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desbotou

- Fui dar uma respirada??? Mas essa respirada durou 5 anos!!! Não foram 5 minutos, tu não sumiu por 5 dias. Tu ficou 5 anos longe de mim! ANOS, A N O S!

Ele repetia enfaticamente enquanto ela permanecia imóvel sobre o capacho da porta de entrada. Olhos fixos nele, em todo o movimento e argumentação que se resumia à mesma frase. Repetia incansavelmente. Olhou pra baixo por alguns segundos e percebeu que o primeiro ladrilho do lado de dentro do apartamento ainda estava desnivelado, o que oferecia uma certa dificuldade em abrir e fecha a porta nos dias de umidade mais acentuada. Muitas vezes voltou da faculdade tarde da noite e teve que xingar o ladrilho, a porta, a fechadura e todas as chaves que carregava no chaveiro e nunca acertava de primeira qual abria a porta. Eles foram morar juntos no final do primeiro ano de namoro. Elisabeth não achou precipitado.

Olhou de novo pra ele e arrumou a franja que caía nos olhos, tinha dedos longos, unhas curtas pintadas de vermelho. Esperou que ele dissesse mais alguma coisa. Miguel permaneceu calado. O único barulho era o inflar ofegante dos pulmões, colocava o ar pra fora pelas narinas não menos furiosas que ele.

Elisabeth mascava chiclete. Era a rima favorita.

Permaneciam os dois imóveis no corredor do primeiro andar daquele prédio antigo. Atraíram a curiosidade de Gorete, vizinha do segundo andar que descia pelas escadas e se deparou com a cena.

- Oi Miguel, oi Betinha!

Parecia que não havia cinco anos de intervalo entre hoje e o último dia que Elisabeth habitou o charmoso apartamento. O cheiro de alho frito que vinha do apartamento de Gorete era o mesmo. Pela porta ainda via as plantas que ela levou uma a uma, a mesa antiga que comprou numa lojinha de beira de estrada, a coleção de cachaças e um abajour horrendo que ela tentou quebrar de todas as maneiras. Herança em vida da vó do Miguel. Feio. Torto. Com poeira secular que nunca saiu, encardido nos côncavos da haste.

- Eu disse CINCO ANOS. De dúvidas, de teorias, de milhões de porquês, de coisas que eu não sei, dona Elisabeth e tu me aparece aqui, com essa cara deslavada!

- Deslavada? – escapou.

- Sim, como se tivesse ido buscar pão. Acabou comigo, não me deu a menor explicação, pelo menos nenhuma explicação plausível e agora volta com essa cara deslavada.

Era tudo que ele queria. Uma mísera palavra dela para que continuasse discursando, bufando, explanando e contando o tanto que sofreu por não entender por que ela partiu, o tanto que é um coitadinho. Elisabeth detestava esse lado dramático. Preferia que ele xingasse por alguns minutos, pelo menos a convidasse pra entrar. Mas não, ele estava ali, como muitas vezes ficou falando horas sobre o telefone dela permanentemente desligado, sobre os perigos de andar sozinha à noite, sobre a amiga que usava micro saia, sobre as bebedeiras, sobre os hábitos alimentares, excesso de doce, excesso de velocidade, excesso disso, daquilo e mais outras implicâncias que ele tinha. Sempre entrou por um ouvido e saiu por outro. Enquanto ele falava quase sem respirar, ela repassava mentalmente a seleção de jogadores do Brasil da Copa de 1970, com reservas e tudo: “Felix, Ado, Leão, goleiros. Carlos Alberto, Zé Maria, Everaldo e Marco Antôni, laterais...”. Um amigo disse que fazia isso pra retardar a hora do orgasmo. Ela usava pra não perder a paciência.

