quarta-feira, 29 de agosto de 2012

235, E 84th


É prece quando ele diz coisas que me tocam. Ele sabe fazer isso. Fico calada para que não me fujam as vírgulas, os suspiros e os silêncios porque até esses são reza. É lindo. Ele exalta as exclamações. Faço silêncio de missa. Esta é a única quietude que o nosso amor permite. Nosso sossego está em esticar os cílios um para o outro. A compreensão pede calmaria. As nossas ideias não. As ideias precisam de ar, janelas abertas, parques, praças. É o vinho decantando. Neste silêncio os sedimentos são separados, os excessos evaporam, o sabor da fruta abre.

Quando estamos juntos ele abrevia minhas frases com beijos, precisa ter na boca a mesma palavra que eu. Dividimos tudo a tal ponto que nem nossas horas não têm minutos solitários. Culpa da sintonia que me fez passar uma mensagem no mesmo momento em que ele me enviou um e-mail. Culpa da sintonia que fez com que ele me enviasse o clipe da música que eu estava escutando. Ou que fez com que eu mandasse para ele uma oração de boa noite no mesmo instante em que ele estava orando. Nossa proximidade vem das nossas atitudes. Amamos inquietamente. Não temos preguiça de amar, nem vergonha de assumir.

Os tempos andam estranhos. Amar é associado à fraqueza. As pessoas têm vergonha de pendurar o amor no varal com medo da tempestade. Se molhar, molhou. Haverá um sol. Secará. Haverá chuva, haverá vento. Nada disso é desculpa para que não haja amor.

Assumir o amor é vestir a camiseta. É admitir a falta de atenção matinal que fez colocar café na granola e iogurte na caneca. A cabeça não estava na cozinha. A cabeça estava na cama com ele, onde o resto do corpo gostaria de estar. É esta intimidade do desejo, de não ter hora certa para querer. Amar é esperar com flores no aeroporto, é ter preparado a casa com as nossas fotos, não conseguir esconder a felicidade do encontro e eternizar o momento. 

Amar dá trabalho. Estar com alguém dá trabalho. Colocar alguém dentro da vida não é como trocar a mobília casa. Quem faz do amor um sofá não sai da sala de espera da vida. A diversão está toda em outro lugar. Em movimento. O amor é intranquilo porque quer sempre mais. E quando é bom, merece. Dedicação é exercício diário. Falo do prazer de acordar cedo para preparar o café da manhã, sabendo que ele irá a dormir mais um pouco depois e ainda tentará de todas as maneiras me convencer a voltar para a cama. E eu vou ceder! Por mais que não saiba acordar tarde, por mais queira sair saltitando pela casa, vou ceder e deixar ele se enrolar em mim mais um pouquinho. Porque ceder não é feio. Como reconhecer erros não é ser fraco. Da mesma forma que mudar quando se sabe da falha é nobre.

O amor agradece a nobreza.

Amar é ter cuidados diários. É polir os hábitos, aceitar que não somos iguais porque os iguais não precisam dos outros. Nem as peças do dominó se ligam aos iguais.

Amar é saber que ele vai esquecer a toalha e pendurá-la no banheiro antes que ele acabe o banho. É responder “o quê” nas oitenta vezes que ele grita “amor” lá do outro lado da casa sem ter nada pra dizer. É o jeito que ele tem de dizer que me quer por perto e que eu sou o amor. 

Amar é furtar uma música do John e do Paul para fazer lembrete. 

Para amar alguém e ser amado, é preciso disposição. Tirar o sapato apertado depois de zanzar o dia inteiro, buscar uma taça de vinho enquanto ele fuma um charuto sentado no degrau da rua. Esquecer que dormiu pouco, maquiar o cansaço para ser boa companhia. Sim, ele me quer ao lado para as implicâncias em dupla, as risadas sem ritmo, os mil assuntos, os cochichos. 

Ele me quer ao lado porque vai falar de novo daquele jeito de prece. Daí ficaremos juntos em silêncio por um tempo. Observaremos juntos a garoa de verão, vamos retratar na memória o jeito que as folhas das árvores dançavam na calçada enquanto os faróis dos carros simulavam estrelas no chão.

Nunca esqueceremos que temos um ao outro. 


