sexta-feira, 5 de agosto de 2011

janela

Interessante como criança faz o que só mais tarde se explica. Quando eu tinha por volta de oito anos, minha avó me deu um calendário de advento, estava há anos na família, alguém trouxe da Alemanha. É uma brincadeira infantil para contar os dias que faltam para o natal. O calendário é a fachada de uma vila, onde a igreja fica no centro. A contagem dos dias inicia em primeiro de dezembro, quando se abre a primeira janelinha. Todas as janelas são numeradas até a véspera do natal, dia 24, quando o que se abre é a porta da igreja, mostrando a celebração cristã pela representação de um presépio. Nos outros dias, as janelas abertas revelam cenas de preparação, famílias juntas, crianças rezando. Os traços antigos do desenho são rústicos e perfeitos. Colocando uma vela atrás do calendário cheio de fungo, amarelado pelo tempo, o colorido parece dar quase pele às pessoas de papel. Abria todas as janelas, mesmo já sabendo o que tinha atrás de cada uma. A minha favorita era a que mostrava duas crianças com um gato, debruçadas no parapeito, como se contassem estrelas. Nunca me lembrava de abrir a porta da igreja no natal. Eu amo natal. O meu descaso era com a porta.



Quando meus pais reformaram a cozinha e compraram um fogão novo, a caixa virou parte da mobília. Era convidativa. Por dias serviu de cartola para coelhas gigantes – minha irmã e eu -, depois virou sarcófago de múmia, caixão de vampiro, carro de corrida, nave espacial. Antes de virar lixo reciclável, determinamos que serviria casa de campo das bonecas. Forrei as paredes com papel de presente imitando papel de parede, montamos balcão com caixas de remédio para que fossem um balcão da cozinha americana, delimitamos os dormitórios. Recortei janelas, muitas janelas. Nenhuma porta.



Ao acordar, abro as janelas do quarto antes mesmo de escovar os dentes. Quando viajo e fotografo casas antigas, prefiro as imagens que retratam as janelas. Eu sou declarada admiradora de janelas.



Sempre gostei de pular janelas, de dentro pra fora e de fora pra dentro. As portas não me atraem, são previsíveis. Abrimos para o que entre o que queremos. Roubamos um aperitivo do que chega pelo olho mágico. Girar a maçaneta é ato de cuidado, de segurança. Recebemos a visita pela porta. Ela entra, a porta fecha. Vai embora, porta abre, porta fecha. Observa o pedágio dos três beijinhos. Janela não. Ao abrir a janela, quem sai somos nós. O olhar da rua nos furta. Viramos as costas e deixamos a janela aberta, suspensa entre o chão e o teto. Muito entra e muito vai por ela sem a nossa menor interferência.



Uma janela aberta inspira. Consente a violação da privacidade. Alimenta o piso com a luz da rua, carimba na parede os contornos das digitais dos móveis. Eu me debruço no mesmo peitoral da janela larga há anos, nunca vi a mesma coisa. A pintura da janela não é estática apesar da moldura. As dobradiças das persianas dão bom dia pela manhã e desejam bons sonhos à noite. São as alianças entre as folhas de madeira. A janela aberta deixa a rua fugir pra dentro de casa.


Costumo dizer que o amor não entra pela porta, pula a janela. O amor não quer correr o risco de escolhermos não abrir a porta. Ele gosta do imprevisível, fez votos de surpresa. Chico Buarque já cantou: abre teu coração ou eu arrombo a janela. Muito sábio, como todo malandro, já devia ter o pé-de-cabra embaixo do braço. Não era ameaça, era descrição do procedimento. Amor não entra no coração com tapete vermelho, com convite na mão, nome na lista. Amor pula a janela, aquela que foi aberta pela manhã, onde a cortina descuidada lambe o vento. Onde os penduricalhos de cristal fazem samba. E nem pense em fechar o vidro, que o amor toca uma pedra. Faz alarde, estrago e gritaria, chega pra entrar de qualquer jeito.


Amor é assim mesmo, independente da pontaria.

Você é a espera na janela...

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Olha só, tenho coisas pra contar que preciso ser lembrada daqui a algum tempo. Como a história da paixão por coxinha, da compra da camisinha no posto de gasolina, do encurtamento do inverno e das melhores respostas já respondidas do MUNDO (se bem que esse último, é melhor não...).

 E sim, isto é um lembrete.

Andei atrasada nas postagens por falta de computador. Não fugi pra nenhuma ilha.

Ah, também não fui presa. Mamãe, fique tranquila, nem pretendo ser.
 
 
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Ouve a declaração, oh bela



De um sonhador titã


Um que dá nó em paralela


E almoça rolimã


O homem mais forte do planeta


Tórax de Superman


Tórax de Superman


E coração de poeta






Não brilharia a estrela, oh bela


Sem noite por detrás


Tua beleza de gazela


Sob o meu corpo é mais


Uma centelha num graveto


Queima canaviais


Queima canaviais


Quase que eu fiz um soneto






Mais que na lua ou no cometa


Ou na constelação


O sangue impresso na gazeta


Tem mais inspiração


No bucho do analfabeto


Letras de macarrão


Letras de macarrão


Fazem poema concreto






Oh bela, gera a primavera


Aciona o teu condão


Oh bela, faz da besta fera


Um príncipe cristão


Recebe o teu poeta, oh bela


Abre teu coração


Abre teu coração


Ou eu arrombo a janela













4 comentários:

Carlos disse...

Fã de Janelas 2x!!!

Colocando na agenda pra te lembrar dos posts! Inclusive aquele "melhor não"...

Mirian disse...

Nunca vou esquecer a cena de vc escalando o muro p pular a janela da casa do Rosa. KKKK

BETO disse...

Bocão, mais um texto PHODA.

Anônimo disse...

Lindas janelas abertas para a vida.