sábado, 26 de fevereiro de 2011

areia no tênis

Uma vez, em vez de um beijo na boca, ganhei uma mordida no queixo. Estava tudo tão certinho, toda a cena perfeita, há meses o beijo era uma ameaça constante, uma certeza comparável à morte. Os amigos já comentavam, plantamos expectativas, despedimos a discrição sem aviso prévio. Não cochichávamos mais ou ficávamos afastados na multidão. Até as pedras das calçadas estavam na torcida. Nossos olhares não se cruzavam mais, eram tatuados um no outro.



Era outono, início de outono. Desses que já mandam as folhas caírem em chuva nas primeiras semanas. Um outono desses que fecha o verão, que autoriza a temperatura a baixar, a pele desbotar. Ainda trazíamos as mochilas do verão, o gosto da água do mar, a ardência nas narinas. Dentro do meu tênis, areia. A agenda voltava a ter lista de livros e horários de aulas, junto com anotações em código, letras de música e desenhos. Nunca fui uma adolescente típica. Eu sequer brigava com os pais para sair batendo portas e pés pela casa. Eu não insisti nas crises existenciais, mas já tinha em mim a mesma pressa que ainda conservo. Às vezes não sei se não pulei da infância para a vida adulta sem adolescer. Não fui rebelde como nunca porque sou rebelde como sempre.



As colegas da mesma idade beijavam uma pessoa numa noite e na outra já imaginavam número de filhos, nomes, onde iriam morar, sabiam inclusive os nomes dos futuros cães que correriam no gramado verde, tal qual ensinava o comercial de margarina. O que me entusiasmava não era o beijo, eu gostava mesmo da expectativa (pausa para eu ter certeza se estou mesmo falando de passado), gostava do intervalo de tempo entre o primeiro oi e o beijo. O que me encantava era o tempo gasto no flerte, a energia empregada nas espécies de convencimento. Algumas manhãs, eu acordava querendo, na noite, dormia repudiando. Outras manhãs, não queria ver a sombra, acabava a noite procurando alguma estrela cadente para pedir um encontro casual. Um esbarrão sem pretensões tem tanto charme. Alguns encontros marcados me lembram consulta com o dentista. Quase é possível me ver folhando alguma revista de fofoca na sala de espera. Na falta de assunto, comento o resumo da novela, sempre funciona.



Até chegar ao primeiro beijo, eu conduzia a situação relativamente bem. Eu dou defeito nas continuidades. Depois era um sem fim de desculpas furadas, fugas, correrias, sumiços, evaporações e qualquer outra coisa que implicasse em desintegrar a minha pessoa.



Com exceção de O Poderoso Chefão, O Senhor dos Anéis e Piratas do Caribe, não lembro agora de continuações que tenham caído nas minhas graças.



É sério, não funciono bem, preciso de empurrõezinhos, preciso que me instiguem, preciso que me segurem um pouco. Doses homeopáticas de insistência. Bom, talvez eu também precise ser amarrada ou que prendam uma daquelas bolas de chumbo no meu pé... Talvez, eu disse.



Passamos aquele verão inventando o que colocar entre o oi e o beijo. Houve uma noite que virou dia quando estávamos juntos. Sentados em um banco olhando o sol sair tímido do mar, os amigos sentados na areia. Parecíamos uniformizados: jeans, tênis e variações de camisetas brancas. Não era preciso mais que isso para compor o figurino da noite na beira da praia de Capão Novo. O vento naquela hora da manhã deixava o mar mais ondulado que os meus cabelos. Os primeiros vovozinhos já levavam os mascotes para a caminhada no calçadão. Ele estava sentado ao meu lado, passou o braço por cima dos meus ombros me puxando para perto, eu pude sentir o cheiro do perfume dele, mais do que em todos os abraços anteriores. Eu ri pra ele. Ele retribuiu e aproximou o rosto, eu virei o meu. Ele, como prêmio de consolação, cheirou meus cabelos. Alarme falso. Foi mais uma página antes do beijo que nunca aconteceu.



