem de bom dia. Sempre acordo antes. Quando dormimos juntos, dou bom dia sussurrado, abafado entre as cobertas, convido pra acordar junto. Ele sempre responde que sim, mas faz ao contrário. Eu sei. E permito a enganação matinal pra poder incomodar. Permito para poder organizar o café da manhã, comprar o jornal e abrir as janelas. Fazer tranças no cabelo. Escrevo bilhetes pela casa, penduro uns na geladeira.

Este é um clichê que eu amo. Geladeira é mural. Quadro de anúncios da cozinha, classificados, outdoor! Na infância, a geladeira era galeria de arte, pendurava todos os desenhos, picotes e montagens. Na adolescência era boletim da escola, eu pendurava as notas boas para me exibir. Meu pai pendurava as minhas provas de química para eu estudar mais. Conheço gente que faz da geladeira álbum de fotografia!

Eu deixo bilhetes.

Meu bom dia por mensagem é um bilhete. Na ausência de uma geladeira, o celular. Esses dias choraminguei:
- Amor, como vou te dar bom dia a partir da semana que vem?
- Good morning, amor! Assim...

O bom humor dele soluciona meus problemas. Agora só me resta calcular o fuso. 




Disfarça E Chora
Cartola

Chora, disfarça e chora
Aproveita a voz do lamento
Que já vem a aurora
A pessoa que tanto queria
Antes mesmo de raiar o dia
Deixou o ensaio por outra
Oh! triste senhora
Disfarça e chora
Todo o pranto tem hora
E eu vejo seu pranto cair
No momento mais certo
Olhar, gostar só de longe
Não faz ninguém chegar perto
E o seu pranto oh! Triste senhora
Vai molhar o deserto
Disfarça e chora

terça-feira, 19 de junho de 2012

pré-saudade: parte II


Fui censurada dos beijos de despedida. Nada de adeus, lenços brancos, acenos e muito menos cenas de cinema. Sem juramentos de Scarlett, sem choramingos da Rose. Fui instruída a usar os beijos de até logo. Os mesmos que damos pra sair da cama quentinha e buscar água. Ou pra sair por uma porta do carro e depois entrar em outra.

Beijos de até logo. Beijos de volto já. Mesmo que eu vá ao encontro dele dois meses depois do beijo de já venho.

O aeroporto é um lugar bom de observar a vida. Quem vai e quem fica, quem chega, quem espera. A última vez que estive no aeroporto foi para esperar ele voltar do Rio de Janeiro. Três dias longe e quase pulei nos corredores quando vi as molinhas encaracolando o saguão. Antes disso, quando fomos para Buenos Aires. A delícia inexplicável de viajar juntos...

Havia em Buenos Aires, no dia da volta, um casal se despedindo. Pelo jeito era uma viagem longa porque ela abraçava muito o rapaz, ele tentava não chorar. Eu não acompanhei o fim da despedida. Torci por beijos de até logo.

Não recrimino mais as censuras dos meus beijos de adeus. Quero beijos de já venho. Quero beijos de vem logo. Beijos de estou aqui. Quero beijos de chegada e de partida a cada piscar de olhos e quero que o tempo passe num piscar de olhos entre um beijo e outro. 



(cada vez que eu lembro da dancinha de meias, choro de rir!!!)



Let's Call The Whole Thing Off
Louis Armstrong

Verse
Things have come to a pretty pass
Our romance is growing flat,
For you like this and the other
While I go for this and that,
Goodness knows what the end will be
Oh I don't know where I'm at
It looks as if we two will never be one
Something must be done:

Chorus - 1
You say either and I say either, You say neither and I
say neither
Either, either Neither, neither, Let's call the whole
thing off.

You like potato and I like potahto, You like tomato
and I like tomahto
Potato, potahto, Tomato, tomahto, Let's call the whole
thing off

But oh, if we call the whole thing off Then we must
part
And oh, if we ever part, then that might break my
heart

So if you like pyjamas and I like pyjahmas, I'll wear
pyjamas and give up 
pyajahmas
For we know we need each other so we, Better call the
whole off off
Let's call the whole thing off.


