terça-feira, 12 de abril de 2011

não pratico outono

É assim mesmo que acontece. Acordo, abro a janela, como sempre faço, sinto a primeira luz do dia, respiro o ar da primeira brisa que invade o quarto como se tivesse passado a noite inteira do lado de fora da persiana, esperando por este momento. Depois disso eu afasto as cortinas, achando que entra mais luz, mais ar, mais claridade. Ainda estou descalça, com a cara amarrotada e o cabelo em pé.



Dou bom dia ao dia, que seja bom, que seja doce, como Caio Fernando Abreu me ensinou a fazer. Paquero o céu, querendo que ele me diga se pretende chover ou se devo me preparar para uma queda de temperatura. Por aqui, outono e primavera levam a sério o emprego de meia-estação. É fim de calor com início de frio. Pela manhã casaquinho, pela tarde água gelada, à noite edredom. Com muita sorte, meias listradas. Com mais sorte ainda, meu lado esquerdo ocupado.



Convivo bem com esse meio-termo das estações. No outono espero ansiosa pelo inverno. Gosto de bater queixo, fungar, ficar com a ponta do nariz gelado, aquecer a mão na caneca de chá, torrar a bunda na lareira, inventar desculpa pra ficar mais na cama, comer pinhão, usar edredom como se fosse casaco para perambular pela casa com minha coleção de pantufas divertidas. A gula e a preguiça são pecados praticados com afinco. Gosto mais do extremo frio do inverno do que da mornice previsível do outono, apesar de achar que tudo é mais lírico no outono.



Bom, dizia eu que, em regra, os dias começam iguais. Prometo sempre aproveitar cada momento, fazer da minha rotina algo diferente. Ser segura, cativar, praticar gentilezas, observar, sorrir estão na minha lista de afazeres diários. Não sou do tipo que pensa na felicidade como uma reação adversa. Na minha bula ela é o efeito esperado das atitudes que procuro ter. Alguns pequenos descasos que o destino pode cometer são bem vistos. São as possibilidades que não se concretizam. Variam de tombos à cicatrizes, torcidas de pé, fraturas expostas. Aprendi a não chorar meu leite derramado. Aprendi que o que fica atrás de mim, serve de ensinamento, não de regra ou julgamento. Aprendi a pensar no que eu quero e no que eu gosto como algo possível.



Uma vez, Carlos Drummond de Andrade perguntou “entre a dor e o nada, o que você escolhe?”, dor sairia da minha boca quase que por um reflexo medular. Não sentir nada é o fim da vida. As ausências completas me aborrecem. Prefiro sentir, ainda que seja dor. Mais que isso, prefiro admitir essa dor.



Ando com essa mania de ser inverno. Ou ser verão.



Aboli minha meia-estação. Não pratico mais o outono. Falo logo o que deve ser dito, abuso da sinceridade ainda que o mundo não esteja acostumado com pessoas que não tenham filtro entre o que se sente e o que se fala. Quem eu matei pra isso? Gostaria de dizer que foi o medo. Mas ele ainda está vivinho, porém mudo, obediente. Mais disciplinado do que eu jamais fui. Parei de beber – não convictamente meu vinho sagrado das noites insones – e aprendi a tomar algo divino: coragem.



Resolvi arriscar porque desfiz cada camada do que houve um dia. Desintegrei concepções e ilusões que havia adotado por anos e nem minhas eram. A sinceridade gritante me condena se eu tento omitir. E palavras tão simples como “eu te amo” já não travam mais a minha língua. O desconhecido não me inibe. Os riscos não me assustam. Cá estou eu, sentada em cima de uma nuvem, sem pára-quedas.

Posso cair o maior tombo da minha vida. A ruína pode ser o próximo passo.



Mas acredito que aprendi a voar.



Melhor do que isso. Acredito que existe alguém aprendendo a voar junto. Um praticante convicto do próximo passo, sem pressa, vivendo um dia de cada vez – e ele é bom nisso! – empenhado em chegar cada vez mais perto, ir cada vez mais além. Percebo isso por toda a vastidão do oceano de palavras, fé, dúvidas, aflições, sentimentos e carinhos que têm inundado esse fragmento que chamamos de vida. Percebo isso quando vejo que os espaços entre os sorrisos são menores, que o afeto tem sido bem alimentado. Gosto disso porque tem um laço, não um nó. Gosto disso porque envolve verdade e compreensão.



Gosto disso porque depois do mergulho em todo esse mar, ainda sobram suspiros salgados espalhados pelo chão da cozinha.

Há tempos atrás me disseram que aquilo que vemos deve ir além dos olhos. Seja um filme, uma pintura, uma gravura, um livro. Ver de verdade é interpretar. Ouso dizer que se aplica também aos gestos. Ainda que o interlocutor desconheça ou não nomine o que faz, faz. Faz bem e me faz bem.
 
 
 
E pra quem tem dúvidas no caminho, o que importa é caminhar.
 
----
 
O que tem tocado na vitrola:
 
Simple Words - Ultra Orange & Emmanuelle


What am I supposed to do


when we're side by side


and the silence speaks


for 2


is it me or is it you?


oh tonight we need


to start something new






simple words like 'I love you'


it feels so hard to tell the truth


and you look away


too afraid to hear


what you're about to say






how far can you go


how long can you wait


before you speak


from your heart






and the case keeps on and on


and the mystery is never solved


if I'm not the one you search


if you're stuck inside a dead end world






simple words like 'I love you'


it feels so hard to tell the truth


and you look away


too afraid to hear


what you're about to say






how far can you go


how long can you wait


before you speak


from your heart





















4 comentários:

Carlos disse...

BAH!

Dani disse...

aaaaaaaaaai voar junto é a melhor coisa do planeta. Estou seguinto teu exemplo, amiguinha!
Beijos

Anônimo disse...

Adoro ler. Sabe q vc está mais linda a cada post.
Bjinhos, Maya.

Keila disse...

Texto tão fantastico que dispensa qualquer comentário. Serei sempre fã!
Foto lindaa.
=***