sábado, 23 de abril de 2011

o genérico da ritalina

Já confessei minha inquietude várias vezes. Já disse que raramente sossego, que estou sempre mexendo em alguma coisa, pinicando alguém, atormentando um gato. Adoro passear pela casa desalinhando algum quadro, trocando fotografias de lugar. Adoro transplantar a vegetação. Se estou quieta ou estou lendo ou morri. Aconselho verificar. Mesmo dormindo, minhas ideias estão acontecendo. Percebo isso quando eu acordo, parece que não descansei, mas pensei sobre muitos assuntos. Minha mente é inquieta. Meu cérebro não respeita ordem, organização, hierarquia. Leio três livros por mês, às vezes mais. Nunca primeiro um depois o outro. Sempre tudo ao mesmo tempo. Estou concentrada numa coisa, outra vem e invade, emendo as duas, pronto. Prejudiquei o soneto. Falo sobre coisas grandes enquanto penso em pequenices e vice-versa. Inicio na lista do supermercado. Termino na previsão do tempo. Sendo que passei pelo horóscopo no meio dos assuntos. Durante um café alguém me disse “tu és uma usina”, referindo-se a essa minha falta de foco. Odeio reuniões. Não consigo ficar concentrada numa coisa só. Faço reuniões de corpo presente e mente oscilante. Vem, olha, vai. Repete. Gasto calorias nessas caminhadas de ideias.



Não gosto quando dizem que eu tenho TDA. Prefiro que me encarem como uma pessoa plurifuncional de pensamento difuso. Só isso.



Outro dia perguntaram-me se eu tratava meu TDA. Nunca fui diagnosticada porque nunca fui ao médico para saber se tenho TDA. Mas creio que sim. Meu pai tem, minha irmã tem, minha mãe – provavelmente – tem, logo, por que eu não teria? Sofreria pela exclusão familiar. Poderiam me pedir teste de paternidade. Primeiro que não sou parecida com ninguém. Ainda por cima vir sem TDA?! Praticamente um sinal de nascença. Uma marca registrada do meu clã.



Então tenho TDA, tudo leva a crer. Porém, acredito que sou muito disciplinada. Muito mesmo. Quando digo que sou estudiosa, não me levam a sério, mas é verdade. A meditação me ajudou muito nisso. Aprendi que preciso de um momento do dia para parar e respirar. Suspirar. Preciso observar. É a folga dos meus atropelos. A usina é carregada de combustível. Varro pra dentro quase tudo que vejo. Limpo a casa, mas encho a cabeça de quinquilharia. Um dia pode servir pra alguma coisa. Um dia posso fazer um brechó!



O resultado oscila entre a perfeição e a tragédia. Não que a tragédia não possa ser perfeita, mas é dona de uma perfeição retorcida, de difícil compreensão. Olha o que são as tragédias gregas, a complexidade. As minúcias, os detalhes. Não se pode deixar passar nada. Coisa que uma pessoa com TDA só consegue com muita disciplina. Aconselho a meditação para todos que conheço. Um momento dedicado à observação, ao pensamento livre. Um encontro com energias superiores. É quase uma oração rezada de fora pra dentro. Acho que Deus fica mais satisfeito comigo quando medito do que quando eu declaradamente rezo. Mas meditação nem sempre se faz num quarto escuro, abusando da solidão.



Esta semana sentei no cordão da calçada e fiquei observando as árvores no outono. Elas se despedem das folhas, as atiram no chão como se fossem beijos de gratidão. É o jeito que as árvores têm de agradecer ao chão por cuidar das suas raízes, permitir que elas ali se estabeleçam e se alimentem. É um ciclo interessante. Porque as árvores ficam nuas no outono e muito vestidas na primavera. Daí elas estão mostrando que a natureza sabe o que faz. Nós também perdemos as folhas nos nossos outonos. Velamos o que não temos mais. Elaboramos nosso luto como quem passa por um inverno rigoroso e depois temos a primavera. É da nossa natureza florescer. É da nossa natureza que venham as flores depois dos períodos de frio. Deus sabe o que faz. Alinhava tudo, faz de todos os eventos a colcha de retalhos da existência. Por isso as nossas atitudes exigem cuidado, haverá repercussão. Em algum lugar, em algum momento, causa e efeito. Estamos unidos.



O momento foi gratificante, o sol estava indo deitar atrás das nuvens. As cores e as texturas do céu eram pintadas em aquarela. Parar, respirar, olhar pra dentro, olhar pra fora. Deus não nos deixa recado na geladeira, porque o que Ele diz não se lê só com os olhos. Precisamos disciplinar nossas vidas, mas precisamos mais disciplinar nosso espírito.



Ter a mente inquieta pode ser uma dádiva.

Mas um espírito inquieto é preocupante.

Para mim a paz de espírito é o genérico da ritalina.



Vai uns engenheiros aí?!


Pra que tanta inteligência?



Pra que tanta emoção?


Qualquer coisa em excesso faz sucesso meu irmão


Quanta gente com certeza


Tanta gente sem noção


Em excesso até o fracasso faz sucesso por aí


E eu tenho fé na força do silêncio


Se as cores vão berrando no sol ensurdecedor


Fecho os olhos… Outro mundo


Vou morar no interior


Transbordou a mesa ao lado


Um tsunami arrasador


Fecho os olhos… Outro mundo


Vou morar no interior


E eu tenho fé na força do silêncio


A fé que me faz


Aceitar o tempo


Muito além dos jornais


E assim mergulhar no escuro


Pular o muro


Pra onda passar


Vi um punk na farmácia atrás de protetor solar


Baile funk no plenário


Ambulância quer passar


Futebol, mesa-redonda, exorcista, camelô


A onda agora é outra onda


Um tsunami arrasador


E eu tenho fé na força do silêncio


A fé que me faz


Aceitar o tempo


Muito além dos jornais


E assim mergulhar no escuro


Pular o muro


Pra onda passar

4 comentários:

Keila disse...

Bom, eu acho que TDA é só um nome cientifico para o aquarianismo, se não for, a gente diz que sim.

Sempre pensei que a mente inquieta é até aceitável, mas o espirito é preocupante.

Meditação é a salvação. E tu sempre arrasa!

jo disse...

Eu tenho TDA, diagnosticado e as vezes medicado.. hahaha depende da minha disposicao, se quero foco ou criatividade...

Maaas meditar: #comofas?

gui disse...

Já cansei de te diagnosticar. Teu TDA é gritante. Colecionadora de adjetivos INS. Amo vc, boa pascoa pra ti e pro bocudinho!

Carlos disse...

TDA? A Kuky??? Nããããoooo....