No início daquele outono, fomos caminhar na Usina do Gasômetro. A turma inteira se encontrava nos domingos para conversar e ver o sol se pôr. Foi a maneira que encontramos para não perdermos o contato durante o ano.



Na hora de ir embora, depois de alugar o bolso dele com a minha chave, meus chicletes, depois de termos dividido os fones do walkman – tocava Lulu Santos – fui abraçada de novo daquele jeito. Ele tinha os olhos de paisagem, dessas que podemos pintar, mas nunca descrever inteiramente. Olhos que permitem apenas sinopses. Qualquer coisa que eu disser sobre aquela perfeição emoldurada por cílios longos será apenas o resumo. Eu esperava pelo beijo, ele segurou firme meu rosto e mordeu meu queixo: tchau.



Não havia a magia do sol nascendo, não havia o vento ondulando o mar mais do que meus esvoaçantes cabelos. Mas era o meu tempo.



O tempo dele foi lá. E o que sobrou foi só a areia dentro do tênis.



Bem feito pra mim.



Às vezes, mais importante do que respeitar o próprio tempo é saber reconhecer o tempo do outro. A entrega exige um pouco de interpretação. É uma invasão de privacidade necessária. Esse tempo não se conta em tic tac. O que ficou foi a sensação de um livro de boas histórias sem final.



Descobri que isso me causa maior descontentamento do que as continuidades.




Ainda hoje não sei se prefiro areia no tênis ou pedras no caminho...
E olha que faz tempo que já desadolsci.

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Eu gosto tanto de você

Que até prefiro esconder

Deixo assim ficar

Subentendido



Como uma idéia que existe na cabeça

E não tem a menor obrigação de acontecer



Eu acho tão bonito isso

De ser abstrato baby

A beleza é mesmo tão fugaz



É uma idéia que existe na cabeça

E não tem a menor pretensão de acontecer



Pode até parecer fraqueza

Pois que seja fraqueza então,

A alegria que me dá

Isso vai sem eu dizer



Se amanhã não for nada disso

Caberá só a mim esquecer

O que eu ganho, o que eu perco

Ninguém precisa saber



Eu gosto tanto de você

Que até prefiro esconder

Deixo assim ficar

Subentendido



Como uma idéia que existe na cabeça

E não tem a menor obrigação de acontecer



Pode até parecer fraqueza

Pois que seja fraqueza então,

A alegria que me dá

Isso vai sem eu dizer



Se amanhã não for nada disso

Caberá só a mim esquecer

E eu vou sobreviver...

O que eu ganho, o que eu perco

Ninguém precisa saber

6 comentários:

Keila disse...

Simplesmente adorei!

Vivi Schacker disse...

Kuky... simplesmente estou viciada em teu blog ... tua última postagem é mais do que "memórias" é "a vida como ela é". Parabéns pela leveza e delicadeza de tua escrita. Merece publicação please!!!! Beijão da tua mais recente fã! Vivi Schacker

Anônimo disse...

Eu amo o que escreves e eu te amo mais ainda. Saudade.

Carlos disse...

Consegui entrar!
Acho que mudou alguma coisa... Agora é preciso clicar no título do post para abrir a versão com a entrada para os comentários!

Show de bola, Kukynha! Já ta virando lugar comum escrever aqui que és UM ESPETÁCULO!
Mas tu és... Fazer o que, né?
Beijão!

BETO disse...

O que nao faz uma noite das antigas com amigos das antigas nos barzinhos das antigas heimmmm? Mto bom passar o sabado em 1996. Se rende post é pq mexeu c vc tb. O próximo será em Torres, vamos para 2005. Linda foto, bocuda.
bj

Cris disse...

simples, verdadeiro, humano e transparente como tu és. Nosso sábado foi histórico.