quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

tem uns "nós" na minha história


Sempre fui boa aluna em história – e isso não é uma ironia. História geral, história do Brasil, história da arte, do Direito, da Filosofia, adorava, tirava boas notas. Eu tive professores queridos. Em casa meus pais eram livros de história. Aprendi tudo sobre feudalismo na mesa do jantar com o meu pai. Decorei os atos institucionais com a minha mãe, ouvindo Chico Buarque nos finais de tarde de domingo (um dia ainda descubro por que professores de história amam marcar provas nas segundas-feiras). Aprendi nas aulas as revoluções e aprendi com as revoluções as linhas do tempo, aprendi com as linhas do tempo que eu não gosto de linhas do tempo. Achava uma retilínea chatice.


Primeiro que a tal reta nunca cabia direitinho no meu caderno. Segundo que anotar tudo tudinho em linha do tempo é um saco saquinho. Daí eu fazia setas, balões coloridos, legendas impossíveis de entender, puxava pra lá, pra cá em verde, azul, rosa e a linha do tempo era quase uma previsão do tempo, daquelas que a gente olha na tevê, muitas e muitas cores. A moça do tempo diz que vai chover, tá aqui, ó, isso azul é chuva, preferimos acreditar. Saímos de casa de galocha, sombrinha, capa e barco. Nenhuma nuvem aparece pra festa. Céu de brigadeiro como diz a minha vó. Na infância queria entender o que tinha a ver o céu com o doce. Quando tinha nuvem eu dizia que era céu de algodão doce. Minha linha do tempo de pensamentos deve ser um espiral. Pior deve ser a dos amores, um nó! Linha cruzada. Cortada. Mas nunca fiz gato. Amei em nome próprio, sempre.


Mesmo assim, na minha história, se linha do tempo tivesse, seria justo uma divisão. Estilo a.C., d.C., com algumas setas, balões, legendas e todo o blá blá blá que me faria sair de vestido e chinelinho no meio de um tufão. Ou nevasca. 


Já morri centenas de vezes, a maioria delas por pura desobediência. 


Acho que todo mundo tem uma idade de auto-rebeldia. Você conhece alguém e pensa: "não presta". Vai lá e beija, pensa: "não devia ter beijado". Guarda uns quero-mais-disso no bolso enquanto procura as chaves. Volta pra casa, deita na cama e pensa: "não presta". A fronha do travesseiro concorda suportando o peso da cabeça que voltou com mais pensamentos pesados do que tinha pela manhã. Acorda e pensa na pessoa, pausa para analisar o fundo vazio do pote de cereal. “Não posso me apaixonar, não por ele... Tanta gente legal no mundo”. Na hora do almoço, analisando o fundo do copo vazio desfigurando a toalha de mesa: "tarde demais." Os  talheres se olham calados, lamentam. 


Você nem percebeu, mas na mesa os pratos da paixão foram servidos antes dos seus. E ela repetiu, porque paixão sem gula não existe. Paixão sem pecado não existe. Peca-se por paixão, só pelo ofício da desculpa. O apaixonado tem sede de perdão. Seja pelo atraso, pelo sofrimento, por ter ligado quando não devia. Pede perdão com os olhos diante do espelho, incomoda de propósito mas faz de conta que é sem querer. A paixão permite esses desavisos. É desmedida, coitada. Meio doidinha. Teimosa.


Tem aquela fase que a gente vê passar na esquina a menor sombra de paixão e muda de calçada, faz a volta, vai pra casa. Tranca a porta, fecha a janela, apaga a luz e dorme embaixo da cama. Com um porrete. Tem a outra que a gente olha, pensa que pode ser paixão e se joga, se molha, depois pendura no varal, como bandeira pra todo mundo ver. Paixão e exibição. Nem rima tanto, só que é legal. Acho bonitinho quando os encantamentos são correspondidos. Mensagens de primavera que não chegam vivas no verão. Mas tudo bem, é como eu dizia, a gente morre, mas sobrevive. E agora algo por aqui – entre a consciência, anjo da guarda, diabinho ou meu estômago – pergunta em que fase eu estou. Sinceramente, não sei. É a parte da minha linha do tempo que está borrada. Sei que eu prefiro não evitar as paixões. Sei que eu prefiro arriscar.