Testemunha do nosso amor. 

Se um dia tivermos Alzheimer, juntos, temos o retrato estático do momento. 

Meus pés são íntimos das calçadas de NYC!

Não mencionei que o lembrete é uma camiseta... POIS É!  Fiz esta camiseta para o Ico. É um bilhete. É um lembrete. É um presente de aniversário. É tudo isso e é verdade. E é mais linda ainda quando ele está dentro dela caminhando pelo Soho. 


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Every breath you take
Every move you make
Every bond you break
Every step you take
I'll be watching you

Every single day
Every word you say
Every game you play
Every night you stay
I'll be watching you

Oh, can't you see
You belong to me
How my poor heart aches
With every step you take

Every move you make
Every vow you break
Every smile you fake
Every claim you stake
I'll be watching you

Since you've gone I've been lost without a trace
I dream at night I can only see your face
I look around, but it's you I can't replace
I feel so cold and I long for your embrace
I keep crying baby, baby, please

Oh can't you see
You belong to me
How my poor heart aches
With every step you take

Every move you make
Every vow you break
Every smile you fake
Every claim you stake
I'll be watching you

Every move you make
Every step you take
I'll be watching you

I'll be watching you


(Every breath you take
Every move you make
Every bond you break
Every step you take)

I'll be watching you


(Every single day
Every word you say
Every game you play
Every night you stay)

I'll be watching you


(Every move you make
Every vow you break
Every smile you fake
Every claim you stake)

I'll be watching you


(Every single day
Every word you say
Every game you play
Every night you stay)

I'll be watching you


(Every breath you take
Every move you make
Every bond you break
Every step you take)

I'll be watching you


(Every single day
Every word you say
Every game you play
Every night you stay)

I'll be watching you


(Every move you make
Every vow you break
Every smile you fake
Every claim you stake)

I'll be watching you


(Every single day
Every word you say
Every game you play
Every night you stay)

I'll be watching you







PS.: Texto com pequena inspiração de uma amiga que timidamente se declarou amando a pessoa com quem fica há seis meses. Perguntou se eu achava que ela devia dizer que amava, queria ter certeza que ele também ama. Não quer dizer que ama e correr o risco de acabar o "namoro", de acabar o amor. 

A gente não ama pra ser amado em troca. 

A gente não ama e deu, acabou aí. O amor não é o ápice de estar com alguém. 

Amamos para que o amor vá além, todos os dias. Amamos porque isso requer trabalho. Este amor existe independente do outro amar. Contar, declarar ou admitir para o mundo é mera formalidade. 

Pendurar no varal é requisito para que este amor não morra de sufoco, mofo ou guardado. 




quinta-feira, 23 de agosto de 2012

apaixonada


Vejo gente com olhar perdido no metrô e concluo que é paixão. Olho no vazio, coração cheio. Apaixonar-se é bom. Desde aquela paixão pateta de adolescente até a paixão que dói. É bom quando o pensamento é invadido no meio da tarde por alguém que pula o muro das tuas ideias. Você está ali, contando os prazos com a ponta da caneta no calendário, um, dois, três, quatro... Aquele casaco que ele tem de quatro botões. Ou está procurando a pasta de capa azul onde estão os documentos importantes. Azul? Aquele dia ele estava usando óculos azuis. Estava tudo azul. E sim, os dois no paraíso para não deixar passar a música, a lembrança infame. A coisa toda merece ser um pouco brega. 

Porque o amor é brega. Defendo que é. Defendo mais, que assim que é excelente. 

Apaixonar-se é bom, é a fuga rápida do mundo real. Não, a calçada não é feita de basalto, é algodão doce. Fechar os olhos é um encontro rápido, colocar a caneta na boca é confissão fálica, esfregar uma mão na outra, ih... É grave. É paixão das boas. 

Soltar o cabelo porque ele gosta assim, usar os brincos compridos porque ele elogiou, beber o chá que ele gostou, passar na frente da casa dele porque alguns encontros casuais precisam de ajuda. Viver uma paixão é estimular o cérebro, desdobrar o coração. Estar apaixonado é sentir uma felicidade aparentemente sem explicação. É uma mistura de desejo, com expectativa e gotas de frio na barriga. É ficar ofegante com a proximidade, mandar o telefone tocar, mandar mensagem para avisar que choveu. 

