segunda-feira, 13 de junho de 2011

amiga saudade

AUSÊNCIA
Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta. Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada,
 aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência assimilada, ninguém a rouba mais de mim.
Carlos Drummond de Andrade



Saudade é o tipo de coisa que não se tem como fugir. A gente tranca a porta, ela pula a janela. A gente fecha a janela, ela atravessa a parede ou entra pela chaminé. Presença ilustre de festa que não foi convidada. Saudade é sentimento que acontece. É o que enche a taça do vinho que acabou.



Saudade é difícil de definir, complicada de explicar. É o tipo de coisa que cada um sente do seu jeito, não se pode condenar. Discordo quando leio que a saudade está relacionada com melancolia, nostalgia e solidão, apesar de haver uma explicação para isso. A palavra é derivada do latim, solidate, soledade, solidão, junto com derivados da saúde. Por isso é difícil traduzir saudade sem relacionar com falta, ausência ou solidão.



A saudade pode ser produto de uma tristeza. Pode ser o fim de uma fantasia. Mas não é necessariamente melancólica ou nostálgica. A nostalgia é uma lembrança do que se viveu, um sentimento bom que faz reviver o que passou. Os cheiros nostálgicos da minha infância quase me fazem esquecer como se fala. E pra mim, melancolia é algo tão triste, mas tão triste, que preciso escolher a dedo o dia pra sentir. Preciso ter certeza de dedicar um dia inteirinho para reviver as mágoas. É permitido o choro de soluços, a maratona de lágrimas desgovernadas. Se na saudade a tristeza é optativa, na melancolia é obrigatória. É requisito!



Minha saudade não é falta, é presença. É ocupar o pensamento com o outro. Relembrar os diálogos, fechar o olho pra sentir o cheiro, passar a pele no vento para imitar o atrito da respiração. Minha saudade vai atrás do que pode me deixar mais próxima, procura ler a distância, ver paisagens que atiçam a imaginação. Faz-me esticar os dedos no nada para desenhar um riso. E rir junto. A saudade não me deixa sozinha, me faz próxima.



Se a distância é física, a saudade é a proximidade da alma. Faz banquete para o desejo. Conta os dias na folhinha.



A minha saudade é excesso. Daqueles intensos que pratico com religiosidade. É criar intimidade com as lembranças, valorizar os minutos que os ponteiros do relógio não marcaram, é multiplicá-los por mil. A saudade é o que deixa mais gostoso dividir a mesma taça por pura economia de louça. É o que torna familiar o esboço de um olhar. É o prato servido antes da expectativa.



Não há angústia ou mágoa nessa saudade. Não quero matar a minha saudade, quero ter sempre que houver distância. Quero ser capaz de sentir. Depois quero guardá-la para mais tarde. Requentar, acrescentar novas lembranças, dar outro gosto. Minha saudade é feliz porque não me traz solidão. Ela paralisa os momentos para que eu possa assistir novamente todas as cenas, como se meu filme favorito fosse. Minha saudade é querer por perto os pedaços de mim que espalhei sem querer por aí. Remonta os sentidos que eu não faço. Sou permissiva com ela, em troca, ela não é perversa comigo.



Fiz amizade com a saudade. Assim ela não me dói, me consola.


Sábio Rubem Alves quando disse que “a saudade não deseja ir para a frente. Ela deseja voltar.”



É o meu desejo: que volte.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Fonte da Saudade - Kleiton e Kledir


Esse quarto é bem pequeno


Prá te suportar


Muito amor, muito veneno


Prá pouco lugar


O teu corpo é uma serpente


A me provocar


E teu beijo, a aguardente


A me embriagar...






Essa boca muito louca


Pode me matar


Se isso é coisa do demônio


Eu quero pecar


Fecha a luz, apaga a porta


Vem me carinhar


Diz aí prá minha tia


Que eu fui viajar...






Diz que fui


Prá Nova Iorque


Ou prá Bagdá


E que isso não é hora


De telefonar


Eu já sei que qualquer dia


Tudo vai dançar


Mas a fonte da saudade


Nem o tempo vai secar...






Essa boca muito louca


Pode me matar


Se isso é coisa do demônio


Eu quero pecar


Fecha a luz, apaga a porta


Vem me carinhar


Diz aí prá minha tia


Que eu fui viajar...






Diz que fui


Prá Nova Iorque


Ou prá Bagdá


E que isso não é hora


De telefonar


Eu já sei que qualquer dia


Tudo vai dançar


Mas a fonte da saudade


Nem o tempo vai secar...

5 comentários:

Keila disse...

É como dizia o poeta, a saudade é a certeza de que o passado valeu a pena.


=)

maya disse...

Andas muito escritorinha madame! amo tu! Lindo, divino, fabuloso e inspirador como sempre, quando eu crescer quero ser apaixonada inteligente como és. Sou burra quando me apaixono. Beijo

Carlos disse...

Perdão pelo sadismo, mas
Esta Solidão ta te fazendo TÃO Bem...

Z. disse...

Lindo o ponto de vista acerca da saudade! Adorei a parte que diz: "Se a distância é física, a saudade é a proximidade da alma. Faz banquete para o desejo. Conta os dias na folhinha."

Mari disse...

Saudade tua, bocudoooona! Segue linda.
Beijinhos