Chorus - 2
You say laughter and I say larfter, You say after and
I say arfter
Laughter, larfter after arfter, Let's call the whole
thing off,

You like vanilla and I like vanella, You saspiralla,
and I saspirella
Vanilla vanella chocolate strawberry, Let's call the
whole thing off

But oh if we call the whole thing of then we must part
And oh, if we ever part, then that might break my
heart

So if you go for oysters and I go for ersters, I'll
order oysters and cancel 
the ersters
For we know we need each other so we, Better call the
calling off off,
Let's call the whole thing off.


Chorus - 3
I say father, and you say pater, I saw mother and you
say mater
Pater, mater Uncle, auntie, let's call the whole thing
off.

I like bananas and you like banahnahs, I say Havana
and I get Havahnah
Bananas, banahnahs Havana, Havahnah, Go your way, I'll
go mine

So if I go for scallops and you go for lobsters, So
all right no contest we'll 
order lobseter
For we know we need each other so we, Better call the
calling off off,
Let's call the whole thing off.

pré-saudade: parte I




Eu que sempre amei domingo vou deixar que ele leve meu melhor sorriso. Vou deixar que me faça chover e empapar em lembranças todas as vinte quatro horas dos próximos dias. Andei acumulando as lembranças, estocando, para serem usadas quando a saudade mais sufocar. Não imagino a saudade não sufocando.
Não imagino a lembrança sem invadir meus sonhos, meu dia, minha noite. Não imagino as lembranças sem dividirem comigo o almoço ou repetir a sobremesa. Até agosto serão as fronhas dos meus travesseiros.

O que sinto hoje não tem nome. É uma mistura de orgulho pela coragem, de tristeza pela partida e de saudade antecipada. É uma falta de quem está aqui. É a saudade do meu coração que vai viajar.

Aprendi a amar um moço dos caracóis que me encontrou. Em sete bilhões de pessoas no mundo, ele conseguiu me achar. Nós conseguimos ser perfeitos apesar de nós, apesar dos nossos defeitos. 

Somos perfeitos porque somos um do outro como jamais fomos de alguém.

O primeiro amor não acontece na primeira série. Nem na adolescência. O primeiro amor acontece quando nos descobrimos capazes de amar alguém sem medida. Nunca chega. Há sempre mais. Ë sempre alegre cada vez que a porta abre ou ele adivinha quando chego no prédio. É sempre alegre o afago matinal nos cabelos enquanto ele me espia e volta a dormir.

A alegria mora em nós.

Na primeira noite que enroscamos os caracóis, descobrimos que as nossas escovas de dentes eram iguais. Descobrimos muitas outras coincidências. E diferenças.

E descobrimos que longe, mesmo quando distantes, nós nunca ficaremos. 

















Um Pro Outro
Lulu Santos


Foi bom te ver de novo aqui
A gente tinha mesmo tanta razão pra seguir
Fora o som dessa guitarra
A voz sempre rouca
E o coração na mão

Surpresa certa te encontrar
A tua onda pega bem mesmo em qualquer lugar
Até na esquina do pecado
O que for da vida não nos deterá

Nós somos feitos um pro outro
Pode crer
Por isso é que eu estou aqui
E não há lógica que faça desandar
O que o acaso decidir

Tanta certeza no olhar
Tamanha pressa de chegar a nenhum lugar
Só pra ter a sensação
De que a vida passa assim como um tufão

Nós somos feitos um pro outro
Pode crer
Por isso é que eu estou aqui
E não há lógica que faça desandar
O que o acaso decidir




terça-feira, 12 de junho de 2012

namorado


Um namorado não é o cara que leva ao cinema. É o cara que conta os filmes que marcaram a vida, reproduzindo as cenas, as falas, contando do gato que fala, do moço que amava a moça que casou com outro e fim. Não é o cara que pega na mão apenas pra passear na rua, mas pra conduzir até o sofá, pra fazer um carinho, pra levar pra cama. É o homem que não se contenta com a mão, pega o pé, pega no pé, implica com meus modos pouco românticos e essa maneira descomportada de ser que eu preciso educar sem perder o charme.

