sexta-feira, 19 de agosto de 2011

as vírgulas de van gogh

Certa vez eu me comprometi em ter modos. Nesta vontade doida que eu tenho de viver, sentir, fazer tudo, esquecia as valiosas pausas. Emendava um fato no outro sem perceber que muito precisa respirar. E que eu preciso respirar também. A maior prova de que não sabia fazer isso eram as constantes crises de soluço. O meu diafragma debochava de mim. Aprendi a respirar melhor, a colocar vírgulas nos períodos longos. Pontuação na história da vida vale economia de aborrecimento. Melhora a chance de visualizar o momento.



Van Gogh pintava vírgulas. Muito se discute sobre a saúde mental dele, sobre os comportamentos e o quanto disso era transferido para a arte. A obra conhecida hoje só fez sucesso depois da morte, porque em vida, vendeu apenas um quadro. Apesar de ter quatro irmãos, Theo era o único com quem conversava, era também o único amigo.



Mas voltando para as vírgulas de Van Gogh, em especial as destacadas em Noite Estrelada (1889), para mim as estrelas são muito mais sóis. Ele pintou esta tela durante uma das últimas internações psiquiátricas. Em plano mais próximo, aparece um cipreste e longe a cidade, o que já mostra a predileção pelo isolamento e pouca companhia. Preferível estar com uma única pessoa, íntima e conhecida do que inserido na multidão, porém sozinho. Talvez isso explique a escolha de Theo como seu melhor amigo, para quem enviou muitas vírgulas escritas em oitocentas cartas, ou mais. Van Gogh utiliza muito mais área da tela para se dedicar à pintura do céu do que qualquer outro elemento, o que sinaliza a predileção pelo plano das ideias.



Ao pintar esse quadro, em uma das cartas para Theo ele diz: “Quero expressar a esperança por meio de alguma estrela.” Notem que todas as estrelas são pintadas em amarelo, cor favorita de Van Gogh. A cor amarela traz uma reflexão interessante, porque é uma cor aquecida, que ilumina. O amarelo chama a atenção, é relacionada à felicidade. Um dos maiores sonhos de Van Gogh era manter uma fundação chamada casa amarela – que ele também pintou – onde seriam produzidas obras de arte, servindo de escola e recanto de artistas plásticos. Se a felicidade não era presente na vida, ele a pintava na arte. Queria entrar na casa amarela como forma de obrigar a felicidade a aceitá-lo.



Assim também foi com a pintura dos girassóis, mais amarelo, mais vírgulas.



Os traços ondulados que encaixam uma pincelada na outra, feitos com pressa e força, não chegam a misturar as cores. A imagem varia de tom por causa da individualidade que o traço define. Aqui era onde eu queria chegar. Van Gogh teve uma vida afetiva tumultuada. Tentou por quatro vezes viver o amor. Fracassou. Em nenhum dos casos a história teve início, meio e fim. Elas começavam e acabavam em vírgulas: a filha de uma patroa, a prima viúva com filho pequeno, a prostituta alcoólatra grávida e por fim uma solteirona, em todos os casos ele buscava assumir um lugar que não era seu. Em todos os casos, foi rejeitado.



Acredito que optamos por nossas vírgulas por certos comodismos. Saber a hora de um ponto final exige pesar muito bem a história inteira. É fácil se encaixar em um lugar vago, entrar num período vazio. Complicado é conquistar um lugar nosso. Deixamos que medos e inseguranças nos levem a fazer comparações que o que aconteceu antes, de forma que buscamos ser continuidade da história. Cada história é uma nova história. Somos tintas avulsas ondulando na tela, fazemos parte da imagem, mas o quadro só faz sentido quando pronto. E aí é hora de parar, olhar. É o ponto final.



Nossa mania de insistir e negar os fins, batizar o que acabou na pia do fracasso, impede a respiração. Precisamos saber parar. Quando o investimento é suplício, poupar é a solução.



Não coloco mais vírgulas nos meus finais. Atribuo três pontinhos, se tenho preguiça de pensar. Os pontos podem doer, mas são sinceros. As vírgulas são as nossas continuidades infinitas, muitas vezes motivadas pela vaidade. Sejamos francos, não há nada que proíba novos começos. Um olhar brilhoso revisto pode acender a vontade de requentar um amor antigo no microondas. Não há regras para amar. Nem para deixar de amar. O que não vale é ser triste, ver a felicidade como um sonho de uma casa amarela. Não quero morar na casa amarela, quero ela morando em mim.



 Mais vida, menos projeção. Mais pontos (de exclamação, de interrogação), menos vírgulas.



Van Gogh pintava quadros novos com as mesmas tintas, pode ser que não soubesse transportar isso para a vida, em especial para o amor.

Talvez eu não tenha modos, mas me comprometi em parar e admirar as telas.


Mais respiração, menos soluços.

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Eu poderia ficar falando de Van Goh por textos e textos. Interpretaria a sua obra inteira, tamanha riqueza. Numa das cartas para Theo, ele escreveu algo que me agrada muito:



"Dizem, e creio, que é difícil conhecer a si mesmo, mas também não é fácil pintar a si mesmo".

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Um beijo para todos que administram seus soluços!

Contribuição da Dona Marlene! Prestem atenção na letra... é linda.




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Eu, ruiva.
Van Gogh, ruivo.
Trilha sonora, Nando Reis!

Pra você guardei o amor
Que nunca soube dar
O amor que tive e vi sem me deixar
Sentir sem conseguir provar
Sem entregar
E repartir

Pra você guardei o amor
Que sempre quis mostrar
O amor que vive em mim vem visitar
Sorrir, vem colorir solar
Vem esquentar
E permitir

Quem acolher o que ele tem e traz
Quem entender o que ele diz
No giz do gesto o jeito pronto
Do piscar dos cílios
Que o convite do silêncio
Exibe em cada olhar

Guardei
Sem ter porque
Nem por razão
Ou coisa outra qualquer
Além de não saber como fazer
Pra ter um jeito meu de me mostrar

Achei
Vendo em você
E explicação
Nenhuma isso requer
Se o coração bater forte e arder
No fogo o gelo vai queimar

Pra você guardei o amor
Que aprendi vem dos meus pais
O amor que tive e recebi
E hoje posso dar livre e feliz
Céu cheiro e ar na cor que o arco-íris
Risca ao levitar

Vou nascer de novo
Lápis, edifício, tevere, ponte
Desenhar no seu quadril
Meus lábios beijam signos feito sinos
Trilho a infância, terço o berço
Do seu lar

Guardei
Sem ter porque
Nem por razão
Ou coisa outra qualquer
Além de não saber como fazer
Pra ter um jeito meu de me mostrar

Achei
Vendo em você
E explicação
Nenhuma isso requer
Se o coração bater forte e arder
No fogo o gelo vai queimar

Pra você guardei o amor
Que nunca soube dar
O amor que tive e vi sem me deixar
Sentir sem conseguir provar
Sem entregar
E repartir

Quem acolher o que ele tem e traz
Quem entender o que ele diz
No giz do gesto o jeito pronto
Do piscar dos cílios
Que o convite do silêncio
Exibe em cada olhar

Guardei
Sem ter porque
Nem por razão
Ou coisa outra qualquer
Além de não saber como fazer
Pra ter um jeito meu de me mostrar

Achei
Vendo em você
E explicação
Nenhuma isso requer
Se o coração bater forte e arder
No fogo o gelo vai queimar


2 comentários:

@NaoSouSanto disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Carlos disse...

Só não vai me arrancar um pedaço desta orelha linda, tah?