sexta-feira, 15 de julho de 2011

amor



(segundo texto da série)

Desculpem, mas é mentira. Se alguém disse que o amor vai bater na sua porta, é mentira. Irão bater cobradores, carteiros entregadores, jornaleiros, pedintes, vendedores, panfleteiros, visitantes, andarilhos, perdidos, desocupados, catequistas. O amor não. Ele não bate na porta, quando a encontra fechada, ele pula a janela. Mas o amor é raro e esquece do começar. Ele acontece. Sem que ninguém saiba dizer quando ou definir por que, o amor apenas existe. E quem ama não precisa entender, nem vai. Amará e pronto.



Quem muito quer explicar perderá o tempo de amar. E vai gastar latim à toa, o amor fala a língua dos loucos.



O amor não é procurar a metade da laranja ou a tampa da panela. Não é encontrar na carta de vinhos o que mais combina com o prato principal. É temperar junto. Amor não vem pronto, mas pode ser instantâneo, inexplicável, fatal. Amor não tem motivo, ignora os porquês e não vem quando a gente chama.



Ando discordando de um montão de gente em matéria de amor. Um amigo citou Goethe “o verdadeiro amor é aquele que permanece sempre, se a ele damos tudo ou se lhe recusamos tudo”. Torci o nariz pra ele. Penso diferente, o verdadeiro amor não precisa permanecer independente de tudo. O amor é faminto, é fogueira que precisa de lenha. Pode ter muitas mortes, como nós temos, pode ir e vir centenas de vezes, pode ficar porque quer ou porque não lhe deixam partir. O amor é imprevisível, mas não é submisso. É decidido. Amor verdadeiro é o que tem jogo de cintura, que sabe ser camaleão, que muda, transforma, não implora, pede com os olhos. Lê o braile da pele. Também não concordo com Leonardo da Vinci dizendo “o amor é filho da compreensão, o amor é tanto mais veemente, quanto mais a compreensão é exata”. O amor passa longe da compreensão. O amor não nasce dela e nem de ninguém, porque nao nasce.



Podemos saber o dia do primeiro beijo, o dia que começou o namoro, o dia do casamento. Nunca saberemos o dia que começou o amor, quando ele aconteceu. O amor esquece de começar. Ele acontece. Ele surge. Amor não tem marco, amor marca. Não se define porque amor é todo o resto.



O meu amor não é tranquilo. Posso discordar do Cazuza? Não quero a sorte de um amor tranquilo com sabor de fruta mordida. Amor tranquilo não é sorte, é azar. Não amo para não fazer barulho, não amo para ficar tranquila e não incomodar. Amo para incomodar e muito, mais que o normal. Amo para deixar furtarem meu sono, meu chão, minha comida, minhas palavras. Amo para justificar a intranquilidade do coração. Amo pela vontade de ser insatisfeita, pelo desejo de descobertas infinitas. Amar é conhecer alguém tão bem que sempre se possa perguntar algo. A resposta é o de menos. Amor não é resposta. Amor é aposta. É proposta.



Amo quando uso da mesma dedicação para eticar a toalha da mesa e os cílios. A toalha é o lençol das conversar. Os cílios são os convites para um abraço. Pisco como abano de leque. Amar é seduzir os segundos. É dedicação e cuidado. Amar é plantar a intimidade no canto da boca, regar com beijos para que brotem em sorrisos. Rir junto é tão íntimo quanto se despir.



Amo quando ajeito a gola da camisa e repito os avisos de sempre. Recomendo cuidado. Amo o descuido, a porta aberta, a música esvaziando o copo de vinho. Amo quando abro os olhos como cortina. Amo quando conseguem me parar, quando roubam as palavras de dentro da minha boca. Quando suspiro. Quando fecho o olho para uma cena invadir a mente.



Amo o beijo antes de acontecer. A espera na janela. Amo os nãos, as tentativas de me parar, a inteligência em respeitar os pequenos desaforos, se atirar no sofá para rir da rotina no fim do dia.



Amor é surpresa. É forte e inusitado. Amor é decorar os passos do umbigo até a nuca. É jurar em falso, mandar embora, abrir a porta e esperar que volte. Amor é o que vem depois. É o que se diz sem querer.



Amar é carregar nos bolsos a intranquilidade.

Amar é fazer pintura com o dedo. Contornar o rosto para lembrar, esquecer e lembrar de novo. Amar é não ficar, é ir e vir diversas vezes por caminhos diferentes. A fidelidade do amor está no destino.



O amor carrega uma etiqueta: inflamável, manuseie sem cuidado. E assim, posto que é chama... Não discordo do poetinha, que seja eterno enquanto dure.

Juro que eu não estou blefando!
 
Romance



Chico Buarque


Te seqüestrei


Vou te reter pra sempre


Na minha idéia


No teu lugar, talvez


Fique alguma tonta, uma dublê


Uma mulher alheia






Na minha idéia


Vives plenamente


És a pessoa


Com todas as canções


Os momentos bons e as horas más


Que a memória coa






Nas horas à toa


Às vezes ando a cismar






Serei eu mesmo


Este cantor confuso


Que te rodeia


Ou estarei feliz


Sendo eternamente o que já fui


Dentro da tua idéia



























2 comentários:

Carlos disse...

Por experiência própria, sou obrigado a concordar com o Alemão!
Mas, apesar de ser fã do Da Vinci, nada a ver... Aí comcordo contigo: o Amor passa longe da compreensão! Ainda bem!!!!

Anônimo disse...

Como alguem que nao ama escreve sobre amor?