sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

tudo isso bebendo água

Eu tenho tido o imenso prazer de caminhar mais pela vida, de ter me permitido mais através de alguns descompromissos. O resultado disso tem sido mandar embora alguns conceitos antigos, adotar alguns novos. Os princípios que ainda têm salvação são mandados para a tinturaria, voltam remodelados para me vestirem melhor, adequados ao tamanho que eu resolvo medir. Mesmo assim, nada é definitivo.

Nas minhas caminhadas pelos becos do conhecimento – sobre tudo e nada – sempre encontro pessoas carregadas de bagagem. Furto um pouquinho delas e deixo nelas um pouquinho de mim. E, mesmo quando algumas diferenças são gritantes, é possível encontrar um ponto de convergência. Veja bem, não falei de concordância, não disse que entre as diferenças existe um ponto de opinião comum. Disse que há convergência, um momento onde o sentido apontado é o mesmo. E isso acontece por intuição, não por raciocínio.

Esta mesma intuição faz surgir um sentimento de intimidade, quase instantânea – palavra que eu não gosto muito. Eu não acredito em amores instantâneos, em paixões à primeira vista, nem em eternidades estáticas, mas acredito sim que haja uma maneira de reconhecer em alguém uma energia que nos faz aproximar. Esta teoria não é minha, isso é física quântica. Acredito que isso possa tanto somar experiências e sensações quanto diminuir o que somos, provocando vazio. Aí que começa a diversão, selecionar aquilo que vai ocupar esse espaço deixado. Ou apenas escolher mais um elemento para ser agregado ao que já existe.

Se estiver muito abstrato, eu vou tentar concretizar. Algumas pessoas fazem uma pequena participação na nossa vida. Essas guardamos na nossa estante, são estátuas, porta-retratos, dicionários. Sabemos que estão ali, podemos recorrer a elas sempre, as mãos alcançam com facilidade. Tiramos o pó, arrumamos a disposição de maior ou menor destaque. São facilmente removidas quando deixam de combinar com o resto da mobília. Outras pessoas são cicatrizes, são as marcas gravadas na pele. Dependendo de como tratamos, a ferida volta e sangra. Exigem mais cuidado. Dessas, eu me orgulho. Acredito que são essas as que me fazem brotar minhas inquietudes.

Não consigo imaginar uma felicidade sem conflito, uma vida completa sem sangramento. Não sei se eu conseguiria me desconstruir e reconstruir a ponto de ficar empatada entre sentimentos e atitudes. A minha filosofia é baseada em viver.

Preciso dessa tensão, o gosto cítrico e adocicado da ambiguidade acaricia meu paladar.

E antes que pensem que eu tenho talento para arrumar confusão (e eu tenho), vou dizer que está tudo bem. Meu pequeno universo de caos é harmônico. Não me transtorna. Eu assumo onde me dói, o que me sangra. Eu tenho meus furacões e explodo com facilidade. O que ninguém entende é que minha explosão é traduzida em um sorriso largo. Eu tenho satisfação em ser uma inquieta. Quando eu não tenho os porquês, faço questão de criá-los. Não faço questão alguma das respostas, mas das perguntas, eu preciso. O meu compromisso está em não ter certezas.

Inspiro interrogações, expiro exclamações, reticências e muitas vírgulas.

Minha sensação de liberdade reside onde eu possa conviver bem, independente dos erros, dos acertos, do círculo fechado, da pouca margem de negociação. Minha energia é uma prostituta das minhas vontades. É nisso que está o meu equilíbrio, em poder ver o que emana de mim sem nominar ou classificar e conviver muito bem com tudo. Ousar alimenta a minha libido.

Quem ouve minha fala calma nem imagina, né?!

Talvez eu não seja uma caixinha de surpresas. Talvez eu seja a própria caixa de Pandora.

(E só quem sabe bem a mitologia vai entender que isso é muito bom!)

 
 
Verdades verdadinhas da semana:
 
Tomei gosto pela sensação de embrulho no estômago, pela boca seca. Meu coração já não bate, tem palpitações ritmadas.  

Hey, você que procura a sua metade da laranja. ESQUEÇA! O que está valendo é encontrar alguém para desmontar a sua cebola. Ou montar. O fato é: esqueçam tudo que já foi dito sobre as laranjas, elas só servem para fazer suco. Em matéria de relacionamento, a cebola é quem comanda.

Preciso fazer um curso de mãe judia.

... um beijo.


Melodia:

Quando ela chora
Não sei se é dos olhos para fora
Não sei do que ri
Eu não sei se ela agora

Está fora de si

Ou se é o estilo de uma grande dama

Quando me encara e desata os cabelos

Não sei se ela está mesmo aqui

Quando se joga na minha cama

Ela faz cinema

Ela faz cinema

Ela é a tal

Sei que ela pode ser mil

Mas não existe outra igual

Quando ela mente

Não sei se ela deveras sente

O que mente para mim

Serei eu meramente

Mais um personagem efêmero

Da sua trama

Quando vestida de preto

Dá-me um beijo seco

Prevejo meu fim

E a cada vez que o perdão

Me clama

Ela faz cinema

Ela faz cinema

Ela é demais

Talvez nem me queira bem

Porém faz um bem que ninguém

Me faz

Eu não sei

Se ela sabe o que fez

Quando fez o meu peito

Cantar outra vez

Quando ela jura

Não sei por que Deus ela jura

Que tem coração

e quando o meu coração

Se inflama

Ela faz cinema

Ela faz cinema

Ela é assim

Nunca será de ninguém

Porém eu não sei viver sem

E fim.


6 comentários:

Carlos disse...

Tah! A garrafinha é de água! Agora conta pra gente o que tu colocas dentro dela pra brotar toda esta inspiração!?!? hehe
Beijo e Boa Praia!

Jéssica Menezes' disse...

Bah, tão lindo esse teu auto-conhecimento. Espero que um dia eu consiga ser bem resolvida assim! hahha'

Me diz o nome da água que essa daí é da boa! Texto belíssimo.

Um beijo'

Anônimo disse...

Nunca havia lido algo com tamanha clareza de expressão. Tu foste além, quebraste qualquer barreira que ainda pudesse ter. Admirável.

BETO disse...

matou a noiva em fuga?

Joao disse...

inspiradora.

Amanda disse...

Adoro passar por aqui e ler os seus textos de qualidade. Foto linda.
Beijo