sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

eu sou grande

Andar descalça na grama, sentar na calçada para contar as estrelas, cheirar a caixa nova de lápis de cor, essas são lembranças da minha infância que ainda pratico. Não posso dizer que as resgato porque nunca deixei de fazer. Fazia naquela época que o meu pai cortava a minha franja torta antes do banho. E precisava aquecer no bafo a tesourinha de cortar as unhas. Hoje dou conta da minha própria franja e de todas as minhas unhas. Crescemos nos detalhes.

Mais do que aprender a dirigir, trabalhar, cuidar da casa, do dinheiro, do filho e da família, crescer é não abandonar a infância. Não se faz um muro entre as idades. Eu ainda brinco de adivinhar a cor do próximo carro nas viagens chatas. Ainda sento no chão e como com as mãos, faço farelo. Ainda imito peixe nos espelhos e vitrines das ruas, corro dentro de casa para buscar as coisas e caminho de costas para testar se esbarro em algum móvel. Sempre esbarro. A diferença é que antes as quinas miravam a minha cabeça, hoje as vítimas são as pernas.

Não pretendo deixar minha infância guardada num álbum de fotografias ou sentada em alguma prateleira. Ela vem comigo. Que isso não se confunda com infantilidade – mesmo com as situações que me permito. Apenas acredito que é possível não abandonar a criança. Não quero me deixar no orfanato do tempo, gosto de me ter vendo graça em brincadeira boba, comendo sorvete até explodir. Não sei ver bola sem chutar! Não sei ter pudor para abusar da inocência. Outro dia me peguei tentando usar os sapatos da minha mãe.

Trazer essa simplicidade infantil para a vida adulta me deixa mais tranquila. Nunca me desfiz da imaginação de criança, do gosto por arriscar, não abandonei minha teimosia, nem a mania de dar pulinhos e agitar as mãos quando fico extremamente feliz, ou olhar muito séria para alguma coisa que eu desejo que suma. Isso também vale quando quero que alguém suma. Nunca deu certo. Vou continuar tentando. Ok, me chamem de ridícula.

Talvez a gente não precise levar tão a sério o que tem pouca importância, talvez construir um castelo na areia seja mais interessante do que ler o jornal na beira da praia. Exércitos que nunca existiram tentando cruzar os muros que a água do mar vai levar depois. Troco fácil uma noite de festa por uma noite campeonato de vídeo game.

Ter crescido sem abandonar a infância tem muitas vantagens. A melhor delas é não ter hora pra dormir.

A brincadeira invade a noite, mas nem todo mundo percebe.

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ESTE TEXTO ERA PRA TER SIDO PUBLICADO NA SEMANA PASSADA. ANDEI VIVENTO DEMAIS E ME PASSEI... POR ISSO, PRA NÃO ENROLAR MAIS AINDA, VAI ASSIM, SEM MUSIQUINHA!
 
 
 
Às vezes nós temos a mesma idade.

Um comentário:

Carlos disse...

Essa "Criancice" madura é que te faz assim tão Kuky...