Antes que pudesse chegar ao meio-campo, Miguel encerrou o falatório. Lá estavam eles parados, silentes. Ele de braços cruzados. Elisabeth, encostada na parede, passando a ponta dos dedos na barra da camisa. “ Vou agarrar ele agora, dou um beijo, entro em casa, acabo o assunto e voltamos a namorar. Vivemos felizes para sempre.” Para sempre. Isso fez eco dentro da cabeça. Lembrou que eram um casal perfeito, se ele resolvia que iam viajar, ela arrumava as mochilas, espalhava potinhos de comida para o gato, fechava o apartamento, mas sempre esquecia aberta a janela do banheiro. Ele voltava e fechava. Ela fazia bolo aos domingos, ele jogava futebol nas segundas. Quarta-feira era dia do cinema. Ela detestava o jeito que ele apertava a pasta de dente, ele detestava arrumar a cama, mas ela se negava. Elisabeth fez Miguel pintar a parede da sala oito vezes até acertar o tom de verde que ela havia imaginado. Ele fazia massagem nela, ela caía de preguiça de fazer cafuné! Ele gostava de ver fitas de vídeo, ela preferia ler. Ele não lavava a louça, ela comprou uma máquina. Até um certo dia que ela se formou e ele resolveu que deveriam casar. O apartamento ficou pequeno, as roupas apertavam, faltava ar. Ela foi embora.

- Tu pode me explicar por que resolveu voltar agora? Pode me explicar por que foi embora? Por que ficou 5 anos longe e volta dizendo que foi dar uma respirada???

Elisabeth foi viver nesses 5 anos o que ainda não havia vivido, pra poder criar raízes, ficar com ele pra sempre enquanto dure. Foi respirar mesmo. Um ar diferente antes de se entregar ao ser feliz para sempre. Mas Miguel não entendeu quando ela disse que foi respirar e voltou. E se ela tentasse explicar de novo, não entenderia. Agora ela estava pronta. Tinha feito de tudo. Tinha na memória a vida que precisava ter pra dali pra frente não sentir falta. Não teria saudade do que não fez. Agora sim, Elisabeth era mulher pra casar.

- Elisabeth, me diz alguma coisa...
- O verde ainda não é este, acho que poderia ser um pouco mais escuro. Ou desbotou.

Virou as costas e foi embora.
Sempre foi uma incompreendida.

Adianta se eu disser que é puuura literatura?!
 
 
Dreaming With a Broken Heart
 
When you're dreaming with a broken heart


The waking up is the hardest part

You roll out of bed and down on your knees

and for a moment you can hardly breathe

Wondering was she really here

Is she standing in my room?

No, she's not

cause she's gone, gone, gone, gone, gone.
When you're dreaming with a broken heart

The giving up is the hardest part

She takes you in with her crying eyes

then all at once you have to say goodbye

wondering could you stay my love

will you wake up by my side?

No, she can't

cause she's gone, gone, gone, gone, gone.

Do I have to fall asleep with roses in my hand?

Do I have to fall asleep with roses in my hand?

Do I have to fall asleep with roses in my hand?

Do I have to fall asleep with roses in my, roses in my hands?

Would you get them if I did?

No, you won't

Cause you're gone, gone, gone, gone, gone.

When you're dreaming with a broken heart

the waking up is the hardest part.

Comentários

Carlos disse…
Sei lá se é Pura Literatura ou Literatura Pura...
Só sei é que estamos a cada Post mais perto do primeiro Livro da Kuky!!!!
Ótimo! Eu gosto mais quando vc "joga" na terceira pessoa.
Fiquei esperando um final feliz.

PS- “Felix, Ado, Leão, goleiros. Carlos Alberto, Zé Maria, Everaldo e Marco Antôni...” - memorizando
Clarissa disse…
Amei! É tema de casa? Cara, sou um tanto quanto Elisabeth. Sorte que consigo respirar dentro de casa. Mas meu verde ainda não é esse.
BETO disse…
Me lembrou uma historia q eu conheço. Bocuda, bom q mister T nao é chegado a leitura de blogs. Vc teria q pagar os anos de terapia depois do post.
BETO disse…
Terapia dele, lógico!

bj

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