Outro dia alguém perguntou como faz pra não se apaixonar. Eu pergunto por que não se apaixonar? Porque tudo que envolve paixão é difícil? Viver também não é fácil. Difícil mesmo é fazer origami com a boca! O que eu sei é que temos medo do desconhecido e a paixão é imprevisível, mais do que o clima. É bem mais arriscado do que sair sem casaco num dia de frio. Uma gripe, um trauma. São riscos que corre quem confia. Se não na previsão do tempo, na possibilidade de que dê tudo certo. Às vezes dá, às vezes chove.


Um outro alguém me contou sobre a angústia de acompanhar uma paixão da sobrinha adolescente. Olha pro céu, olha o celular, olha pro mar, olha o celular, masca chicle, olha o celular, entre suspiros e bufadas pelos sofás da casa. Na tentativa de ajudar, ele deu um livro para que ela ocupasse a cabeça – pelo menos uma hora por dia, segundo as palavras do herói de sobrinhas. Ocupa a cabeça e o coração continua lá, tagarelando o nome dele. Passa no cinema da memória a mesma cena em todas as sessões, repetidamente todos os dias. Deixa. Adolescente é feito disso: acne, paixão, sofrimento, dilemas mortais, dúvidas cruéis, amores impossíveis, sonhos, planos, aparelho, esmalte colorido e preocupação com o vestibular. Também já passei por isso. Já desenrolei com bic muita fita do Metallica ouvindo NOTHING ELSE MATTERS até decorar cada segundo de que são feitos os quase sete minutos de música. Walkmans não eram confiáveis. Hoje em dia os recursos para trilha sonora são melhores. Até a tecnologia contribui para um banzo de paixão.


Sobrevivi. E sobrevivi aos muitos que vieram depois, aliás duvido que eu morra alguma vez de verdade (com atestado de óbito e tudo) por paixão. Bem ou mal resolvida, com cicatriz ou arranhão, vira tudo história.


E eu adoro história.
Já disse isso hoje?


P.S.: além de histórias, a gente sempre aprende novos palavrões. 
P.S.2: Deus salve o Band-Aid. 
P.S.3: Agradeço pela inspiração e pequeno furto de história à Paola Bárbara, ao Ico e um pouco quase nada ao Jóta Érre que me xinga por mensagem quando furto as aventuras dele sem dar os devidos créditos. 

Quem mandou não escrever... ho ho ho!


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Nothing Else Matters

So close no matter how far
Couldn't be much more from the heart
Forever trusting who we are
And nothing else matters

Never opened myself this way
Life is ours, we live it our way
All these words I don't just say
And nothing else matters

Trust I seek and I find in you
Every day for us something new
Open mind for a different view
And nothing else matters

Never cared for what they do
Never cared for what they know
But I know

So close no matter how far
Couldn't be much more from the heart
Forever trusting who we are
And nothing else matters

Never cared for what they do
Never cared for what they know
But I know

I never opened myself this way
Life is ours, we live it our way
All these words I don't just say
And nothing else matters

Trust I seek and I find in you
Every day for us something new
Open mind for a different view
And nothing else matters

Never cared for what they say
Never cared for games they play
Never cared for what they do
Never cared for what they know
And I know, yeah

So close no matter how far
Couldn't be much more from the heart
Forever trusting who we are
And nothing else matters

2 comentários:

Gui disse...

Bóóóóóóóó!

Carlos disse...

Nós na tua história?
Tipo, desata-me ou te devoro?
Tua história merece um Livro!!!