domingo, 30 de dezembro de 2012

feliz ano novo


A minha casa é cheia de lembranças. Mantém respirando uma porção de passado: a garrafa de cachaça comprada no restaurante feito de osso de baleia, uma foto minha banguela, xícaras que alguém ganhou num bingo, bolachas de cerveja furtadas de viagens, cafeteira com cicatriz, lanterna de barro, boia de navio, talheres de peixe que usávamos nos acampamentos. Casa de praia tem que ter história para contar porque as noites são mais falastronas. Acordo tentando escutar barulho de cigarras, uma vez alguém me disse que era indício de sol e calor. Depois tento escutar o barulho do mar dando bom dia. Onda que quebra na areia é beijo repetido. O mar é fiel ao seu contorno. Não abandona o hábito de esticar a espuma e recolher para repetir eternamente a carícia. E desses momentos guardados, cortados e retalhados é que a vida se faz. Como uma música é o conjunto de notas, como as estrelas desenham a constelação.

Todo ano que termina deixa costurado na vida mais um pouco da história.

O ano que chega traz um baú de expectativas. Nos meus bolsos tenho os desejos que quero coser. Quero a doçura de sorrisos, abraços felizes e dedos entrelaçados. Quero o cheiro de lençol novo na hora de dormir, banhos de chuva repentinos e noites onde a lua cheia parece uma tela de cinema. Quero guardar a maciez do sofá quando as boas conversas inibem os jornais. A angústia de voltar a ler o livro. Quero o chimarrão embaixo da sombra da árvore, viagens planejadas e desplanejadas que saem conforme o caminho aparece.

Eu quero as garrafas de vinho que suspiram inspiração. As caminhadas sem rumo e as corridas sem contar passos. Quero os momentos em que o coração acelera. E os momentos em que o mundo para.

Eu quero cheiro de bolo de domingo, estrada vazia, sol nascente, encontrar um antigo amigo, brincar de pirata, roubar nas cartas e ter infância. Um ano sem infância é inconcebível.

Quero dizer para as pessoas especiais que elas são. Quero o zelo pelo outro, o companheirismo, a fidelidade, a certeza, o sim, a bondade e a educação. Quero ver estampada a fé. Quero a crença da palavra e a atitude da decisão. Quero o momento da água gelada no calor, do afago de surpresa, do vento insistente, de perder o fôlego de rir sem entender a piada. Quero aquelas horas do dia em que tudo é amarelo. Quero despertar emoção, doar a quem precisa, cobrir os pés do meu filho no inverno. Eu quero guardar os momentos em que a mágica acontece no instante da respiração. Quero tocar moeda no poço dos desejos para desejar mais.

Quero um ano que já comece íntimo. Que fique à vontade. Quero costurar na minha vida os retalhos mais doces da memória e as pessoas que eu mais amo.

Que o ano traga a liberdade dos sorrisos. 


(é bom lembrar deste poema todos os anos, o ano todo) 







Blackbird singing in the dead of night,
Take these broken wings and learn to fly.
All your life,
You were only waiting for this moment to arise.

Blackbird singing in the dead of night,
Take these sunken eyes and learn to see.
All your life,
You were only waiting for the moment to be free.

Black bird fly, black bird fly
Into the light of the dark black night.

Black bird fly, black bird fly
Into the light of the dark black night.

Blackbird singing in the dead of night
Take these broken wings and learn to fly.
All your life
You were only waiting for this moment to arise
You were only waiting for this moment to arise
You were only waiting for this moment to arise

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

simpatia para parar de chover


Só para seguir a tradição, chove. Nos primeiros dias das minhas férias na praia é sempre o que acontece. O primeiro dia geralmente tem um sol sedutor, um calor de matar, mar lindo. Depois chove. Eu gosto de chuva. Mesmo na praia, mesmo de férias. Mas também gosto de aproveitar o mar, a areia, gosto de caminhar, de tostar no sol e ficar enfarofada junto com o meu filho, usar chinelos em vez de galochas.

Por isso aprendi várias simpatias!

Sueli, que trabalha na minha casa desde a pedra fundamental, disse que se deve jogar um punhado de sabão em pó no telhado. Pedir para Santa Luzia limpar o tempo. Já fiz isso. Considerando o preço do sabão em pó, gostaria de saber se a santa poderia limpar o tempo com sabão em barra. Sem falar que no ano passado sofri um pequeno acidente Bem na horinha que fui jogar o sabão, bateu um vento que trouxe todo o pozinho azul direto para o meu rosto. Nunca tive olhos e boca mais brancos! Sem manchas desde a primeira lavagem.

A avó do meu amigo Felipe, Dona Santa, era uma enciclopédia de que santo fazia o quê. Lá por mil novecentos e noventa e alguma coisa nós organizamos uma festa junina. Choveu na véspera, óbvio. Perguntei para Dona Santa se São João e São Pedro tinham alguma rixa. Não conheço festa junina sem chuva. Ela disse que não sabia de nenhum desafeto entre os santos e me ensinou uma simpatia para cessar a chuva.

