sábado, 1 de janeiro de 2011

pinguim mais bonito da festa


Tenho grande dificuldade em duas coisas: ser silenciosa e ser pontual.



Nos casamentos sempre rezo pra noiva se atrasar pelo menos quinze minutinhos, porque é o tempo que o maldito relógio costuma manter de vantagem contra mim. Chego esbaforida na igreja, subindo uma série infinita de degraus, segurando o vestido longo com uma mão, decote e bolsa com o outro. Certamente o coque de tranças deve ter pendido para algum lado, o de baixo, imagino. No meu rosto já têm mais fios do que os que foram propositalmente deixados soltos. Abro a porta central da igreja, todos que já estão sentados olham pra trás. Não, eu não sou a noiva e pra minha sorte, ela ainda não chegou. A cerimonialista avisa-me que a entrada dos convidados é a lateral. Tudo bem, no próximo casamento, sem entradas triunfais. Neste, já é tarde. Aliás, bem tarde, nada da noiva. Consegui lugar em uma das últimas fileiras, ao lado de um senhor de bigode que usava um perfume de cheiro cítrico muito forte. Tentei desviar o nariz da rota do cheiro e a cauda do vestido da rota dos pés dele.



O vestido era da minha irmã, era longo, cinza escuro, de cetim, com rendas e pedrarias no busto, decote generoso, costas de fora e uma cauda. O caimento era justíssimo até a altura do joelho, depois abria e eu, delicada como sou, caminhava me sentindo um pinguim de salto alto. Olhei em volta, eu era o pinguim mais bonito do casamento – com exceção da noiva, mas ela ainda não estava na igreja. Em casamentos a noiva deve sempre ser a mais bonita. Quase uma hora de atraso e meu estômago já ensaiava os primeiros roncos. Tenho fome a cada duas horas, fazia uma vida que eu não via comida pela frente.



Dane-se. Meu estômago é o único órgão do meu corpo capaz de mandar no cérebro. Antes que alguém pergunte pelo coração, ele vai bem, obrigada. Só deixou de ser um órgão, há horas. Levantei, fui saindo da igreja pela porta lateral, me esquivando da moça que puxou as orelhas na chegada, catando as chaves do carro dentro da bolsa. Precisava comer. Descendo a escadaria gigantesca, carregando bolsa, segurando o rabo do vestido, decote, chave, soprando os fios que caíam na minha cara, esbarrei com alguém que comentou:



- Ué, não bastasse fugir dos teus casamentos, agora também foge dos casamentos dos outros?



Era Guilherme, sempre agradável. Com laser nos olhos, respondi que ia buscar meu batom no carro. Somos amigos há quase vinte anos, Gui, eu, o noivo, Daniel e mais outros. Duvido que alguma vez tenham me visto de batom. Nunca usei, não está nos meus planos usar, mesmo assim o atrasado Guilherme não contestou.



Levei meu estômago até o drive thru mais próximo. A fome estava morta. A próxima a morrer deveria ser eu, porque tinha uma mancha de cheddar do tamanho de uma bola de gude no vestido. Na minha família nunca houve caso de homicidas, mas a tendência existe. A minha irmã não pensaria meia vez antes de torcer o meu pescoço por causa da mancha. Desci do carro, fui até o banheiro do lado de dentro da lanchonete e agora eu tinha uma poça de água no tecido, entre a coxa e a bacia, do tamanho de uma bola de tênis. Mentira, do tamanho de uma bola de boliche. Voltei pro casamento, que deve ter sido mais rápido do que a demora da noiva, vi os noivos saindo, a chuva de arroz. Adoro a parte do arroz. Nunca entendi muito bem por que jogar arroz. Uma vez alguém me disse que era pra desejar fartura. Outro alguém já me falou que pros chineses é uma simbologia do desejo de fertilidade. Bom, eu acho bonito, gosto de ver a noiva com arroz no cabelo. Sério.



Todo mundo se organiza pra sair atrás do carro dos noivos rumo à festa e eu junto, fazendo de conta que já estava ali. Guilherme passa por mim, faz sinal pra baixar o vidro.



- Tu sabes onde é?

- Não, mas vamos seguindo...

- Olha só, tem gergelim no teu nariz.



Oh, Deus, indícios da materialidade do meu crime de fugir do casamento do amigo para satisfazer a minha gula. Na festa, fiz de conta que comi, fingi que não estava nos meus dias de maior apetite. Mal sabem que minutos atrás eu estava atracada com sanduíches e batatas fritas. Aliás, a mancha no vestido era mais aparente ainda depois de seca, eu caminhava com a bolsa na frente pra disfarçar. Na hora de tirar foto com os noivos, segurei o arranjo da mesa na minha frente. Literalmente, me escondi atrás da moita. A sobremesa eu comi, ataquei também a mesa de doces e fui dançar, deixando enfileirados em cima da toalha branca os copinhos de mousse de limão pra mais tarde.



Eu sou um pára-raios de gente esquisita. As figuras mais estranhas da festa grudam em mim. Eu no grupinho dos meus velhos amigos de guerra, vem um baixinho, de cabelo crespo até os ombros, narigudo, fanho, bêbado dançando de maneira constrangedora. Eu, que quis ser simpática, danço um pouco, viro as costas e vou pra mais perto dos meus amigos. O fanho feinho vem atrás, querendo conversar coisas que eu não entendia, perguntando se eu era filha de sei lá quem. Não, não sou. E insistia que eu era. Ora bolas, a menos que eu tenha sido enganada nos meus trinta – e quase um – anos de vida, sei bem quem são meus pais! Lá ia eu, cobrindo a mancha com a bolsa, segurando minha cauda, o decote e soprando os fios de cabelo buscar proteção de algum amigo. O ruim de ter amigos há tanto tempo, é que eles já me enxergam como um outro cara. Não raro me chamam de “meu”. Quando virei as costas pela milésima vez pro toquinho de amarrar bode, não é que ele passa a mão na minha bunda! Ato contínuo, minha bolsa foi parar na cara dele. Eu, furiosa, fui parar na mesa. Braços cruzados, ensaiando um beiço, com um vinco de ira entre as sobrancelhas, resolvi interagir.



A mesa estava bem agradável. Os pais e a irmã da noiva haviam se sentado lá. Deviam estar entrevistando os amigos do noivo para terem certeza de que a filha não fez uma boa escolha. Enquanto eu tentava esconder a mancha do vestido, meus amigos lembravam, na frente da família, de uma vez que ri e saiu suco pelo meu nariz, de quando caí de um cavalo porque não sabia montar, quando juntamos tocávamos limões podres nos ônibus e depois saíamos correndo. É... uma mancha no vestido não é nada perto de várias manchas no passado. Quando eu pensava que nada mais podia piorar, lembraram que eu tinha namorado o noivo. Por favor, eu ainda tinha dente de leite quando isso aconteceu e desconhecia beijo na boca. O noivo era mais alto que eu – hoje, passei léguas da altura dele. Sorri e disse que ia fumar um cigarro na rua – eu não fumo. A noiva nunca foi muito minha fã, a família me encarou preparando a fogueira, convocando os demais convidados para fazer churrasco de uma bruxa: eu.



Catei uns doces da mesa, fui para a varanda do salão de festas. Sentei no chão, olhando pro nada. Meu amigo e noivo e ex-namorado, o Trigo, sentou-se do meu lado, com a mão no meu ombro.



- Alguém não está tendo uma boa noite.

- Bom... eu te avisei pra não casar, agora, não reclama.

- Gracinha. Estou falando de ti.

- Ai, Trigo, eu estou tendo uma boa noite. Ela é que não está tendo uma boa eu.

- Bobagem, mostra pra ela quem manda.



Peito estufado, voltei pra festa, pra pista, pra música, para os amigos. Voltou o fanho a me infernizar. Do alto dos meus cento e setenta e três centímetros de altura, coloquei as mãos na cintura e disparei antes que ele tentasse abrir a boca:



- Olha aqui, queridinho, eu não coleciono tampinhas, pega esse teu meio metro de pessoa e some do meu campo de visão antes que eu te prenda em algum armário!



Grosserias não são o meu forte, mas funcionou. Mandei o chato de volta pra Lilliput.



Na nossa mesa a família da noiva havia dado lugar para algumas moças para quem meus amigos faziam a corte. Sentei em uma das cadeiras, tirei os sapatos, estiquei o pé por cima de um deles e comecei a lembrar das (des)aventuras amorosas de cada um. Espantei as raparigas. Fomos dançar com o noivo, ainda que a família me olhasse com cara de reprovação. Dane-se. E àquela hora, dane-se a mancha do meu vestido também. Mesmo com mais fios soltos caindo nos meus olhos, eu ainda era o pinguim mais bonito do casamento. Com exceção da noiva – já disse! Foi uma belíssima festa. Felicidades aos noivos!



Cheguei em casa, lá pelas quatro da manhã, não achei minha chave. A campainha não funciona, meu celular não tinha bateria e buzinar estava fora de cogitação. Solução: arremesso de sapatos na janela da irmã mais nova. O primeiro sapato foi parar no telhado. O segundo bateu na janela, bem no alvo, eu dancei chá-chá-chá na calçada pra comemorar. Minha irmã não acordou. Voltei pro carro, improvisei uma cama. Meu pai madruga, em breve serei salva. Se eu tivesse que fazer de novo, faria tudo igual, adorei a noite.



Deitada no banco do carro, olhando o céu por uma das janelas, as estrelas pareciam ter escrito o meu nome. E aquilo me valeu a noite. Um pouco de tormenta não torna menos doce a recompensa.



Dei à noite uma boa eu.


Amanhã, talvez

Esse vendaval faça algum sentido

Dá pra se dizer

Qualquer coisa sobre todo mundo



Por hoje é só

Vou deixar passar a ventania

Talvez amanhã

Vento, vela e velocidade



Mar azul, céu azul sem nuvens

Logo ali depois da curva

Ali, logo ali,

Ali depois da curva



Amanhã talvez

Esse temporal saia do caminho

Dá pra escrever

O papel aceita toda qualquer coisa



Por hoje é só

Vou deixar passar a tempestade

Talvez amanhã

Água pura e toda verdade



Mar azul, céu azul sem nuvens

Logo ali depois da curva

Ali, logo ali,

Ali depois da curva



Ali, logo ali,

Ali depois da curva

Ali, logo ali

Eu vi, eu vim, venci a curva




(POUCA VOGAL - DEPOIS DA CURVA)
 
 
P.S.: Eu tenho a melhor irmã do MUNDO.
P.S.2: Eu sou fera no joguinho do avião!!!
 
Feliz 2011.

4 comentários:

Carlos disse...

A foto ta Linda, mas eu queria ver uma com a mancha de chedar... hehe
Grande 2011!

BETO disse...

Foi o casamento do drama lembra? Eu ri mto lembrando desse casamento. bj.

disse...

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

adorei!

Keila disse...

História mais envolvente essa?! Começou o ano bem. Linda foto.
Beijos