Eu vivo apaixonada. 

Diariamente me apaixono pelo mesmo homem. Pisco os olhos em sorrisos que apenas ele sabe decifrar. Pelo jeito que ele entende a minha pressa, se apodera do que eu gosto, furta meus segundos e presta atenção nas minhas confissões. Sou apaixonada pelo amor que eu sinto e por tudo que recebo dele. Sou apaixonada pelas atenções e cuidados, pelas nossas sintonias. Minha paixão é a mais nova professora, me ensina a nova caligrafia, corrige meus borrões, ajusta meus garranchos, perdoa meus desenhos. 

Adoro acordar apaixonada para desejar bom dia antes da primeira caneca de café preto. Ser apaixonada por ele é receber afago na alma, é aquecer o coração. É ver nele que há paixão por mim. E assim, apaixonar mais um pouco. 

Suspiro sossego. 

Vivemos intensos.

Amamos com paixão. 



Mensagens para dizer blá blá blá blá eu te amo...

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

é tanto, é tudo e mais


Amor é coisa para pendurar no varal. É de estender no sol para perceber que brilha mais que ele. É de deixar o vento levar para espalhar mais que pólen. Um amor plantado multiplica. Ele contém na sua fórmula felicidade, unindo nas cadeias do seu DNA as proteínas da dedicação, do conforto, da saudade. Amor é de química, de física. Faísca, dá choque, pega fogo.

Amor é matemática errada. Esqueceu os cálculos de menos, multiplica para depois dividir para perceber  que o resultado é mais do que se tinha. Não tem lógica, mas o gabarito está certo. Nota dez. Não adianta contar nos dedos, o amor quer entrelaçar os dedos, quer andar de mão.

Amor é bicho exibido, é pavão de cauda aberta. Soberano no mundo das cores, o amor brilha no escuro. Tem de todos os sabores. O light está em falta. Latinha vazia.

Amor é fazer música com a última frase que ele falou. É contar piada na porta do banheiro, abrir as janelas para dançar, trocar as coisas de lugar para parecer perdido. O amor foi quem rasgou o mapa, escondeu a bússola. É intranquilo porque faz o coração pulsar mais e mais, se alimenta dos batimentos cardíacos quando toca o telefone.

Amor é o que nos faz fugir. 

Amor é a verdade e a consequencia. 

O amor é o que não te deixa dormir, mas também é quem te entrega os melhores sonhos. O amor é quem te faz atravessar a rua. É quem desconhece a palavra alegria para que ela não se limite. O amor é quem perde a hora, quem sai do sério, quem grita pra provar que ama e sussurra para pedir que fique. É quem inventa criaturas e tem medo. 

É nascer, morrer. É voar e ter sempre para onde voltar. 

Amor é aquilo que se sente. Incomoda. E ainda assim consegue ser a melhor coisa do mundo.

O amor é aquele que pula a janela. É quem não marca hora, quem não vem quando chamado. Desobediente, displicente, intrépido, infinito. Ora fala sem parar, ora cala para admirar. Amor é o que está nos livros que ninguém leu. Amor é a entrelinha. É o giz no quadro da escola, a palavra preferida, a lágrima imóvel no olho, antes da queda, antes de prender o fôlego. É o sopro do cisco e o jeito na franja. É o beijo na costela e os planos. A falta deles e o improviso. Amor é o que se tem por baixo dos panos. É o que se dá ao outro. A impressão do carinho na pele. Amor é o que cola.

O amor é indefinido porque é tanto. É tudo.
Podendo ser ainda mais. 



