domingo, 6 de junho de 2010

crystall ball

Existe a palavra contículo? Se não existe, está inventada. Avisem o seu Aurélio que quer dizer um conto bem pequenininho, como uma gotícula. Algumas histórias são rios, outras são pingos. As minhas geralmente são baldes – de água fria. Eis aqui, um contículo...







Eles já se conheciam quando se encontraram naquela festa, que não estava boa. Ele bebia cerveja, ela água. Ele estava com os colegas de trabalho, ela com as ex-colegas da faculdade. E ela já havia se interessado por ele, já deu bandeira e até se insinuou em outra oportunidade. Discretamente. Ele se fez de desentendido, mesmo assim, raramente acabava uma festa sozinho. Ela nunca ia embora acompanhada.







Conversaram num canto do bar, entre muitos sorrisos e alguns goles das suas respectivas bebidas. Não estavam propriamente flertando. Na verdade estavam sim, apenas tentavam fingir que não. Foi quando chegou Lise. Era uma das ex-colegas de faculdade dela, talvez a mais bonita, queixo e nariz harmônicos, cabelo preto, curto, com a nuca à mostra, olhos grandes, cor de esmeralda. Lise passava longe de ter qualquer equilíbrio entre beleza e inteligência.







Ele perguntou quem era. Ela, elegante, como sempre, apresentou os dois e saiu de cena. Ela não era feia, pelo contrário, alta, magra, cabelos longos, olhos verdes, boca grande, do tipo que chama a atenção e até ouve alguns elogios. Preferiu ir embora.







Não estava chateada, nem com ele nem com a Lise. Não tinha perdido nada, já que não se perde aquilo que jamais se teve. Apenas resolveu ir embora. Pensava quanto tempo demoraria até Lise soltar uma das suas pérolas. Se ainda assim ele a levaria embora ou pelo menos a acompanharia até o carro. Será que vão trocar telefones? Lá foi ela, se despedir das demais colegas, pagar a conta e quando foi até a guarita do serviço de manobristas para pedir o carro, ele estava lá. Sozinho.







Ela parou do lado dele, entregou a ficha de número 800 para o manobrista. Quieta. Ele colocou por cima dela o casaco que tinha nos braços:







- Pensei que já tivesse ido...



- Pensei que tu fosse ficar mais.



- Pensei que não seria tão bom.







Ela riu. Eles eram iguais e diferentes, ao mesmo tempo e sem explicação. Um havia lido a entrelinha do outro.







O carro dele chegou. Ela tirou o casaco do ombro e foi devolver pra ele...







- Amanhã eu pego. No bolso direito tem meu telefone, vou esperar que tu me ligues dizendo onde vamos jantar.







Se abraçaram por uns 3 ou 4 minutos, mudos.







Ele foi embora. Logo chegou o carro dela. Ela enfiou correndo a mão no bolso direito, estava lá, o telefone dele, premeditadamente escrito num guardanapo. Ela riu.







Nunca ligou.

fim!
 
 
 


AGORA EM CAPS LOCK:

BETA, EU TÔ MUITO FELIZ POR TE TER DE VOLTA!

beso


Música:

Who is the man I see

Where I'm supposed to be?

I lost my heart, I buried it too deep

Under the iron sea



Oh, crystal ball, crystal ball

Save us all, tell me life is beautiful

Mirror, mirror on the wall



Lines ever more unclear

I'm not sure I'm even here

The more I look the more I think that I'm

Starting to disappear



Oh, crystal ball, crystal ball

Save us all, tell me life is beautiful

Mirror, mirror on the wall

Oh, crystal ball, hear my song

I'm fading out, everything I know is wrong

So put me where I belong



I don't know where I am

And I don't really care

I look myself in eye

There's no one there

I fall upon the earth

I call upon the air

But all I get is the same old vacant stare



Oh, crystal ball, crystal ball

Save us all, tell me life is beautiful

Mirror, mirror on the wall

Oh, crystal ball, hear my song

I'm fading out, everything I know is wrong

So put me where I belong


(Keane - Crystall Ball)



*** Às vezes eu faço certo fazendo errado. Na maioria das vezes que eu acerto, foi tentando errar. Não vejo muito problema em errar acreditando estar certa. #justlive

5 comentários:

Ana disse...

Mestra!Cada dia tu se supera.Adorei o texto e a música é demais!
beijos maudrey

Anônimo disse...

solteira por opção?

Carlos disse...

Alta, magra, cabelos longos, olhos verdes, boca grande e "não era feia"???? Tenho certeza: ERA UM ESPETÁCULO! É! E qualquer semelhança é mera coincidência, né?
Os Contículos tão crescendo, crescendo...
Gostei!
Beijo!

Artur disse...

Gosto muito do que escreves. Fiquei pensando se fizeste mesmo isso. Inegável que "ela" és "tu". És incomparável nos textos.
Abraços.

Keila disse...

Adorei o contículo e acho até que poderia ter parte 2.