Tem que estender um lençol branco no varal e repetir três vezes: Santa Clara clarear, Santa Rita iluminar, São José faz sair o sol para secar o meu lençol. Tive problemas com esta simpatia também. Primeiro que no apartamento da praia não tem varal na rua, tem no máximo um estendedor de roupas de alumínio, desses de abrir. Segundo, que descobri que não havia um lençol branco. Porém, considerando urgência e certo desespero nas férias de 2009, estendi uma corda – que minha mãe nunca sonhe com isso -, comprei um lençol branco avulso e lá fui eu para o varal. Santa Clara clarear, barbada. Mas e os outros santos? Quem eram? O que faziam? De onde vinham e do que se alimentavam? Não lembrei do resto da simpatia. Falei três vezes assim: Santa Clara clarear e todos os outros amiguinhos me ajudem a ter sol pra secar o meu lençol. Funcionou!

Mas a minha simpatia favorita ainda é a do ovo... Na faculdade, último semestre, faríamos uma festa de 100 dias para arrecadar fundos para a formatura. Na véspera não chovia. Caía água de balde do céu. Daí a Fabi, líder da turma, aprendeu sei lá com quem que colocando um ovo no muro e pedindo para Santa Clara clarear o céu. Fizemos e funcionou, festa dos 100 dias com céu estrelado!

Há um ano as minhas férias iniciaram com um lindo sol. No segundo dia, a praia foi alagada. Choveu muito. Coloquei um ovo no muro da sacada. O meu despretensioso amor veio tomar um vinho à noite. Colocou um ovo no muro ao lado do meu e me furtou um beijo. Furtou-me abraços, melhores momentos, risadas e juras de eternidade. Ganhou a exclusividade do meu sofá. Entreguei-lhe meu testamento afetivo em vida.

No dia seguinte parou de chover.

Alguém sabe me dizer se Santa Clara é muito amiga de Santo Antônio? 




I'm singin in the rain
Just singin in the rain,
What a glorious feeling,
and I´m happy again.
I'm laughing at clouds
So dark, up above,
The sun´s in my heart
And I'm ready for love.

Let the stormy clouds chase.
Everyone from the place,
Come on with the rain
Have a smile on my face.
I'll walk down the lane
With a happy refrain
Just singin
And singin in the rain.


sábado, 22 de dezembro de 2012

fome


Conheço cheiros e gostos daquilo que eu amo. Identifico os contornos, sigo as linhas com os olhos para desenhar depois. Exploro meu amor em todos os cantos, elejo as curvas prediletas. Escolho as palavras que serão favoritas. Lábios, cílios, língua.

Agrada-me o gosto do sol, a lembrança do primeiro verão juntos. Há mais intimidade entre as peles nessa estação. A carícia acontece sem querer quando um braço encosta no outro ou as pernas atritam por baixo da mesa. Os dedos deslizam nas outras mãos, subindo os braços, passando os ombros contornando o corpo até que um ajuste simétrico aconteça no abraço. Então ele me diz que não sabe por onde começar.

Eu sinto fome desta indecisão. Eu sinto fome das horas que acordo e fico na cama para sentir o cheiro da nuca, o macio da pela, os laços dos pés. Eu sinto fome da toalha esquecida na hora do banho, das reclamações de exagero no café da manhã, de escutar o meu nome lá do outro lado da casa apenas para que eu responda “o quê”.

Agrada-me devorar as noites de janela aberta, com as estrelas espiãs das silhuetas, as músicas dançadas sem traje de gala, as taças de vinho espalhadas pela casa, a memória do parquet e o reflexo da luminária de metal. Sinto fome da rede no terraço, das panelas alquimistas, dos chocolates, sorvetes, debates, dominós. Fome das minhas vitórias e dos roubos dele, das regras improvisadas, dos bilhetes pela casa.

Sinto fome de escutar “eu te amo”pra encerrar o assunto. Fome de me exibir para o olhar de espuma do mar que me persegue pela casa.

Eu quero o gosto de todos os carinhos.

Eu sinto fome das melhores risadas e insensatas filosofias.
A minha fome é saudade. O que me cura é o banquete.





Veja você, onde é que o barco foi desaguar
A gente só queria um amor
Deus parece às vezes se esquecer
Ai, não fala isso, por favor
Esse é só o começo do fim da nossa vida
Deixa chegar o sonho, prepara uma avenida
Que a gente vai passar

Veja você, quando é que tudo foi desabar
A gente corre pra se esconder
E se amar, se amar até o fim
Sem saber que o fim já vai chegar
Deixa o moço bater
Que eu cansei da nossa fuga
Já não vejo motivos
Pra um amor de tantas rugas
Não ter o seu lugar

Abre a janela agora
Deixa que o sol te veja
É só lembrar que o amor é tão maior
Que estamos sós no céu
Abre as cortinas pra mim
Que eu não me escondo de ninguém
O amor já desvendou nosso lugar
E agora está de bem

