sexta-feira, 3 de setembro de 2010

tema de casa 1

Este foi o tema de casa da primeira aula do Carpinejar na Perestroika. Escolher alguém do quadro AS MENINAS do Velazquez, escrever como se a pessoa fosse. Lá vai:



mão na maçaneta

Admiro pessoas que sabem ser discretas. O jeito de vestir, o tom de voz pra falar, os gestos milimetricamente calculados pra não derrubar nada, admiro, porque queria ter esse talento da discrição. Queria saber andar na ponta dos pés e não fazer barulho, mas quando eu tento chegar e sair sem ser notada, acabo deixando pegadas dos meus pés sujos na tapeçaria. É como uma pichação em banheiro de beira de estrada: eu estive aqui. Tenho problemas com a hora da chegada e mais ainda com a hora da saída, pode ser por isso que eu dificilmente digo tchau. Despeço-me de mil maneiras, abraços, sorrisos, piadinhas, sumiços estratégicos, saída à francesa, rapel do oitavo andar. Quanto mais eu tento me esconder, mais eu sou notada. E eu juro que é sem querer. Eu sou o homem da porta. Ao fundo, porém, no meio da tela. O único ponto de iluminado, impossível não ser notado.

Ninguém pode dizer com certeza se estou indo embora ou chegando, mas todos sabem que eu estou ali. É o próprio retrato da indiscrição. Não faço parte da família real, não trabalho na corte, sequer estou pintando ou refletida no espelho, apenas estou deixando quem vê em dúvida.

Se eu estou chegando, é porque me deram um bom motivo. A minha curiosidade é o melhor deles, justifica boa parte das minhas intromissões. E chegar sem ser notada não é minha especialidade, por mais silêncio que eu tente fazer. Eu queria mesmo ser mais discreta, desde que isso não me exigisse usar tons pastéis. Não fico bem!

Se eu tivesse que escolher entre a chegada e a partida, escolheria a última. Já chego com a mão na maçaneta pra sair. Costumo fazer isso na vida das pessoas, inicio as minhas relações antevendo o fim. Prevejo qual doença terá a minha relação, de que vai morrer e mais ou menos quando vou assinar o atestado de óbito. A Mãe Dinah não me levaria um vintém. Sinto saudade de voltar pro meu porto porque nunca o depositei no outro. Mas pode ser que algo me faça ficar, como o homem da porta ficou.

Eu estou sempre precisando disso, que me façam ficar. Não pedindo. Preciso ser instigada e sem dizer o que eu quero. Preciso que me intriguem, que agucem em mim a curiosidade de descobrir o que vem daqui a pouco. Deixo em dúvida quem quer me fazer ficar. Não digo o que eu quero, eu nem sei o que eu quero. Passar da porta para o lado de dentro exige muita dedicação e paciência da outra parte. Sou compulsiva por saídas. Preciso de motivos constantes pra não ir embora. O lado de fora sempre me chama pelo apelido, tamanha nossa intimidade, lá eu não preciso ser discreta.
 
Talvez eu tenha claustrofobia e nem saiba. Se eu não tiver, vou pensar com carinho em mentir que tenho, preciso de desculpas pra quando me indagam sobre por que eu estou saindo. Na verdade, a questão não é esta. É por que eu não estou ficando.

2 comentários:

Carlos disse...

Impossível chegar sem ser percebida?
Queres saber porque?
Caetano responde:
http://www.youtube.com/watch?v=W6H_4YAF4zI

Keila disse...

Por mais que eu ande em ponta de pés, sempre deixo algum rastro.
Esse texto está tão aquarianista. Muito bom!