quarta-feira, 27 de abril de 2011

errata

Oi. Vim desdizer. Só vim pra desdizer, essa é a grande verdade das próximas linhas. Isto não é uma crônica, é uma borracha. É um backspace, um ctrl + z, um delete, um eject. Entendam como bem quiserem, porque duvido mesmo que alguém se disponha a querer de fato entender. Supor é mais fácil. Prever é mais cômodo. E quer saber? Certo está quem faz isso.





Aquele medo que eu havia mandado sentar no canto está aqui na minha frente, rindo da minha cara, dizendo “eu te avisei”. Chutaria ele, mas não costumo fazer isso com quem tem razão. O medo é o grande vencedor, leva todos os prêmios. Leva todas as vidas. Abraça a todos. É o sentimento mais confortável, porque não se foge dele. O que não é bom, queremos longe e ninguém ou quase ninguém – faz isso com o medo. Pelo contrário, o medo é mantido pertinho. Sem enfrentamentos, sem discordar, nada se questiona. Medo é a perfeição da preguiça. Amar dá trabalho. Sentir medo, não. O amor é importante, porra. Vi isso pichado num muro. Parem. Não é.





Não mandem flores, não mostrem preocupação, não sintam saudade. Não retornem ligações, não mandem mensagens carinhosas, não sonhem com ninguém. Não cultive sorrisos, não abrace, não vele a beleza de um sono. Não explique suas teorias, não diga quem é, não seja intenso, não diga o que sente, o que prefere, do que gosta ou o que odeia. Tudo será suposto, não derrame você. Ninguém quer secar.





“APESAR DAS MUITAS CONVERSAS, POUCA COISA FORA DITA. O ESSENCIAL SEMPRE FICARÁ NO FUNDO, ESMAGADO PELA SUPERFICIALIDADE.” São palavras do Caio Fernando Abreu, estavam nas paredes do meu quarto pra que jamais esquecesse de tirar o essencial do fundo, jamais deixasse a superficialidade esmagar o meu essencial. Bobagem. O essencial que permaneça no fundo. A superficialidade é o que se quer. O essencial é um Hades. É um monstro de sete cabeças. Um cogumelo venenoso. Uma barata na cozinha.





Caio também disse que os dragões não conhecem o paraíso, é meu texto preferido. Eu, como bom dragão, jamais conhecerei. Sigo o destino de ter sempre razão em incinerar frases ditas por outros alguéns, de acordar diferente do normal, de fazer barulho demais, fazer muito alarde. Não vejo a banda passar porque eu sou a própria banda. Andar na ponta dos pés é um esporte que eu nunca soube praticar. Eu sou inquieta e faço bagunça. Sou desmedida. Não peço licença, não pedia desculpa.





Esqueçam tudo que eu já disse sobre sinceridade, sobre cansar de jogar, sobre não criar expectativas. Esqueçam tudo que eu falei sobre não ter TPM ou resolver traumas. Comprem TPM na farmácia, inventem grilos, preguem chifres na cabeças das galinhas, não expliquem, confundam. Sejam imorais, irreais, surreais e ainda assim sejam comedidos. Imponham limites, aliás, limitem o tempo. Cronometrem afeto. Meçam dedicação e, mais que isso, cobrem a conta. Amor que não cobra a conta não pode existir. É proibido gostar diferente. Peçam algo em troca, peçam tudo em troca, queiram tudo. Façam do relacionamento uma estatística. Façam do casal um negócio com lucros e dividendos sentimentais. E não admitam nada, pode ser crueldade. Falem pelo outro e não escutem.





O amor é tão simples que dificultar é obrigatório.



O amor é tão sem sentido que está na contramão.





Abusem do quase. Neguem a completude. Reneguem o carinho. Quem mais precisa dele não vai querer receber. É oferecer água a quem quer morrer de sede no deserto.





Carpinejar – a quem muito devo - escreveu na crônica FULMINANTE: "Sou do amor fulminante, como um enfarte. Perder a razão. Casar na hora, em dias, esquecer que não era possível, esquecer as dificuldades, esquecer os entraves e pormenores. Não dar tempo para criar problemas. Não dar tempo para ponderar com opiniões dos próximos. Não aceitar conselhos de ressaca, decidir ébrio e arrepender-se amando. Ultrapassar-se. [...] A aliança nem conheceu minha mão direita. Mal cumprimentou [...] Não me exibo, caso. Não faço futuro, caso logo pra fazer passado". A camisa do meu time tinha esse escudo. Virei a casaca. Devia ter algo na minha água, de novo o pó de abril.

Vou pro time do último, do fundo falso. Sim, há ironia nisso... Mas de que adianta o Universo conspirar a favor se podemos teimar contra?!

 

Esqueçam de tudo que eu lembrei. Voltem a enterrar tudo que eu desenterrei. Cubram as verdades, fechem as janelas, pintem as paredes de cor escura. Não dancem sem música, não andem saltitando pelo corredor, não cantem pra desafinar, muito menos inventem a letra, nem palavras. Não entendam, não respeitem, invadam, violem, explodam. Não confiem em mim! Eu sou apenas uma ex investidora da bolsa de valores pessoais. Meus valores faliram e eu não percebi. Sou ultrapassada e antiquada. Engordem o baú de guardados. Essa é a fórmula. Não sentem nas nuvens, isso é importante. Desacreditem. Duvidem. Façam a prova real.





