terça-feira, 28 de junho de 2011

free hugs

Num dia de verão, com um grupo grande de amigos na praia, um deles levantou do nosso acampamento de areia e saiu caminhando pela areia. Foi andando por aquele limite onde a espuma cochicha com a areia. Voltou quase duas horas depois. Perguntei onde ele tinha ido, respondeu que foi caminhar para conversar com a vida. Encarei a resposta como poesia feita na hora. Frase de efeito sem querer. Depois, olhando melhor pra ele, achei que voltou melhor do que saiu. Fiquei curiosa pelo assunto entre a vida e ele. Queria saber se fez perguntas, se ela respondeu ou se os assuntos apenas fluiram sem pauta, lançados no ar, como as pipas ao vento daquelas tardes de verão.



Apoderei-me do ato.



Resolvi que também posso conversar com a vida. Apenas combinei de não exigir respostas. Nem poderia. Certas perguntas eu faço para que não sejam respondidas. Pergunto em voz alta para afirmar a dúvida. A interrogação tem entonação convicta.



Tenho dias de faladeira. Deixo a vida tonta de me ouvir. Mergulho em palavras que não acabam, a conversa é um monólogo. Outras vezes sou apenas ouvinte atenta. O vento ri embaralhando as folhas que as árvores permitem partir. Gosto de ficar olhando pro céu e procurar desenhos em nuvens. Quando é noite invento constelações e as dedico a quem amo, geralmente elas carregam as letras dos nomes, como pingentes de brilhante. Falo sobre o que eu quero, abro o coração, espalho amor, declaro mágoas, dou risadas.



O incrível é que fico mesmo melhor depois das conversas. Funciona como terapia. Mudo conceitos, observo, penso no que vi e debato. Parece loucura mas é uma das coisas mais sãs que se pode fazer.



Tenho a impressão que às vezes o mundo se esquece de temperar o dia. As pessoas existem no piloto automático. Fico incomodada porque adoro pimenta. E também gosto do doce e do azedo. Preciso de sabores variados. Conversar com a vida me ajuda nisso. Eu sinto que não sou completa e que talvez jamais seja porque não quero. Busco mais perguntas, prefiro inventar coisas. Prefiro que me ensinem outros hábitos, que me contem outras histórias. Cultivo virtudes, depois esqueço elas em alguma bolsa guardada no armário. As minhas imperfeições são de estimação. Mas negocio. Troco. Tudo é troca.



Eu me dou bem com a vida para que ela fique à vontade comigo. Para que plante no meu jardim a calmaria e a tempestade, que dêem as flores nas estações, para que eu as colha e carregue na lapela.


Nas nossas conversas, tem dias que a vida só pede um abraço. Eu dou e recebo. As conversas até podem se transformar em monólogos. Os abraços serão sempre diálogos.

Quero tudo novo de novo. Quero não sentir medo. Quero me entregar mais, me jogar mais, amar mais.Viajar até cansar. Quero sair pelo mundo. Quero fins de semana de praia. Aproveitar os amigos e abraçá-los mais. Quero ver mais filmes e comer mais pipoca, ler mais. Sair mais. Quero um trabalho novo. Quero não me atrasar tanto, nem me preocupar tanto. Quero morar sozinha, quero ter momentos de paz. Quero dançar mais. Comer mais brigadeiro de panela, acordar mais cedo e economizar mais. Sorrir mais, chorar menos e ajudar mais. Pensar mais e pensar menos. Andar mais de bicicleta. Ir mais vezes ao parque. Quero ser feliz, quero sossego, quero outra tatuagem. Quero me olhar mais. Cortar mais os cabelos. Tomar mais sol e mais banho de chuva. Preciso me concentrar mais, delirar mais. Não quero esperar mais, quero fazer mais, suar mais, cantar mais e mais. Quero conhecer mais pessoas. Quero olhar para frente e só o necessário para trás. Quero olhar nos olhos do que fez sofrer e sorrir e abraçar, sem mágoa. Quero pedir menos desculpas, sentir menos culpa. Quero mais chão, pouco vão e mais bolinhas de sabão. Quero aceitar menos, indagar mais, ousar mais. Experimentar mais. Quero menos “mas”. Quero não sentir tanta saudade. Quero mais e tudo o mais. E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha”.
 
Fernando Pessoa
 
O texto bem podia ser da série "isso explica muita coisa".
Mas muita coisa não tem feito o menor sentido pra explicar.
 
Quando não tiver mais nada


Nem chão, nem escada

Escudo ou espada

O seu coração

Acordará!...



Quando estiver com tudo

Lã, cetim, veludo

Espada e escudo

Sua consciência

Adormecerá!...



E acordará no mesmo lugar

Do ar até o arterial

No mesmo lar

No mesmo quintal

Da alma ao corpo material...



Hare Krishna Hare Krishna

Krishna Krishna

Hare Hare

Hare Rama

Hare Rama

Rama Rama

Hare Hare



Quando não se têm mais nada

Não se perde nada

Escudo ou espada

Pode ser o que se for

Livre do temor...



Hare Krishna Hare Krishna

Krishna Krishna

Hare Hare

Hare Rama

Hare Rama

Rama Rama

Hare Hare



Quando se acabou com tudo

Espada e escudo

Forma e conteúdo

Já então agora dá

Para dar amor...



Amor dará e receberá

Do ar, pulmão

Da lágrima, sal

Amor dará e receberá

Da luz, visão

Do tempo espiral...



Amor dará e receberá

Do braço, mão

Da boca, vogal

Amor dará e receberá

Da morte

O seu dia natal...



Aaadeeeus Dooooor...(4x)



Hare Krishna Hare Krishna

Krishna Krishna

Hare Hare

Hare Rama

Hare Rama

Rama Rama

Hare Hare (6x)

Um comentário:

Carlos disse...

Kukynha, não sei se já te disse isso, tuas palavras tem o dom de encaixar na alma da gente...
Bom demais conversar com a Vida. A minha é minha melhor amiga!