quarta-feira, 3 de agosto de 2011

aquela coisa

*terceiro e último!



Costumo ser o terror dos dicionários. Eles me detestam por inventar palavras, transformo nomes próprios em adjetivos, conjugo subjetivos, faço uma verdadeira orgia de palavras. Sempre quero inventar uma maneira inédita de dizer coisa simples, pelo prazer único de testar complicações imaginárias. Olho assim, com cara de criança que enfiou o dedo no bolo antes da hora de cantar parabéns.  Espero ansiosa que me implorem explicação sobre o dialeto. Por maldade, muita vezes, não explico. As interrogações são amigas. Ou navalhas.

É mania do mundo dar nome pra tudo. Antes mesmo de saber o sexo do bebê, já se pensa no nome. Apressa-se o batismo. E se a criança não tem a cara do nome? Os pais escolheram Leonardo, nasce um menino com cara de Marcelo. Os pais escolheram Laura, nasce uma menina com cara de Patrícia. Não deixamos nada ser anônimo em paz, pelo menos um apelido precisamos colocar. Tem um apelido que serve pra tudo: “ aquela coisa”.

“Aquela coisa” não tem sexo, gênero ou caráter. Serve pro bom e serve pro ruim. Pode ser a moldura da preguiça. Quem não quer pensar no que sente, embrulha logo num “aquela coisa”. Deu, cada um entende como quer. Uso “aquela coisa” cada vez que penso no que eu sinto e não sei que nome dar. Passa um pouco da linha de gostar, não é amor, não é paixão. Posso gastar neurônios e mais neurônios pensando, pode sair fumacinha das minhas orelhas. O sentimento não tem nome. Fica mesmo com o apelido. E quem nunca sentiu “aquela coisa” que atire o primeiro coração partido. Você sente saudade, sente falta, quer estar junto, mas não muito. Quer ligar, mas esquece. Quer que o outro ligue, mas se, por obra do destino, não ligar, tudo bem. Ou não, você não está num bom dia e “aquela coisa” resolveu sentar no peito e pesar. Ele não ligou para o celular, mas ligou seu botãozinho do drama.

- Mas nem parecia que tu gostavas tanto dele.
- E não gosto!
- Então por que isso?
- Não sei. Pode fazer o favor de me deixar?

A intensidade é variável. A sensação é inominável. Qualquer um é livre para sentir o que quiser e chamar como for. O coração é livre.

É um vazio de palavras recheado de sentimentos. Quanto mais se explica, mais se entra em contradição. Mil voltas no mesmo lugar. As emoções não são vazias, não é uma falta do que sentir. Sentimento há, só não se sabe o quê. É doce? É salgado? É macio ou crocante? Vem antes do amor? Depois? Sinceramente, não sei. Só garanto que existe.

Eu quero paz e arroz
O amor é bom e vem depois
Si si vira
Si si vira
Pois eu preciso de um cachorro
Pois eu preciso de um amigo
Os meus amigos me abandonaram
Pensando que eu tivesse a perigo
La la la la la la la la la la la la
Eu quero paz e arroz
O amor é bom e vem depois
Si si vira
Si si vira
Pois além de grande amigo
Eu preciso de alguém
Que me trate com carinho
Que me fale de amor
Das coisas lindas da vida
Das coisas lindas da paz
Eu quero paz e arroz
O amor é bom e vem depois

Um comentário:

Carlos disse...

Se até o Rui Barbosa inventava palavras, por que a Kukynha não poderia...