Pular para o conteúdo principal

bom humor matinal (tema de casa)

Eu passo longe de ser o tipo de pessoa que acorda feliz da vida. É impossível que alguém acorde feliz. Mais do que isso, é inconcebível acordar feliz. Eu durmo pouquíssimo. Para mim são suficientes de três a cinco horas contínuas de um sono de qualidade. Odeio dormir cedo e acho o sono da manhã o mais revigorante de todos e na noite estou no auge da minha capacidade produtiva, sou fiel às madrugadas. Gosto de dormir às cinco da manhã! O sono das cinco em diante é mais envolvente, é um sono doce, profundo, acolhedor.



Às cinco da manhã não há como dizer não pra minha cama. Ela me seduz. A cama me chama sem que eu pense em discutir, engulo todos os argumentos que ainda teria pra não deitar. Tenho quase certeza que há um pacto entre a minha cama e o relógio, do qual sou mera vítima, indefesa. Não ofereço resistência. Luto bravamente contra o sono até esse horário, quando me entrego. O lençol me envolve num abraço acolhedor que não encontrei ao longo do dia. Meus travesseiros exalam o perfume de sono que Hipnos trouxe da Grécia para mim. O quarto é o lugar mais confortável do planeta. Sinto-me no lugar certo, na hora exata. Está tudo perfeito para fechar os olhos, a parede verde, a cama de madeira escura, a pilha de roupa amontoada na cadeira, livros e rabiscos na mesa de cabeceira, as cortinas que eu quero trocar, mas não vou pensar nisso agora...



Quando eu durmo muito cedo, e isso é lá pelas duas horas da madrugada, não é raro que eu acorde um tempo depois com alguma ideia mirabolante que me faça catar um papel e um lápis, ou mandar e-mail ou – quando julgo a ideia muito boa e urgente – mandar uma mensagem para o celular de alguém. Ainda não cheguei ao estágio de ligar nas madrugadas, minha urgência se contém na boa educação. Eu disse “ainda”, o que quer dizer que essa atitude não seja definitiva. Sim, a maldita insônia. Daquelas de relembrar tudo que se fez, de pensar no que se vai fazer, de lembrar-se da letra de uma música qualquer. Tento voltar a dormir contando carneirinhos. Não dá certo. Tento dormir ficando quietinha, varrendo do pensamento qualquer coisa. O pensamento não consegue ficar vazio. Lá estou eu, vagando pela casa atrás de um gato que me faça companhia, uma leitura que me dê sono ou um filme tão chato que eu adormeça no sofá.



O mundo nunca entendeu meus horários.



Sempre fui compelida a dormir e acordar cedo. E mesmo quando desperto sozinha, não consigo acordar de bom humor.



Não acordo sorridente, pulando da cama e dando bom dia. Acordo ainda de olhos fechados, tentando montar um corpo em cima dos pés, grunhindo sons misteriosos do quarto até o banheiro, trajeto de aproximadamente doze passos onde, invariavelmente, minha canela vai esbarrar em alguma coisa.



Mas isso sou eu. O mundo, não contente em não ser adequado aos meus horários, ainda dá espaço para habitantes que acordam de bom humor. E as energias cósmicas do universo conspiraram para que três dessas pessoas morem na minha casa. A essas pessoas dou o nome de família. Mãe, pai e irmã, todos acordam felizes e sorridentes, enquanto tudo que eu quero é uma caneca de café suficientemente grande para que eu possa mergulhar dentro! Café preto, forte, puro, sem açúcar é a primeira certeza da manhã: estou viva. Deste momento em diante, vai passando gradualmente o ranço, em velocidades que variam. Mas passa.



Pessoas que acordam de bom humor do meu lado correm risco de levarem uma dentada pela manhã! E o bom humor matinal é insistente. A pessoa vê que tu estás com cara de poucos amigos, que já não respondeu à primeira tentativa de bom dia e ainda assim saltita da cama até a janela, arreganhando as cortinas, violentando as persianas até que elas cedam e deixem entrar a claridade que quase me faz cegar. Poxa, mal abri o olho no escuro, imagina assim!!! Inconcebível. Para acordar ao meu lado, espero no mínimo que a pessoa rosne até o café da manhã.