Tudo bem, não é tudo que se vê por aí? Não é o certo? O comum? Falei alguma novidade?



Desliguem os livros, leiam a TV.





Vou na adega buscar uma garrafa de sono. E mapas, bússolas, GPS e manuais de instrução. Há regras onde a gente nem sonha. E é aí que eu me perco. Melhor, eu me perdia.



Lirismo demais me dá insônia.  



Isto aqui é apenas literatura. Sem entrelinhas.



(Não perguntem se isso foi um texto impulsivo, não sejam óbvios. Ou melhor, sejam sim. Hoje eu perdi qualquer critério. )


***  Agradecimento especial ao Gu e ao Felipe, sempre presentes com a sinceridade mais afiada que qualquer navalha.


*** Agradecimento mais que especial ao Carpinejar, pela dedicatória com eco. Vou voltar pro time, mas só na primavera. O outono é um bom velório.

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E por ter citado dois mestres da literatura no texto, a trilha sonora vai com dois mestres também.

Al Lado Del Camino


Fito Páez

Me gusta estar a un lado del camino

fumando el humo mientras todo pasa

me gusta abrir los ojos y estar vivo

tener que vérmelas con la resaca

entonces navegar se hace preciso

en barcos que se estrellen en la nada

vivir atormentado de sentido

creo que ésta, sí, es la parte mas pesada



en tiempos donde nadie escucha a nadie

en tiempos donde todos contra todos

en tiempos egístas y mezquinos

en tiempos donde siempre estamos solos

habrá que declararse incompetente

en todas las materias de mercado

habrá que declararse un inocente

o habrá que ser abyecto y desalmado

yo ya no pertenezco a ningún istmo

me considero vivo y enterrado

yo puse las canciones en tu walkman

el tiempo a mi me puso en otro lado

tendré que hacer lo que es y no debido

tendré que hacer el bien y hacer el daño

no olvides que el perdón es lo divino

y errar a veces suele ser humano



no es bueno hacerse de enemigos

que no estén a la altura del conflicto

que piensan que hacen una guerra

y se hacen pis encima como chicos

que rondan por siniestros ministerios

haciendo la parodia del artista

que todo lo que brilla en este mundo

tan sólo les da caspa y les da envidia

yo era un pibe triste y encantado

de Beatles, caña Legui y maravillas

los libros, las canciones y los pianos

el cine, las traiciones, los enigmas

mi padre, la cerveza, las pastillas los misterios el whiskymalo

los óleos, el amor, los escenarios

el hambre, el frío, el crimen, el dinero y mis 10 tías

me hicieron este hombre enreverado



si alguna vez me cruzas por la calle

regálame tu beso y no te aflijas

si ves que estoy pensando en otra cosa

no es nada malo, es que pasó una brisa

la brisa de la muerte enamorada

que ronda como un ángel asesino

mas no te asustes siempre se me pasa

es solo la intuición de mi destino



me gusta estar a un lado del camino

fumando el humo mientras todo pasa

me gusta regresarme del olvido

para acordarme en sueños de mi casa

del chico que jugaba a la pelota

del 49585

nadie nos prometió un jardín de rosas

hablamos del peligro de estar vivo

no vine a divertir a tu familia

mientras el mundo se cae a pedazos

me gusta estar al lado del camino

me gusta sentirte a mi lado

me gusta estar al lado del camino

dormirte cada noche entre mis brazos

al lado del camino

al lado del camino

al lado del camino

es mas entretenido y mas barato

al lado del camino

al lado del camino

 
 
Samba do Grande Amor


Chico Buarque

Composição : Chico Buarque de Hollanda

Tinha cá pra mim

Que agora sim

Eu vivia enfim

O grande amor

Mentira

Me atirei assim

De trampolim

Fui até o fim um amador

Passava um verão

A água e pão

Dava o meu quinhão

Pro grande amor

Mentira

Eu botava a mão

No fogo então

Com meu coração de fiador



Hoje eu tenho apenas

Uma pedra no meu peito

Exijo respeito

Não sou mais um sonhador

Chego a mudar de calçada

Quando aparece uma flor

E dou risada do grande amor

Mentira



Fui muito fiel

Comprei anel

Botei no papel

O grande amor

Mentira

Reservei hotel

Sarapatel

E lua de mel

Em Salvador

Fui rezar na Sé

Pra São José

Que eu levava fé

No grande amor

Mentira

Fiz promessa até

Pra Oxumaré

De subir a pé o Redentor



Hoje eu tenho apenas

Uma pedra no meu peito

Exijo respeito

Não sou mais um sonhador

Chego a mudar de calçada

Quando aparece uma flor

E dou risada do grande amor

Mentira




3 comentários:

Candice disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Candice disse...

Impressioanda com o teu texto, talvez por me identificar com cada palavra escrita. Nesse descompasso de sentimentos, nesse frenesi do novos tempos, um brinde ao vazio!! Pode ser de copo cheio, mas sem nada pra comemorar ou comemorando tanto que já nem se sabe o motivo... um ode as contradições dessa geração perdida e espremida entre paredes virtuais. Bom saber que existem pessoas que usam as palavras como catarse, nesse tempo onde "se desliga o livro e se lê a TV"... Apesar da dolorida constatação sei que tu, eu e muita gente ainda acredita... dias melhores virão!! um abraço, Candi

just KUKY it disse...

Acredito MUITO! ;-)