Let Love In
You wait
Wanting this world to let you in
And you stand there
A frozen light
In dark and empty streets
You smile hiding behind
A God-given face
But I know you're so much more
Everything they ignore
Is all I need to see

You're the only one I ever believed in
The answer that could never be found
The moment you decided to let love in
Now I'm banging on the door of an angel
The end of fear is where we begin
The moment we decided to let love in

I wish
Wishing for you to find your way
And I'll hold on for all you need
That's all we need to say
And I'll take my chances while
You take your time with
This game you play
But I can't control your soul
You need to let me know
You leaving or you gonna stay

You're the only one I ever believed in
The answer that could never be found
The moment you decided to let love in
Now I'm banging on the door of an angel
The end of fear is where we begin
The moment we decided to let love in

There's nothing we can do about
The things we have to do without
The only way to feel again
Is let love in

There's nothing we can do about
The things we have to live without
The only way to see again
Is let love in

You wait
Wanting this world to let you in

You're the only one I ever believed in
The answer that could never be found
The moment you decided to let love in
Now I'm banging on the door of an angel
The end of fear is where we begin
The moment we decided to let love in


domingo, 5 de agosto de 2012

click


A escada da minha casa representa uma armadilha. Sou vítima constante devido à minha pressa e às minhas meias. Escadas e meias costumam fazer travessuras. Já caí mil vezes. A maioria de bunda. Hoje quase caí. Não fosse o quase seria a queda. Eu estava no quintal quando percebi que havia um gavião pousado em um galho seco de uma árvore. Um gavião grande, descansado, aproveitando a folga.

Corri para o meu quarto, procurando a máquina fotográfica, quando aconteceu minha quase queda. Ao chegar na sacada, ele já se arrumava para o voo, escolhendo a melhor rota. Deu tempo para suspirar, captar o momento com as lentes da memória.

Desde muito tenho por hábito fotografar janelas. Quando criança o fascínio já existia, fotografava, desenhava, recortava nas caixas que seriam as casas de verão das bonecas. Janelas têm ímãs para os meus olhares. Acredito que o amor entre pelas janelas, não pelas portas. O amor pratica travessuras.

Pássaros que as lentes não registraram, janelas, paisagens, flores, árvores que guardo em mim. Fotografar com a emoção revela a imagem além da imagem. O álbum tem cheiro, as exposições têm gostos, sensações.

Ele acorda pela manhã, depois de mim e cola os olhos nos botões da minha camisa. Admira com amor o jeito que me visto. Fotografo a sensação de timidez que me dá, o jeito que me sinto pequena diante de olhos apertados de sono e com tão gigante admiração. Retrato o hálito de quando diz que me ama enquanto adoça minha barriga com as mãos.

Fotografo o som da risada dele para usar quando me lembro das nossas piadas. Quando os objetos das nossas brincadeiras são pessoalizados. Fecho os olhos e posso escutar aquelas pausas que ele faz entre uma e outra partitura de notas abertas. Escuto o jeito que ele funga o ar pelo nariz, depois vem me cheirar. Retrato o áspero da barba por fazer passeando pelos meus ombros e a voz que sussurra decretando que sou dele. Retrato a altura da sombra que ele faz na parede quando bate a claridade do final de tarde. E os dedos tatuando nossos nomes no espelho embaçado do banheiro. 

Antes que ele saísse do meu lado suspirei durante o abraço de despedida. Dentro dos braços dele, enlaçada,  olhos fechados, fotografei o cheiro que ele guarda entre a orelha e a nuca, por baixo das últimas curvas dos caracóis. Usei esta lembrança ontem, na hora de dormir, depois que falamos e juramos tudo que podemos jurar. Depois de planos, derramamento de palavras, sentimentos nus em cima do sofá.

Usei este cheiro para borrifar na fronha do travesseiro que emprestei para a saudade passar a noite. Ao meu lado, a saudade tem ocupado o lugar do corpo dele. 




In My Place - coldplay


In my place, in my place
Were lines that I couldn't change
I was lost, oh yeah
I was lost, I was lost
Crossed lines I shouldn't have crossed
I was lost, oh yeah

Yeah, how long must you wait for it?
Yeah, how long must you pay for it?
Yeah, how long must you wait for it?
For it

I was scared, I was scared
Tired and underprepared
But I waited for it
If you go, if you go
Then Leave me down here on my own
Then I'll wait for you, yeah

Yeah, how long must you wait for it?
Yeah, how long must you pay for it?
Yeah, how long must you wait for it?
For it, yeah

Sing it please, please, please
Come back and sing to me
To me, me
Come on and sing it out, now, now
Come on and sing it out, to me, me
Come back and sing it.

In my place, in my place
Were lines that I couldn't change
I was lost, oh yeah