Quando eu estava na escola, estudava pela manhã. Meu pai nos acordava às seis e meia, mas ele já estava desde as seis fazendo barulhos, perambulando pela casa. Eu sou capaz de jurar que os barulhos eram propositais. Ele sempre disse que não. Pontualmente às seis e meia, ele violava o meu quarto, impiedosamente acendendo a luz e me chamando pelo apelido no mesmo tom de voz. Todas as manhãs, da primeira série ao terceiro ano do segundo grau, o mesmo tom de voz. E se eu puxasse o travesseiro pra cima do rosto ou tentasse uma espreguiçada, ele vinha me fazer cócegas. Nisso, minha irmã mais nova, que dormia no mesmo quarto que eu, já estava em pé, se vestindo e cantando. Muitas foram as manhãs que ela e meu pai faziam um dueto. Em poucos minutos a minha mãe estaria sorridente no quarto, dando bom dia e solicitamente se oferecendo para escolher a minha roupa, porque sabia exatamente quantos graus iria fazer, a hora que iria chover e eu sempre estava com menos roupa do que deveria. Na mesa do café, uma torrada de queijo com um sorriso recortado já me esperava no prato. Eu a empurrava com a ponta dos dedos, queria apenas café. Depois fazia um pão com manteiga que eu adorava ir comendo até a escola, enfarelando o carro, os cadernos, o uniforme e os cabelos da minha irmã. Nessa hora meu humor já estava mais ameno.



Bom humor matinal é estranho.



As pessoas que acordam de bom humor são estranhas. As probabilidades dessas pessoas se decepcionarem e ficarem frustradas são muito maiores. Alguém que acorda de bom humor espera que o resto do dia seja bom. Espera por coisas boas, por momentos gratificantes, por aumentar ou pelo menos manter alta essa taxa de alegria. É fato! Acredito que acordar de bom humor possa até levar à depressão, tamanha decepção que pode haver por não acontecer nada verdadeiramente bom ao longo do dia.



Quem acorda de bom humor já acorda com expectativa. E com expectativa positiva, querendo mais, querendo melhor. Qualquer problema que acontecer vai ganhar proporções superlativas, vai impedir de sair aquele sorriso que habitou o rosto há pouco tempo. Na verdade, quem acorda de bom humor é acomodado, espera que os acontecimentos mundanos possam dar conta de manter o bom humor. Enquanto um mal humorado matinal se move em direção à esperança de sorrir no seu dia. Descobre no trivial algo que dê motivos para cessar a rabugice, como numa caneca de café.



Uma pessoa bem humorada ao acordar pela manhã não sabe descrever de onde vem seu bom humor, não sabe por que está rindo. Acorda bem por mania de acordar alegre, imotivadamente. Então terá, no passar das horas, motivos pra ver a alegria indo embora, a menos que suas expectativas se confirmem, a menos que haja um evento magistral, descomunal ou pelo menos bacana, capaz de manter e, quem sabe, melhorar esse humor. Essa pessoa se questiona pouco sobre o que fazer em prol da manutenção dessa alegria, aceita o que as horas lhe trarão.



Um rabugento matinal não aceita, ele procura se reconciliar com o dia, mesmo que vá acontecer antes de dormir. Ele vai buscar algo que nem ele imagina o que possa ser, ele quer o motivo pra sorrir. Por isso não quero ao meu lado alguém que acorde pulando da cama e me dando bom dia, iluminando o quarto. Quero alguém que não se acomode que procure, como eu, os bons motivos ao longo da vida.








Raica, a gata-galinha-carijó, vulgo Franga.
Criatura que acorda de mau humor master!
AMO.

Comentários

Jé Menezes' disse…
Porra Kuky! Tu é Diva, ídala, musa master!