Deixa o moço bater
Que eu cansei da nossa fuga
Já não vejo motivos
Pra um amor de tantas rugas
Não ter o seu lugar

Diz, quem é maior que o amor?
Me abraça forte agora, que é chegada a nossa hora
Vem, vamos além
Vão dizer, que a vida é passageira
Sem notar que a nossa estrela vai cair



domingo, 2 de dezembro de 2012

chuva em san telmo


Prometi escrever de verdade sobre para onde vão os guarda-chuvas. Bom, na verdade nem tem muito mistério, a minha ideia é bem simples, quase óbvia. Guarda-chuva é uma coisa que todo mundo perde e ninguém acha. Grampo de cabelo é uma coisa que todo mundo acha o tempo inteiro, mesmo que não perca. Que nem clipes de papel. A minha teoria é que existe um tiozinho que passa recolhendo guarda-chuvas esquecidos pelo mundo, leva para uma fábrica secreta, transforma em clipes ou grampos, depois distribui por aí. Tudo se transforma. Fim. Agora que eu já expliquei para onde vão os guarda-chuvas – nunca mais usarei um grampo para prender a franja sem pensar nisso – vamos ao que interessa.

Não tenho muitas lembranças boas envolvendo guarda-chuva. Tenho sim envolvendo a falta dele. Eu gosto de chuva, já contei da mania que ela tem de chover em mim. Não reclamo, nem quando fico ensopada.

Quando chegamos a Buenos Aires, na viagem que fizemos em maio, fomos almoçar em um restaurante lindo de San Telmo. Namoro um pesquisador. A cada passeio, o bloco de notas do celular fica cheio de endereços e anotações. Abdicamos apenas dos roteiros porque somos muito imprevisíveis. Nossos improvisos boicotam nossos rumos e geralmente são melhores!

Almoçamos e resolvemos procurar uma sorveteria, Dylan. “É pertinho, vamos caminhando!” Claro. Vamos. Sempre que uma pessoa inicia uma frase com "vamos" meu cérebro completa automaticamente com "em uma sorveteria". Não nego este convite.

 O tempo estava meio cinza, úmido. Um chuvisco geladinho começou quando saímos do restaurante. Em San Telmo, qualquer portinha vira antiquário e qualquer antiquário é um convite para uma passadinha de olhos. Fomos caminhando, parando, a chuva aumentando e o amorzinho cogitou que precisávamos comprar um guarda-chuva. Achei um absurdo o preço argentino de um que encontramos no armazém da esquina. Mas me encantei com uns galgos de lladró. Eles tinham olhos de adoção. Profundos pingos pretos assimétricos cuidadosamente arredondados.

Caminhamos mais, subimos rua, descemos, a chuva ficando mais intensa. Eu pulava nas poças da calçada e ele preocupado com a possibilidade dos resfriados, do frio, da amigdalite. Houve um tempo em que eu me preocuparia em manter os cabelos lisos. Hoje em dia, não mais, aprendi a fazer um nó que disfarça qualquer desalinho. Mas meu amor é assim, se preocupa em me cuidar.

Decretou o fim do banho de chuva, resolveu descer uma rua e pegar um taxi de volta para o hotel. Foi dobrar a esquina e estava lá a placa discreta: Dylan. Entramos ensopados, ele ainda brincou de me secar com guardanapos. Sentamos nos banquinhos quadrados – a sorveteria não tem mesinhas – ficamos abraçados comendo os nossos sorvetes, quase mudos. Eu escolhi mascarpone com macadâmia, ele escolheu chocolate patagônico. Quando saímos já não chovia mais. Momento tatuado na memória.

Lembrei até dos sabores.
Certamente teríamos esquecido o guarda-chuva. 

Si es amor - FITO 

La sabiduria llega cuando no nos sirve para nada
No se puede evitar
Y todo lo que pasa conviene
Son las reglas del destino, son las reglas del amar
Y todo lo que pasa conviene
Son las reglas del destino, son las reglas del amar

Cuando vos querias un abrazo
Yo queria emborracharme con los flacos en el bar
Cuando yo queria la rutina, vos decias quiero aire, necesito libertad
Cuando vos querias la rutina, yo decia quiero aire, necesito libertad

Pero al fin si es amor, cruzará huracanes y tormentas
Pero al fin si es amor, beberemos solo su belleza

Al otro dia como el ave fenix me levanto con el pie derecho
Y rio sin razon
Llevo una locura caprichosa, caprichosa las canciones, me abren su gran corazon
La musica es mi chica caprichosa que cuando no toco el piano me manda al infierno

Pero al fin si es amor, cruzará huracanes y tormentas
Pero al fin si es amor, beberemos solo su belleza

Y si es amor, comeremos en la misma mesa
Y si es amor, lo que nunca compartimos, las vidas que no vivimos juntos
Dos miradas que esquivamos, las mentiras que dañaron
Nada nos importara, nada nos importara, nada nos importara
Si es amor