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Mostrando postagens de Agosto, 2012

235, E 84th

É prece quando ele diz coisas que me tocam. Ele sabe fazer isso. Fico calada para que não me fujam as vírgulas, os suspiros e os silêncios porque até esses são reza. É lindo. Ele exalta as exclamações. Faço silêncio de missa. Esta é a única quietude que o nosso amor permite. Nosso sossego está em esticar os cílios um para o outro. A compreensão pede calmaria. As nossas ideias não. As ideias precisam de ar, janelas abertas, parques, praças. É o vinho decantando. Neste silêncio os sedimentos são separados, os excessos evaporam, o sabor da fruta abre.
Quando estamos juntos ele abrevia minhas frases com beijos, precisa ter na boca a mesma palavra que eu. Dividimos tudo a tal ponto que nem nossas horas não têm minutos solitários. Culpa da sintonia que me fez passar uma mensagem no mesmo momento em que ele me enviou um e-mail. Culpa da sintonia que fez com que ele me enviasse o clipe da música que eu estava escutando. Ou que fez com que eu mandasse para ele uma oração de boa noite no mesmo i…

apaixonada

Vejo gente com olhar perdido no metrô e concluo que é paixão. Olho no vazio, coração cheio. Apaixonar-se é bom. Desde aquela paixão pateta de adolescente até a paixão que dói. É bom quando o pensamento é invadido no meio da tarde por alguém que pula o muro das tuas ideias. Você está ali, contando os prazos com a ponta da caneta no calendário, um, dois, três, quatro... Aquele casaco que ele tem de quatro botões. Ou está procurando a pasta de capa azul onde estão os documentos importantes. Azul? Aquele dia ele estava usando óculos azuis. Estava tudo azul. E sim, os dois no paraíso para não deixar passar a música, a lembrança infame. A coisa toda merece ser um pouco brega. 
Porque o amor é brega. Defendo que é. Defendo mais, que assim que é excelente. 
Apaixonar-se é bom, é a fuga rápida do mundo real. Não, a calçada não é feita de basalto, é algodão doce. Fechar os olhos é um encontro rápido, colocar a caneta na boca é confissão fálica, esfregar uma mão na outra, ih... É grave. É paixão d…

é tanto, é tudo e mais

Amor é coisa para pendurar no varal. É de estender no sol para perceber que brilha mais que ele. É de deixar o vento levar para espalhar mais que pólen. Um amor plantado multiplica. Ele contém na sua fórmula felicidade, unindo nas cadeias do seu DNA as proteínas da dedicação, do conforto, da saudade. Amor é de química, de física. Faísca, dá choque, pega fogo.
Amor é matemática errada. Esqueceu os cálculos de menos, multiplica para depois dividir para perceber  que o resultado é mais do que se tinha. Não tem lógica, mas o gabarito está certo. Nota dez. Não adianta contar nos dedos, o amor quer entrelaçar os dedos, quer andar de mão.
Amor é bicho exibido, é pavão de cauda aberta. Soberano no mundo das cores, o amor brilha no escuro. Tem de todos os sabores. O light está em falta. Latinha vazia.
Amor é fazer música com a última frase que ele falou. É contar piada na porta do banheiro, abrir as janelas para dançar, trocar as coisas de lugar para parecer perdido. O amor foi quem rasgou o map…

click

A escada da minha casa representa uma armadilha. Sou vítima constante devido à minha pressa e às minhas meias. Escadas e meias costumam fazer travessuras. Já caí mil vezes. A maioria de bunda. Hoje quase caí. Não fosse o quase seria a queda. Eu estava no quintal quando percebi que havia um gavião pousado em um galho seco de uma árvore. Um gavião grande, descansado, aproveitando a folga.
Corri para o meu quarto, procurando a máquina fotográfica, quando aconteceu minha quase queda. Ao chegar na sacada, ele já se arrumava para o voo, escolhendo a melhor rota. Deu tempo para suspirar, captar o momento com as lentes da memória.
Desde muito tenho por hábito fotografar janelas. Quando criança o fascínio já existia, fotografava, desenhava, recortava nas caixas que seriam as casas de verão das bonecas. Janelas têm ímãs para os meus olhares. Acredito que o amor entre pelas janelas, não pelas portas. O amor pratica travessuras.
Pássaros que as lentes não registraram, janelas, paisagens, flores, …