Sabe quando você lê algo e parece que foi feito por você? Ou melhor, pra você? Então, foi assim! rs

Ótimo texto!
beijos'
BETO disse…
PORRA BOCÃO, O TEXTO TA OTIMO SÓ Q FOTO DA BIXANA É SACANAGEM. AINDA MAIS ESSA DAI Q ME MORDE.

BJ
Carlos disse…
No Words...
LOVIÚ!!!
Anônimo disse…
"... correm risco de levarem uma dentada pela manhã!"

Resumo: acordar ao teu lado parece arriscado ehehhehe
legal o texto, parabens
bjao

Postagens mais visitadas deste blog

simpatia para parar de chover

Só para seguir a tradição, chove. Nos primeiros dias das minhas férias na praia é sempre o que acontece. O primeiro dia geralmente tem um sol sedutor, um calor de matar, mar lindo. Depois chove. Eu gosto de chuva. Mesmo na praia, mesmo de férias. Mas também gosto de aproveitar o mar, a areia, gosto de caminhar, de tostar no sol e ficar enfarofada junto com o meu filho, usar chinelos em vez de galochas.
Por isso aprendi várias simpatias!
Sueli, que trabalha na minha casa desde a pedra fundamental, disse que se deve jogar um punhado de sabão em pó no telhado. Pedir para Santa Luzia limpar o tempo. Já fiz isso. Considerando o preço do sabão em pó, gostaria de saber se a santa poderia limpar o tempo com sabão em barra. Sem falar que no ano passado sofri um pequeno acidente Bem na horinha que fui jogar o sabão, bateu um vento que trouxe todo o pozinho azul direto para o meu rosto. Nunca tive olhos e boca mais brancos! Sem manchas desde a primeira lavagem.
A avó do meu amigo Felipe, Dona Sa…

a noiva do vento

Peça para uma criança definir o vento. Eu apenas acreditava na existência real do ar quando ele virava vento. Quando era tomado de força, ganhava forma, movimento, atiçava a minha curiosidade. A observação do vento ainda atrai os pequenos. Na pracinha aqui perto havia uma menina sentada à sombra com a mãe. Olhava com atenção as folhas secas que trocavam de lugar no chão. Nem balanço, nem gangorra, a garota estava descobrindo o vento.
O vento tem intimidade com a paixão.
Oskar Kokoschka pintou A NOIVA DO VENTO com pinceladas desesperadas, cores nervosas, num quadro que emoldura a própria enxaqueca do abandono. Na obra, uma mulher adormecida sobre um corpo masculino, cujos olhos não passam de órbita vazia – tradução da ausência de vida. A mulher não o deixa, mesmo que ele já a tenha deixado. Mesmo que ele já esteja morto. A ausência de qualquer conotação sexual pela ausência de cores quentes (vermelho, laranja) e o excesso de tudo aquilo que pode faltar, que remete ao gelo e à solidão pe…

joelho

Coisa bem feia é joelho. Não me afeiçoa a palavra, nem a parte do corpo, em que pese reconheça a importância. Tanto reconheço, que se eu jurar algo pelos meus joelhos, será verdade. Justifico: me falta a memória para lembrar quando a expressão surgiu, talvez, nos idos de 2010. Acho. Eu fui muito dramática em 2010.
Pode ser que, embalada por um café passado, quase frio e sem açúcar, não menos amargo que a pauta da conversa com um amigo, tenha surgido a dúvida sobre algum sentimento que profetizei.
“Jura" - ele deve ter perguntado. “Pelos meus joelhos, juro pelos meus joelhos!” - lembro de ter respondido.
Os joelhos são feios e úteis. São complicados e importantes. Entre o fêmur, a tíbia e a fíbula; colaterais, cruzados e meniscos. É como o amor. Entre o eu te amo, a entrega e a vida; medos, expectativas, preservação.
Por que as crianças estão sempre com os joelhos ralados? Porque são destemidas. Até que se abra o primeiro corte, que se faça a primeira cicatriz. Até que o pai advirta.E…