Um namorado não é aquele que faz três tipos de risoto, é o que faz arroz de saquinho para acompanhar qualquer coisa que eu inventar na cozinha. É o homem que elogia o almoço que eu levei dez minutos para preparar, que ajeita os talheres, busca a água e os guardanapos. É quem sabe que eu gosto da minha taça com apenas dois dedinhos de vinho e não cheia, que eu tenho mania de água, de doce e odeio abacaxi. Um namorado não é o cara que abre a porta do carro pra mim, mas dirige na cidade porque sabe que eu não gosto e me deixa dirigir na estrada porque sabe que eu amo.

Um namorado não é aquela pessoa que me diz eu te amo quando estamos juntos. É o que diz, manda mensagem, escreve nas folhas dos livros, nos bilhetes e mostra. Mostra quando me olha colocando a roupa pela manhã, quando me fala “olha, tu é ruiva!” como se fosse novidade, que me canta música brega mentindo que é de sua própria autoria, que canta se essa rua fosse minha quando se perde numa cidade desconhecida. É o homem que combina de ir para a praia e gosta quando acabamos na serra. Ele me dá flor sem ter motivo. Ou porque qualquer vontade é motivo. Acredita nas minhas teorias e me combate com as dele. É o que perde no dominó, que rouba sem querer, que me pede pra dizer que sei que ele me ama e que me pede pra dizer “fica”quando ameaça ir embora da própria casa. É o homem que educa o meu filho e me faz dormir. É quem me diz que nem sabe por onde começar. Ele ri do meu jeito, pede que eu repita palavras e não perde a piada.

Um namorado não é o homem que leva aos restaurantes mais finos. É o homem que come pastel e toma vinho numa mesinha de plástico com a mesma alegria que tem em qualquer lugar do mundo. É o cara que dança na sala, no quarto, na cozinha. Que me espera atrás da porta para eu nem precisar tocar a campainha. Que tenta sempre carregar as minhas tralhas para me ouvir dizendo que consigo fazer tudo sozinha e três minutos depois pedir ajuda para arrumar a franja. Me faz chorar com letra de música sertaneja. Deixa Cartola rouco. Começa a noite om o mesmo jazz. Declara-se com Lulu Santos, Paralamas e The Cure. É o homem que me empresta um pijama!

Meu namorado não é o homem que escolhe perfumes franceses, mas decora e adora cada um dos meus cheiros. É o cara que morre espirrando e ainda assim ama meus gatos. Meu namorado é um homem cordial e educado, que trata bem as pessoas, reza comigo antes das refeições, admira a natureza e pede licença.

O meu namorado é a pessoa que eu jamais pedi. É o homem que eu nunca quis amar, porque nunca conheci. Não é o ideal porque nunca idealizei. O meu namorado é o homem que me ama apesar de mim. É o homem que eu amo com tudo. É a pessoa pra quem eu conto segredos, confesso pecados, assumo defeitos e faço promessas. O meu namorado é o melhor porque é meu e isso basta.

É quem afoga meu aborrecimento matinal num banho colorido de banheira.  





Deixa acontecer



Ah, não tente explicar
Nem se desculpar
Nem tente esconder
Se vem do coração
Não tem jeito, não
Deixa acontecer

O amor é essa força incontida
Desarruma a cama e a vida
Nos fere, maltrata e seduz
É feito uma estrela cadente
Que risca o caminho da gente
Nos enche de força e de luz

Vai debochar da dor
Sem nenhum pudor
Nem medo qualquer
Ah, sendo por amor
Seja como for
E o que Deus quiser





TRILHA SONORA: