sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

letras e pedras

Assim como o meu filho, também carrego no meu porta-malas pedras e letras. Comentei que o Eduardo ganhou de natal um carro, desses de pedalar e que tem um bagageiro, não muito grande, mas cabe uma que outra coisinha. Perguntei o que ele carregava ali, a resposta foi uma das melhores: pedras e letras. Ele, com dois anos, já descobriu o que eu demorei algum tempo para saber. Não interessa a capacidade do porta-malas, reserve espaço suficiente para carregar as letras e as pedras.



São os itens mais importantes. As letras formam as palavras, não sempre para serem ditas, também para serem escutadas, digeridas, guardadas, escritas. Pelas palavras a gente se comunica, pede informação sobre o caminho, informa a si mesmo que se perdeu. As letras formam as tatuagens internas, compõem o pensamento, afinal, não se pensa abstrato, se pensa concreto. As palavras são projetadas na estrada, como as placas que guiarão o caminho de volta pra casa.



Uma letra dará a mão pra outra, costurando a mensagem que vai dentro na garrafa.



Os substantivos serão formados pelas letras e também os nomes que a boca sussurrará buscando diminuir a distância. Serão feitos carinhos ao pé do ouvido com elas. As palavras servirão de lição, porém, devem ser selecionadas. Devemos levar todas as letras, mas nem todas as palavras. Há aquelas que não devem ser ditas, porque precisam de lapidação.



As pedras contarão histórias. Juntaremos justo as que nos fizeram tropeçar. Guardaremos aquelas que nos provocaram quedas, que gravaram declarações na nossa pele em forma de cicatriz. As pedras serão atiradas quando necessário. Livrar-se das pedras dá uma sensação de leveza.



As pedras serão únicas em seu formato, cor e textura. São o concreto do desgosto, mas juntas, empilhadas, são o que nos elevam a um degrau superior. As pedras serão nossos antagonismos, nossos desesperos, as arrogâncias, as frustrações. Não as carregamos para serem remoídas ou relembradas, mas porque nos compõem. Precisamos das pedras para sermos autênticos. Gravamos em pedra aquilo levaremos com orgulho, pendurado no pescoço. Nossas melhores lembranças também são pedras, estão alojadas no muro da memória. Cobrirão alguns buracos, preenchendo vazios como se fossem forjadas para aquele espaço.



Hoje eu carrego letras e pedras para todos os lados, demorei para entender que sou feita delas. Eu demorei para aceitar. Ando carregando muito mais do que letras e pedras, ando confeccionando mais bagagem. Mas uma coisa não ocupa o lugar da outra.

 
 
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Como se explica um determinado nível de intimidade e de se sentir - bem - à vontade com alguém que se tem pouco tempo de convívio? Ou melhor, "convívio".
 
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Sweet Thing (Van Morrison)

And I will stroll the merry way

And jump the hedges first

And I will drink the clear

Clean water for to quench my thirst

And I shall watch the ferry-boats

And they'll get high

On a bluer ocean

Against tomorrow's sky

And I will never grow so old again

And I will walk and talk

In gardens all wet with rain

Oh sweet thing, sweet thing

My, my, my, my, my sweet thing

And I shall drive my chariot

Down your streets and cry

'Hey, it's me, I'm dynamite

And I don't know why'

And you shall take me strongly

In your arms again

And I will not remember

That I even felt the pain.

We shall walk and talk

In gardens all misty and wet with rain

And I will never, never, never

Grow so old again.



Oh sweet thing, sweet thing

My, my, my, my, my sweet thing

And I will raise my hand up

Into the night time sky

And count the stars

That's shining in your eye

Just to dig it all an' not to wonder

That's just fine

And I'll be satisfied

Not to read in between the lines

And I will walk and talk

In gardens all wet with rain

And I will never, ever, ever, ever

Grow so old again.

Oh sweet thing, sweet thing

Sugar-baby with your champagne eyes

And your saint-like smile...

4 comentários:

Fabiano R Battaglin disse...

Grandes metáforas, Lou!!!
I loved it!!!

Lipe disse...

Saudade, bocuda!

Carlos disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Carlos disse...

É Kukynha, Genialidade é hereditária... Beijo pro Fido Duca.

Gostei das "tatuagens internas".